O elogio da distracção

A generalização dos downloads gratuitos alterou profundamente a recepção musical. Como qualquer transformação, esta não dispensou uma dramaturgia específica e um anúncio pesaroso: o fim de um ideal-tipo de ouvinte, simultaneamente apaixonado, colecionador e versado nas coisas musicais. Este especialista das artes musicais, que se auto-construiu como figura de culto, o melómano, assumiu para si uma relação privilegiada com os objectos musicais. Soberano de uma experiência musical autêntica, o melómano despreza aqueles que vivem imersos nos fluxos informáticos, a sacar torrentes de álbuns e a renegociar géneros musicais, permanecendo indiferentes às fronteiras musicais que o melómano foi estabelecendo historicamente. Em vez de um constante policiamento do gosto, e de uma recepção musical centrada no recolhimento a na concentração, o ouvinte contemporâneo é eclético e distraído. Praticando aquilo que Walter Benjamin designou uma «recepção na distracção», o ouvinte contemporâneo não só navega descontraidamente entre géneros musicais, como manda para as malvas toda uma economia da atenção, predicada no recolhimento e contrária às apropriações distraídas.

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