O elogio da distracção

A generalização dos downloads gratuitos alterou profundamente a recepção musical. Como qualquer transformação, esta não dispensou uma dramaturgia específica e um anúncio pesaroso: o fim de um ideal-tipo de ouvinte, simultaneamente apaixonado, colecionador e versado nas coisas musicais. Este especialista das artes musicais, que se auto-construiu como figura de culto, o melómano, assumiu para si uma relação privilegiada com os objectos musicais. Soberano de uma experiência musical autêntica, o melómano despreza aqueles que vivem imersos nos fluxos informáticos, a sacar torrentes de álbuns e a renegociar géneros musicais, permanecendo indiferentes às fronteiras musicais que o melómano foi estabelecendo historicamente. Em vez de um constante policiamento do gosto, e de uma recepção musical centrada no recolhimento a na concentração, o ouvinte contemporâneo é eclético e distraído. Praticando aquilo que Walter Benjamin designou uma «recepção na distracção», o ouvinte contemporâneo não só navega descontraidamente entre géneros musicais, como manda para as malvas toda uma economia da atenção, predicada no recolhimento e contrária às apropriações distraídas.

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Heroin in Tahiti, tarantismo e tarantella

No seu livro La terra del rimorso, publicado em 1961, o antropólogo e historiador italiano Ernesto de Martino relata-nos a extraordinária história do tarantismo, um estado psicótico comum durante muitos séculos entre as populações camponesas do Sul de Itália, especificamente no Sul da região da Apúlia, o «tacão da bota». Nos meses de Julho e Agosto, logo a seguir ao período das colheitas de Verão, muitas pessoas experienciavam súbitos e irrepreensíveis estados de confusão, com sintomas diversos, que as tornavam nuns casos agressivas, noutros lascivas, noutros ainda sonolentas ou melancólicas, e em todos os casos extremamente sensíveis à música e afectadas por estranhos movimentos corporais, como uma espécie de dança de São Vito. Acreditava-se que esse fenómeno se devia a picadas de tarântulas, sendo que os diferentes sintomas produzidos eram atribuídos a diferentes espécies de tarântulas. O indivíduo tarantato (uma boa tradução será atarantado…) devia ser então sujeito a uma terapêutica que consistia em ter de dançar ao som de uma música, a tarantella, tocada por um grupo de músicos contratados para o efeito pela família do afectado. Esse grupo de músicos começava por fazer um diagnóstico aos sintomas, de modo a perceber de que tipo de tarântula tinha sido vítima o indivíduo e, assim, adaptar o estilo de tarantella a tocar. O tratamento estendia-se por várias sessões, podendo prosseguir no ano seguinte se os sintomas regressassem com os meses mais quentes do Verão.

O livro resulta de uma investigação liderada por Ernesto de Martino uns poucos anos antes na região, levada a cabo por uma equipa transdisciplinar composta pelo próprio de Martino, na qualidade de historiador das religiões, um neuropsiquiatra, um toxicologista, um psicólogo, um antropólogo, um etnomusicólogo, um especialista em serviço social e um fotógrafo. O objectivo do estudo era olhar para o fenómeno a partir do seu enquadramento social, histórico e religioso, muito mais do que apenas desconstruir a mitologia da picada da tarântula. Bastante influenciado, nesta fase, pela publicação, no final dos anos 1940, dos Quaderni del carcere de Antonio Gramsci, Ernesto de Martino empenhou-se na investigação sobre a ideologia e a cultura das camadas subalternas do Sul de Itália. Uma análise dos discursos em torno do tarantismo era, nesta investigação, o ponto de partida que lhe permitia colocar em evidência relações de poder, tensões e mudanças culturais e históricas.

Este e outros trabalhos de Ernesto de Martino do mesmo período serviram de inspiração aos Heroin in Tahiti para a produção do seu mais recente álbum, Canícola, editado em cassete no Verão de 2014 pela No=Fi Recordings, uma pequena editora de Roma. A dupla composta por Valerio Mattioli e Francesco de Figueiredo, vindos da «Borgata Boredom», uma espécie de comunidade de artistas da zona ocidental de Roma, dos bairros degradados imortalizados pelo neo-realismo italiano, explora a vasta paisagem mediterrânica tórrida e poeirenta do Sul de Itália, os seus sons, as suas superstições e mitos. Depois do magistral primeiro álbum, Death Surf, em que os Heroin in Tahiti recuperavam os ambientes sonoros do western spaghetti e os cruzavam com uma panóplia de sintetizadores, efeitos e filtros, Canícola constitui um salto em frente no seu processo criativo. O lado A tem apenas uma faixa, de 18 minutos, que é «uma faixa longa e alucinante que evoca as charnecas tirânicas e os cantos dolentes do Verão mediterrânico, entre ruínas, oliveiras e igrejas abandonadas». O lado B, pelo contrário, é composto por cinco faixas construídas a partir de samples de recolhas sonoras feitas por Alan Lomax e Diego Carpitella no Sul de Itália nos anos 1950. O cruzamento dos samples com as guitarras e os sintetizadores dos Heroin in Tahiti cria uma espécie de banda sonora para um cenário abrasador, marcado pela lentidão e pelo tédio de um tempo cíclico e repetitivo, por vidas violentas e claustrofóbicas, mas também pelo tipo de tensões, relações e construções sociais e culturais que daí resultam. Na medida em que as canções são construídas a partir de sons, vozes, cantos e ritmos pré-registados, o exercício dos Heroin in Tahiti não difere muito da vocação xamânica dos músicos que tratavam as vítimas de tarantismo com a sua tarantella. De facto, à medida que a música dos Heroin in Tahiti dialoga com aqueles sons, há uma espécie de pôr-a-dançar terapêutico, já não para vítimas de tarantismo, mas para memórias de um quotidiano violento.

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