Black Sabbath e diabolus in musica

Sinos, chuva e trovões. É assim que começa o primeiro álbum de Black Sabbath, lançado há 45 anos, em Fevereiro de 1970. Esta paisagem sonora tornar-se-ia quase uma marca de um estilo que um certo cânone considera ter nascido com este disco, o chamado Heavy Metal, em particular nas suas vertentes mais extremas. Como todas as afirmações canónicas, também esta carrega alguma injustiça. Conhecemos bem a selectividade das histórias oficiais e a necessidade que esta tem de destacar um só elemento no meio dum turbilhão infindo, tornando-o representativo de um todo indomável. E num estilo marginal como este não é possível ignorar a perversidade de afogar as margens na malfadada condescendência da posterioridade. Mas continuemos este caminho tortuoso, pois no meio das curvas e becos sem saída desta história também há alguma justiça. E a verdade é que não incomoda muita gente destas lides que, nas páginas deste passado musical comum, seja Black Sabbath a carregar o seu estandarte pela primeira vez. No álbum de estreia homónimo, encontramos quase todos os elementos que fazem esta horda mergulhar convictamente no negrume e na neblina da existência humana. Já falamos do ambiente que abre o álbum e que nos coloca logo perante a sensação de que não vamos propriamente dar um passeio no jardim. E as primeiras linhas que a voz de Ozzy Osborne anuncia aumentam o desconforto dessa sensação, começando com uma dúvida e não com o alívio de uma certeza: “What is this that stands before me?” Alguns segundos depois chegamos a Satanás e eis que nasce um casamento truculento que dura até hoje. Também o artwork já prenuncia um álbum de família peculiar para os padrões da época, quer pela figura intrigante – uma espécie de Mona Lisa das trevas – poisada no meio de um cenário meio bucólico mas desarrumado, quer pela inequívoca cruz invertida que surge imponente no interior da capa original do disco. sabbath-inner-gatefold

Mas o pioneirismo atribuído a este álbum não se resume à imagética. Antes de Black Sabbath, e, em particular, deste álbum, já muitos artistas tinham namorado ou confraternizado com o demónio. Não só estávamos a sair de uns loucos anos 60, como nas próprias raízes blues do rock e do metal, ainda muito salientes em Black Sabbath, já era possível encontrar, mesmo que meio perdido, o Mafarrico: reza a lenda que Robert Johnson entregou a alma ao diabo numa encruzilhada em troco do sucesso. Portanto, o referido pioneirismo deste álbum está, em grande medida, no encontro bem sucedido dum certo imaginário com uma forma musical particular. E esse encontro sente-se, especialmente, na primeira música, quase toda ela assente na dissonância do intervalo tritonal, o famoso diabolus in musica por muitos anos proibido pela Igreja pelo seu carácter tenso, maléfico e supostamente demoníaco. Honestamente, não sei se os Black Sabbath foram ou não os primeiros, no vasto campo musical em que navegavam, a recorrer ao trítono. Mas parece-me possível afirmar com alguma assertividade que a responsabilidade pela ampla popularidade que o trítono encontrou nas guitarras do Metal se deve à música homónima que abre o seu álbum de estreia. Fica a minha vénia.

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