O fim de Dirty Beaches e a emancipação pelo desenraizamento

Dirty Beaches, o nome pelo qual tem respondido Alex Zhang Hungtai nos últimos anos, terminou. O anúncio foi feito por Hungtai nas redes sociais, logo após a edição do seu último álbum, Stateless, gravado em Lisboa no início de 2014. Numa entrevista do final do ano passado ao The Quietus, Hungtai adianta uma interessante razão para essa decisão: «O formato banda é muito constrangedor. Culturalmente, as “bandas” são obrigadas a tocar constantemente os “hits”, (…) o que é muito limitador. Nunca pediríamos a um pintor, a um escritor ou a um cineasta que fizesse a mesma coisa duas vezes. Mas, enquanto músicos, somos obrigados a repetir as nossas performances infinitamente, até ao final da carreira.» Esta resposta é tanto mais interessante na medida em que Dirty Beaches nunca foi verdadeiramente uma banda, no sentido mais comum do termo. É certo que em diversas gravações e espectáculos participam outros músicos, mas nunca houve propriamente qualquer estabilidade nessas formações, e, na maioria dos casos, é Hungtai que canta e toca sozinho.

A recusa de Hungtai de corresponder à expectativa da repetição tem, porém, menos a ver com uma reflexão sobre os formatos comuns da cultura pop do que com o seu próprio percurso de vida, marcado pela permanente condição de migrante. Alex Hungtai nasceu há 34 anos em Taipé e, desde então, viveu em locais tão diversos como Honolulu, Montreal, São Francisco, Nova Iorque, Xangai, Toronto, Berlim, Lisboa ou Vancouver. É por isso um mosaico de experiências que parece ser incompatível com a fixação que um nome, ainda que também ele uma máscara, determina. Hungtai explica: «Detesto ser classificado musicalmente, uma vez que isso me faz recordar quando, na infância, as pessoas me perguntavam “O que és tu, chinês, taiwanês, americano ou canadiano?”, e, dado que vivi em todos esses lugares, não sou autenticamente de nenhum deles. Sou uma colagem de todos esses lugares, e aceitei-o.» É curiosa, também do ponto de vista da música de Hungtai, esta referência à ideia de colagem, quer olhemos globalmente para o percurso das suas já imensas gravações, onde identificamos uma constelação de referências, quer olhemos especificamente para o último álbum. Seguindo o caminho já esboçado na segunda parte do álbum anterior, Drifters/Love Is The Devil, e projectando o que aparentemente serão os seus próximos passos criativos, as quatro faixas de Stateless apontam justamente para uma construção precária, por camadas que se sobrepõem, interpenetram, encaixam e desencaixam, numa tensão que, mesmo depois do final da última faixa, parece não ter fim.

A paleta de estilhaços que compõe esta espécie de desenraizamento existencial e estético não deixa, no caso de Hungtai, de se alimentar de uma certa angústia: «Vive-se esse processo de saber/não saber porque partimos, ou pior, de não se ter quaisquer memórias que remetam para essa “pátria imaginária” (…); cresce-se vivendo, tendo esperança, procurando preencher esse vazio. Essa necessidade de regressar ao lugar de onde vimos. Mas a triste realidade é que esse lugar não existe realmente, como se vê claramente em tantas comunidades de diáspora em todo o mundo.» A viagem, a deriva, a deslocalização permanente, parece ser simultaneamente resposta e resultado dessa angústia, com consequências políticas e estéticas significativas: estabelecendo um paralelo com os filmes de Wong Kar-wai, Hungtai refere que «a personagem central de Dirty Beaches é o resultado [da experiência] de alguém que viaja por grandes distâncias à procura de algo, no exílio, no lugar errado, sem casa para onde regressar».

A recusa da eterna repetição, assinalada inicialmente, e a impossibilidade do regresso implodem não só a ideia de «pátria» mas também, e por maioria de razão, a de «estrangeiro», sobretudo enquanto auto-representação – como se pode ser estrangeiro se não se tem um lugar de onde se é? –, o que abre um potencial emancipatório forte, sobretudo se extrapolarmos o caso individual para a experiência colectiva.

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