Da natureza do gonsalvismo

Lembro-me de ouvir num disco entretanto perdido a voz de Duke Ellington a clamar “Paul Gonsalves, Paul Gonsalves”. O grande maestro celebrava o fim de um solo exuberante de um dos mais notáveis saxofone tenor da sua orquestra. No dia 15 de Julho de 1956, no famoso festival de Newport, Gonsalves começou a solar aos quatro minutos e cinco segundos e foi até aos quase 15 minutos de Diminuendo and Crescendo in Blue e mudou assim o destino de Ellington, que seria em breve capa da Time. Os 27 refrões que saíram do seu saxofone colocaram em êxtase os jovens membros de uma classe média e média alta branca que se juntou aos milhares para ouvir a música dos negros. Segundo o crítico musical mexicano Alejandro Carbajal, que usara a herança da sua tia preferida para comprar um bilhete para Newport, Gonsalves encontrava-se com toda a certeza sobre o efeito das drogas e do álcool, companheiros de existência até à sua morte em 1974, em Londres, três semanas depois da revolução de 25 de Abril e nove dias antes da morte do próprio Ellington. Em Bolonha, o historiador Francesco Guidolin utilizaria este solo de Gonsalves para dissertar nas suas aulas sobre a importância do acontecimento na história.

O individualismo virtuoso fazia parte do contrato entre as grandes orquestras, que depois da Segunda Guerra já se encontravam em decadência, e o seu público, que aos poucos se ia enamorando dos espécimens primevos da canção pop (e depois rock), interpretadas por carismáticos e atraentes cantores, como Sinatra ou Elvis. O jazz seria entregue à custódia das vanguardas que fariam o culto de uma genealogia autoral, onde o solista de orquestra não era actor principal. Gonsalves  sujeitava-se ao mundo hierárquico da grande agrupamento de jazz, pleno de rituais, formalidades e tempos próprios, mas que lhe permitia a ele, como a muitos outros, ir sobrevivendo. O crítico Brian Priestly sugere no entanto que em alguns destes momentos orquestrais Gonsalves foi um pioneiro da atonalidade que depois celebrou Coltrane e Dolphy. Com formações mais pequenas, este filho de caboverdeanos nascido em Brockton, Massachusetts, especializou-se em frágeis baladas de amor. Num editorial da revista portuguesa Pátria defendeu-se que a vulnerabilidade e sensibilidade das baladas de Gonsalves só podiam ser explicadas pelo seu padrão cultural. Um comic obscuro publicado em Chicago assegurava por sua vez que Gonsalves, desenhado a preto e branco, havia sido raptado por extraterrestes e o seu corpo profanado, antes de regressar à orquestra de Ellington, naquela noite de Julho em Newport.

Fica o som do original em Newport e um vídeo do tema tocado noutra ocasião

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