O encantamento do mundo

Edward Shils disse algures que os Estados Unidos da América eram a sociedade mais justa do mundo não por o serem objectivamente mas por que haviam conseguido criar a percepção de que eram a sociedade mais justa do mundo, uma terra de oportunidades. Pelo menos desde os anos cinquenta do último século que as vantagens do perspectivismo já eram apreciadas tanto pelo mainstream mais talentoso da sociologia americana, com Parsons a dirigir, como nos corredores do departamento de Estado e nos calabouços dos serviços secretos, frequentados também por alguns dos mais conhecidos cientistas sociais.

Isto tudo a propósito do albúm que Bob Dylan acabou de lançar com canções popularizadas por Frank Sinatra. Sobre Dylan falar-se-á eventualmente mais tarde. Francis Albert Sinatra nasceu em New Jersey, filho de um pugilista de segunda categoria emigrado da Sicília,  conhecido nos ringues por Marty O’Brien, e de uma sufragista do norte de Itália, que aparentemente sabia cantar. Sem escolaridade formal, biscateiro em New Jersey, Sinatra foi mais um caso de ascensão sensacional.  De democrata rooseveltiano vigiado por Hoover a apoiante de Reagan, já perto do fim da vida, Sinatra conviveu de perto – perto demais segundo alguns –  com figuras do submundo do crime, como Carlo Gambino, Lucky Luciano, Angelo Turrea e Sam Giancana, personagens que o cinema americano veio depois a romantizar e a espalhar pelo planeta.

Sinatra editou Come Fly with em 1958. Disco conceptual, fala de viagens e romances, temas recorrentes no imaginário da música popular de massas. O mundo dificlmente poderia parecer mais encantado. Da nostalgia colonial do poema de Kipling On the Road to Mandalay (For the wind is in the palm trees/ And the temple bells they say/Come you back, you British soldier/Come you back to Mandalay/Come you back to Mandalay) passando pela versão depurada e desculturalizada de Aquarela do Brasil, que Ary Barroso publicou em 1939 ( Brazil, where hearts were entertaining June/We stood beneath an amber moon/And softly murmured “Someday soon”/We kissed and clung together), e até a Isle Of Capri (It was on the Isle of Capri that I found her/Beneath the shade of an old walnut tree/Oh, I can still see the flowers bloomin’ ’round her/ Where we met on the Isle of Capri) o mundo é cenário para o romance e a fuga de um quotidiano que nos é ocultado, e que Dylan, entre outros, representará de modo menos deslumbrado e realista. O mais extraordinário nesta versão encantada do mundo, e o que a torna muito eficaz, é o facto de ser verossímil que o sedutor e carismático Sinatra pudesse mesmo dizer a uma das suas conquistas: “Come fly with me, let’s fly, let’s fly away/If you could use some exotic booze/There’s a bar in far Bombay/Come fly with me, let’s fly, let’s fly away; Come fly with me, let’s float down to Peru/ In llama-land there’s a one-man band/ And he’ll toot his flute for you/ Come fly with me, let’s take off in the blue.”


Read more: Frank Sinatra – On The Road To Mandalay Lyrics | MetroLyrics 

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