Que mentira danada, ê

Quando se fala de carnaval cita-se invariavelmente Bakhtin para assinalar as componentes transgressoras desta festa popular. No carnaval abole-se momentaneamente a solenidade repressiva das convenções e abre-se uma fissura na ordem regular das coisas, libertando os comportamentos das normas que os determinam. É no carnaval brasileiro que surge com maior força a ideia de uma inversão de mundos, dadas as múltiplas «profanações», ocupações desordenadas dos espaços públicos e a eliminação temporária das distâncias sociais que este proporciona. O carnaval brasileiro daria então fundamento empírico às abstracções teóricas associadas ao carnaval.

Porém, se assistirmos com alguma curiosidade sociológica à transmissão televisiva do carnaval de Salvador da Baía, tido por um dos mais «autênticos», e onde a folia contagia aparentemente toda a população, deparamos com um mundo dividido entre brancos e negros, o famigerado mundo maniqueísta que os estudos pós-coloniais nos convenceram a descartar. Sem vestígios da célebre «democracia racial» brasileira, o que se vê nos blocos de carnaval é uma ilha de brancos cercada por uma corda de negros, que ocupam a função de «cordeiros», i.e. seguranças contratados para segurar as cordas que cercam os integrantes dos blocos, os tais que possuem o «abadá», que os identifica como integrantes do bloco, e têm recursos para entrar na folia. De fora fica o «povão» que se acotovela para ver as suas estrelas desfilar, devidamente guardado pela polícia baiana com seus proeminentes cassetetes. Já dizia a canção «pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos» («Haiti», Caetano/ Gil). Há ainda os «ambulantes», que circulam perto do cordão com as geladeiras aos ombros e asseguram a hidratação dos foliões. Sem esquecer a elite nas «sacadas», o camarote dos abastados que se reúnem para ver à distância o carnaval que o povo tenta fazer, numa actualização neoliberal do universo de Casa Grande e Senzala, destituída da fábula das três raças.

Onde deveria surgir uma inversão de mundos e a eliminação (efémera) das desigualdades sociais/raciais temos a sua confirmação. Dentro deste carnaval segregado parece letra morta o optimismo de Caetano Veloso, que em 1969 proclamava «Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu». Gilberto Gil, em contrapartida, oferece-nos no tema «A Mão da Limpeza», que relê a contrapelo o ditado brasileiro «Negro, quando não suja na entrada, suja na saída», sintomático de uma sociedade onde o racismo se encontra institucionalizado, uma descrição mais convincente do racismo à brasileira, dizendo: «O branco inventou que o negro/ Quando não suja na entrada/ Vai sujar na saída, ê/ Imagina só/ Vai sujar na saída, ê/ Imagina só/Que mentira danada, ê (…) Mesmo depois de abolida a escravidão/ Negra é a mão/ De quem faz a limpeza / Lavando a roupa encardida/ esfregando o chão (…) Negra é a vida consumida ao pé do fogão/ Negra é a mão/ Nos preparando a mesa/ Limpando as manchas do mundo com água e sabão».

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