Lençóis de cetim e champagne para dois

Produto de uma estratégia editorial que pretendia promover a mulher enquanto intérprete de pop-rock, As Doce foram mais do que um conjunto musical. Para uns, elas personificariam o desejo feminino, o direito ao prazer e à satisfação pessoal. Para outros, elas simbolizariam a folclorização pop das reivindicações feministas e a sua redução a uma performance superficial.

O célebre «boato Reinaldo» dá-nos conta do impacto público, e extra-musical, que As Doce tiveram no início da década de 80. Proveniente da Guiné, Reinaldo celebrizou-se como avançado do Benfica, onde fez dupla com Néné, o goleador que não sujava os calções e que se distinguiu pela sua técnica e subtileza. Já Reinaldo, dizia-se, era do «estilo raçudo», um primado de força, robustez e voluntarismo. Se em termos futebolísticos, Reinaldo foi associado a um conjunto de noções que remetiam para um suposto «instinto africano», redutor e essencialista, o «boato reinaldo», segundo o qual Laura Diogo de As Doce teria sido hospitalizada por ter praticado sexo anal com Reinaldo, veio dar espessura ao argumento racialista. Um produto das fantasias do colonialismo português que, ao mesmo tempo que inferiorizava e animalizava, atribuía uma hipersexualidade aos negros.

Mas não só. O «boato», que teve larga difusão e chegou a miúdos e graúdos, também serviu para punir exemplarmente As Doce, na pessoa de Laura Diogo, que pagaram o preço por tanta ousadia e «licenciosidade». Assumindo contornos de um castigo moral, o «boato» terá contribuído para que o complexo da culpa e os aparelhos de sujeição afectiva, que atingiam sobretudo a mulher, fossem reactivados na sociedade portuguesa. Embora estivesse instalado no coração do show-biz, e tivesse uma duração episódica, naquele tempo o festim sensual de As Doce parecia ainda difícil de assimilar: «Bom é estar deitada/ Tão bom de madrugada/ Tão bom/ E sentir-te assim tão perto/ Então estamos sós enfim/ É demais/ A noite tão quente assim/ É demais/ Lençóis de cetim e champanhe pra dois/ É demais.

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