Corpos sonoros

Haverá hoje cada vez menos pessoas que ouvem álbuns de música. Enquanto antes a relação do ouvinte com a música gravada se dava preferencialmente através dos suportes analógicos (discos, cassetes, etc.), com a hegemonia dos suportes e meios de reprodução digitais a lógica da «playlist» suplantou a do «álbum». (Essa nova forma de ouvir música não é, obviamente, melhor nem pior que qualquer outra; é simplesmente outra.) Trata-se, portanto, de uma mudança determinada não pelas próprias obras musicais produzidas – tanto mais que os formatos predominantes da edição música continuam a ser equivalentes aos que antes se usavam, LP, EP, etc. –, mas por uma alteração nos suportes e meios de reprodução, cujo espaço e modos de armazenamento facilitam e induzem a organização de listas de canções de acordo com o interesse do próprio ouvinte, liberto que está do constrangimento físico dos meios analógicos. Mas é igualmente interessante notar que a relação física do ouvinte com a música mudou também significativamente. Também nesse aspecto, a mudança é determinada muito mais pelos dispositivos técnicos do que pela música propriamente dita. Ouvir uma faixa num leitor de mp3 ou num smartphone com headphones é imediatamente uma experiência para a qual é convocado todo o corpo, na medida em que é no interior do corpo que é reproduzida a música.

A questão da relação física do ouvinte com a música que ouve não é nova. Já em meados dos anos 1960, o supergrupo Theatre of Eternal Music, constituído por John Cale, La Monte Young, Tony Conrad, Angus MacLise, Terry Jennings, Marian Zazeela, entre outros, pensava a sua música como forma de superação de um falso dualismo entre entretenimento, como forma de distracção, e arte, na forma de artefacto que serve para ser contemplado, procurando construir um campo de experiência física comum em que operassem simultaneamente os corpos dos músicos e dos ouvintes. Esse campo comum constituía-se pelo preenchimento de espaço e tempo por massa sonora, uma construção por camadas gerando uma experiência sensorial de infinitude do som. «Dream music», chamavam-lhe eles.

O álbum Sombras Incendiadas, de David Maranha e Helena Espvall, recentemente editado pela Three:Four Records, remete-nos justamente para o «interior do sindicato dos sonhos», para a tensão interminável de um som que se acumula no espaço e no tempo. Com a enorme vantagem de, em 2015, poder ser reproduzido dentro do nosso próprio corpo…

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