Adultos pintados e a fazer de mortos


Um espectro paira sobre o black metal: o da parvoíce. Assim é desde que o estilo nasceu e, verdade seja dita, é parte da sua magia. O assalto que encenou à cultura e aos bons costumes iniciou-se nos anos 80, fruto da relação incestuosa entre o punk e Satanás acontecida algures nos antros fétidos das periferias industriais britânicas. Mas foi no coração da Social-Democracia, no norte da Europa, em plena década de 90, que surgiu a sua expressão mais horrenda, provavelmente com o propósito de lembrar que afinal nem tudo ia assim tão bem. Desde então, o estilo tem desbravado caminho e tem-se reinventado constantemente, causando a ira dos mais puristas. Inevitavelmente, este fenómeno extremamente individualista e com pretensões de ser a maior heresia convive muito mal com os “desafios” à sua própria ortodoxia. Mas lá tem sobrevivido a todos os óbitos que lhe são declarados (com ironia, afinal o que este estilo mais comemora é a morte) e conseguido preservar algumas das coisas mais interessantes e universais que tem para nos oferecer: um “não” maior que o próprio mundo, a negação absoluta. O tempo em que o black metal era quase sinónimo de crimes hediondos – desde incêndios de igrejas a homicídios atrozes e aleatórios – parece ser parte do passado. Não totalmente, é claro: há sempre um idiota escondido num canto qualquer de serra eléctrica em riste ou com uma boa colecção de machados medievais prestes a atacar. Mas a verdade é que já não assusta velhinhas e famílias funcionais com o mesmo sucesso. Seja como for, o black metal conseguiu fazer todo este percurso sem deixar de ser um enorme recreio onde alguns adultos, com pinturas na cara e roupa empoeirada para simular que acabaram de emergir de uma catacumba qualquer, insistem em brincar com alguns dos maiores tabus da humanidade.

Eu sei que custa aceitar que uma cambada de tarados como os que povoam as páginas da história do estilo estão mais próximos de nós do que parece. Mas a verdade é que o black metal, apesar de marginal, nunca foi menos parte da cultura popular do que a tarantela ou festival da canção napolitano. E não é só pelo seu namoro com tudo o que cheira a “folk” e “tradicional” ou por tratar peculiarmente assuntos que nos dizem respeito a todos. Nos últimos anos, este estilo maldito saiu do esgoto onde residia com meia dúzia de amigos e encontrou um irmão no espírito apocalíptico dos tempos que correm. As suas emanações metafísicas têm-se espalhado um pouco por todo o lado e é cada vez mais comum respirá-las nos lugares mais improváveis: na academia (com a emergência da black metal theory), na televisão (o True Detective é um exemplo, até pelas suas ligações a alguns dos autores da black metal theory) e até na culinária (com o soberbo vegan black metal chef: http://youtu.be/eovuIfeH2k4).

Obviamente, este extravasar de fronteiras começa por verificar-se na música. Uma das provocações mais estimulantes e escandalosas vive no “travestismo queer” e dançável das versões dos The Soft Pink Truth de algumas das músicas mais influentes no género (projecto de um dos membros do duo electrónico Matmos): http://youtu.be/cEC2hUHqEg4. Mais consensual é a missão de levar Belzebu às massas por parte dos suecos Ghost BC, com uma sonoridade mais pop e um vestuário menos improvisado que a maior parte dos projectos black metaleiros:

Dois dos projectos que mais expectativa têm gerado para estes primeiros meses do ano também têm as suas particularidades e mostram este crescimento que se verificou nos últimos anos, ainda que musicalmente sejam incomparavelmente mais fieis ao género do que os exemplos anteriores.

A primeira é Ghost Bath, é um one-man project e vem de paragens tão longínquas e improváveis como a China (acho que não conhecia nenhuma banda de black metal chinesa). A música nova que por aí circula arranca em fúria com os previsíveis blast beats e tremolo picking e viaja de forma bastante envolvente por melodias que invocam as sonoridades mais post- (de uns Deafheaven, por exemplo) até nos entregar ao som suave de um piano que nos embala até ao fim da música. Não é particularmente original, mas surpreende pela composição.

O segundo caso é o dos Volahn (projecto solo de Eduardo Ramirez) e do novo disco que já anda por aí, Aq’ab’al . Quem não conhece o anterior Dimensiones del Trance Kósmico, apercebe-se logo que vai ouvir algo minimamente diferente pela capa bastante colorida para os padrões do estilo. Volahn é, segundo Eduardo, “black metal indígena” e, como dá para imaginar, os seus temas de eleição não são nem a mitologia nórdica nem a misantropia e a depressão mas sim a cultura ocultista Maya. Através deste híbrido (provavelmente capaz de desagradar aos chauvinistas do estilo) conseguimos perceber que as florestas tropicais sul americanas carregam tanto negrume e solidão quanto os gélidos e nebulosos bosques nórdicos. Se tiverem dúvidas, oiçam esta música e atentem ao que surge depois do minuto 9. Do melhor.

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