Os dias de Kanye

A vida privada das estrelas pop dá azo a várias bisbilhotices. Para quem pensa que são só as fotos da Miley Cyrus no Instagram, ou os comentários sobre a saúde do matrimónio de Beyoncé e Jay Z que são alvo de mexericos, as desventuras do casal Thurston Moore e Kim Gordon vieram demonstrar o contrário, provando que não há um fora na indústria do diz-que-disse.

Quem costuma estar quase sempre nas bocas do mundo é Kanye West, que recentemente voltou a causar grande alarido com a sua aparição bombástica nos Brit Awards, onde interpretou o novíssimo «All day». Um tema que poderia fazer parte do abrasivo «Yeezus» de 2013, e prova que o hip-hop, seja no mainstream, ou no underground, continua a oferecer admiráveis aventuras sonoras. Como não podia deixar de ser, a letra de «All day» volta a expor a persona ego-maníaca de Kanye West, nela se incluem referências aos Grammy Awards, onde Kanye West ameaçou interromper o discurso de Beck, galardoado com o prémio de «disco do ano»; loas ao hedonismo desenfreado; ou alusões macholas à «espessura do rabo» da sua consorte, Kim Kardashian. Tudo considerações que fazem com que Kanye West seja a estrela pop que toda a gente deve odiar.

A performance nos Brit Awards assumiu contornos épicos, com Kanye West a fazer-se acompanhar de vários protagonistas da cena grime britânica (Skepta, Jammer, Shorty, Krept, Konan, Novelist, Stormzy, Fekky), que trouxeram os seus acólitos, todos eles vestidos de negro, estilo black-bloc, com dois deles munidos de lança-chamas para acentuar o cenário distópico. Consta que nos últimos 5 anos passaram pelo palco dos Brit Awards cerca de 16 artistas negros, Kanye e os seus acólitos duplicaram esse número numa só performance, e fizeram-no com protagonistas de um género desprezado pelos media. Desde os motins de Brixton de 1981 que o público britânico não via tantos negros na televisão. Calculista na provocação, Kanye decidiu acicatá-la com uso da interjeição «nigga» no final de cada verso, com a ITV a censurar o directo televisivo pelo uso de linguagem inapropriada.

Depois de expor a natureza conservadora e racista dos prémios atribuídos pela indústria musical – que premeia Adele preterindo artistas como os Wu Tang Clan, KRS-One, Mos Def, Public Enemy, Kendrick Lamar, Wiley, para nos mantermos no território do hip hop -, Kayne rumou a Oxford para efectuar uma palestra na Oxford Guild Business Society. Fiel ao seu estilo egocêntrico, Kanye avisou desde logo que não queria ouvir burburinhos porque poderiam interromper o seu fluxo de consciência. A seguir admitiu que o seu ego é o seu calcanhar de Aquiles, dizendo «se eu o conseguisse remover o meu ego havia esperança para todos». Feita a graçola veio a invectiva sobre os efeitos destruidores da divisão de classes na sociedade contemporânea: «temos tantas oportunidades agora, o Obama é presidente, a Beyoncé é cool, os brancos ouvem rap e dizem ‘nigga’ na privacidade dos seus lares. Mas uma coisa que nos ensinam todos os dias e nós nem sequer nos apercebemos é a classe (social). As pessoas julgam que já não existe mais racismo. Então e o elitismo? E o classismo?» Foram assim os dias de Kanye em Inglaterra.

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