Kafka e a linguagem dos insectos inúteis

Passam hoje cem anos desde a primeira edição da Metamorfose, de Franz Kafka. Terá sido – se bem me lembro, que já passaram alguns anos – o primeiro texto do Kafka que li. Não será, da obra dele, o que acho mais interessante, sendo que não há propriamente nada do Kafka que ache desinteressante.

Ao longo de um século, muitas leituras têm sido produzidas a propósito da desventura de Gregor Samsa. No campo do pensamento marxista, têm sido comum a ideia de que a novela é uma espécie de metáfora da luta de classes, em que o trabalhador, forçado a vender a única mercadoria de que dispõe, a sua força de trabalho, se aliena crescentemente do mundo e da sua própria condição de ser humano, na medida em que essa condição se define pela sujeição da sua capacidade para trabalhar à exploração capitalista. A transformação de Samsa num «monstruoso insecto» é simbólica justamente desse processo de desumanização. Depois de passar alguns anos a trabalhar afincadamente, como vendedor por conta de outrem, para sustentar a família e pagar as dívidas do pai, Samsa acorda um dia transformado em insecto, encarcerado no seu quarto, quase incapaz de se mexer e de controlar os seus movimentos e, portanto, incapaz de voltar a trabalhar. Uma vez que tinha deixado de ser capaz de rentabilizar a sua força de trabalho, Samsa torna-se um fardo e fica remetido a uma condição de inutilidade que só se resolverá quando acabar, finalmente, por morrer, a contento de todos: primeiro do patrão – que se dirigiu a casa de Samsa para averiguar a razão por que, depois de vários anos de pontualidade, ele não tinha ido trabalhar nesse dia –, depois da família e, por fim, dele próprio, que acaba por preferir deixar-se morrer.

A esta leitura, por pertinente que seja, faltam contudo alguns aspectos importantes. Se é feliz a analogia entre a dupla transformação do indivíduo – de trabalhador em inútil e de ser humano em insecto –, também é certo que, à medida que o tempo vai passando, Samsa vai tomando consciência de que a sua nova condição de insecto não é muito diferente da anterior, quando era um trabalhador. Na verdade, também antes os seus movimentos estavam limitados à necessidade de rentabilizar a sua força de trabalho, também antes a sua existência estava aprisionada num corpo que só era útil na medida em que fosse produtivo de valor. Ou seja, mais do que transformação de ser humano em insecto, talvez seja mais próprio falar de uma transformação de insecto útil em insecto inútil. Por outro lado, o processo através do qual Samsa adquire essa consciência é a incapacidade de comunicar. Ainda que continue a pensar, como antes, torna-se incapaz de usar a linguagem para falar de modo perceptível pelos outros, justamente porque os insectos não falam como os seres humanos. Ou melhor, os insectos inúteis não falam como os insectos úteis. Em suma, Samsa deixa-se morrer não tanto por não ser capaz de regressar à sua condição anterior, mas porque a sua condição de insecto inútil o tornou incompreensível pela linguagem dominante.

As consequências políticas desta leitura talvez sejam hoje mais pertinentes do que no início do século XX. De facto, nas condições actuais, mantendo-se o fetiche de que a socialização dos indivíduos se faz pelo trabalho, o capitalismo gera um cada vez maior número de insectos inúteis, deixados à sorte e à morte. Em vez do desejo quimérico do regresso ao «mundo feliz» dos insectos úteis, a resposta política que Kafka pode porventura hoje inspirar será a de colocar em comum a linguagem indiscernível dos insectos inúteis, a única capaz de formular a negação do dualismo abstracto da utilidade/inutilidade da sociedade do trabalho.

Nessa medida, tal como faz o prolífico guitarrista neozelandês Roy Montgomery, também me apetece dizer, cem anos depois, que «Kafka Was Correct». Na canção, o exercício de Montgomery dá conta disso mesmo. A uma guitarra repetitiva e que parece ir para lugar nenhum, responde uma multiplicidade de ruídos dissonantes e vozes incompreensíveis.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s