Che, Charlie, Lisboa

A 20 de Novembro de 1971 juntava-se no Pavilhão do Dramático de Cascais uma autêntica chuva de estrelas, na primeira edição do Cascais Jazz: Miles Davis, Ornette Coleman, Thelonious Monk, Dizzy Gillespie, entre outros. Mas o momento da noite aconteceria quando Charlie Haden, na ocasião contrabaixista do quarteto de Ornette Coleman, se aproxima do microfone e dedica o tema «Song for Che» (de que viria a gravar uma magnífica versão com Carlos Paredes no álbum Dialogues, de 1990) à luta de libertação anticolonial em Angola e Moçambique, sendo correspondido pelo aplauso entusiasta da pequena multidão de cerca de 12 mil espectadores. Seria, no final do concerto, detido pela PIDE e subsequentemente interrogado e expulso do país, com o conselho de que não deveria «misturar música e política».

O episódio é conhecido e tem sido sobejamente evocado, tal como o fez Mike Cooper quando, em Setembro do ano passado – pouco mais de dois meses depois da morte de Charlie Haden –, apresentou, com Steve Gunn, no Teatro Maria Matos, o álbum Cantos de Lisboa, gravado pelos dois em Lisboa no ano anterior. Cooper referiu-se ao caso de Haden no Cascais Jazz como tendo sido a inspiração para o tema «Song for Charlie».

Cantos de Lisboa é o 11.º álbum da série FRKWYS, da editora sediada em Brooklyn RVNG Intl., uma série que consiste em desafiar dois músicos de diferentes gerações, e que toquem géneros musicais similares, a gravarem um álbum juntos. Neste caso juntaram-se Mike Cooper, figura histórica dos blues e da folk britânica, embora tenha evoluído progressivamente para terrenos mais experimentais e para o cruzamento com sonoridades do Pacífico e do Índico, por onde viajou durante anos, e Steve Gunn, um jovem guitarrista da Pensilvânia, virtuoso da guitarra folk norte-americana.

A gravação do álbum deu-se em Lisboa, em 2013, reflectindo as canções o ambiente da cidade, quer através da inclusão de registos sonoros feitos pelos dois quer através das temáticas que evocam. Numa entrevista incluída num folheto distribuído pelo Teatro Maria Matos por ocasião do concerto, à pergunta sobre que influência tinha tido a cidade nas canções, Cooper responde: «Não acho que tenha havido um processo consciente de tocar algo “português” ou “lisboeta”. Mergulhámos na atmosfera da cidade e fomos fazer música juntos.» É curiosa esta ideia que, fugindo de qualquer perspectiva essencializadora, nos remete para um certo universalismo da linguagem musical, ao mesmo tempo que a torna permeável à contingência das circunstâncias em que é produzida – de um modo não muito diferente da forma como o Che do contrabaixo de Haden se tornou arma contra o fascismo e o colonialismo em qualquer ponto do mundo. É, por isso, significativo que, em Lisboa, Cooper e Gunn tenham encontrado inspiração para evocar Charlie Haden, mas também Saramago ou os mais de 350 imigrantes líbios que morreram num naufrágio, em 2013, a tentar chegar a Lampedusa.

Cantos de Lisboa é um álbum intenso, cheio dos diálogos e das mundividências que qualquer Lisboa contém. Pode ser ouvido aqui.

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