A desruralização de Cash

Segundos depois de ter colocado um disco de Johnny Cash a tocar recebi uma chamada de atenção algo irritada: “que raio de música é essa, isso parece música country”. Sim, em certo sentido era música country. A mesma indignação podia dirigir-se à música sertaneja do Brasil ou a certo “pimba” nacional influenciado pelo “tradicional”. Esta representação negativa do “rural”, associada a certos sons e instrumentos, ganhava uma carga específica no caso da country, que nascera da mistura de tradições musicais dos imigrantes europeus nos Estados Unidos. Se o sul do país ofereceu à grande literatura Mark Twain, Faulkner, McCarthy ou Flannery O’Connor, também produziu música popular amarrada a imagens de uma sociedade branca, pós-esclavagista, nacionalista, racista e própria de Estados rurais e conservadores. Tendo o country uma genealogia e história bem mais complexas do que anterior descrição sugere (com ligações a uma tradição da folk onde imperavam as baladas de teor neo-realista e contestatário), a representação do conservadorismo político e social, ligada às marcas de um ruralismo pouco sofisticado, pareciam agora impor-se.

Quem repreendeu a minha escolha musical constatou rapidamente que o mais recente Johnny Cash já não representava bem essa imagem da música country. As gravações que fez para a American Recordings antes de morrer, pela mão do produtor Rick Rubin, desparoquializaram-o. Rubin seleccionou a obra de Cash. Desapareceram êxitos como Ring of Fire ou Walk the Line, bem como interpretações representativas de certa música do sul; Cash tocou ainda velhos e novos standards da pop, de Simon e Garfunkel aos U2, dos Depeche Mode aos Nine Inch Nails, temas escolhidos para reforçar o pathos existencial do cantor. Nestes discos, uma certa alegria oferecida por alguns ritmos country, a lembrar a festa da aldeia, deu lugar a um universo sombrio, narrado quase apenas pela voz e a guitarra. Em canções povoadas de histórias passionais, onde se cruzavam presidiários, assassinos, personagens desesperados e falhados, Cash não deixou de falar da história dos Estados Unidos, mas sem o entusiasmo que celebrava o heroísmo dos pioneiros cantados pelos trovadores da country.

Desruralizada, esta música aproximou-se também de códigos culturais globalizados, mais ajustada às exigências do mercado internacional, fundamentalmente urbano. A depuração concedeu-lhe o acesso a muitas salas de estar europeias, onde passou a ser moda. Mas se a música de Cash é património universal, ele não deixou de criar a partir da experiência desse mundo rural do sul. Nesse universo, marcado pela Grande Depressão,  os fora da lei transformaram-se em heróis sociais que desafiavam normas e valores e borravam uma narrativa grandiosa da nação.  Para alguns intérpretes desta história, como Hobsbawm quando olha para o mito do cowboy, estas figuras liminares representavam um individualismo inconsequente, e acabavam mesmo, no país dos super-heróis, por ter um efeito político conservador.

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