A tortura do som

Numa entrevista de meados do ano passado ao Repubblica XL, Arto Lindsay, vocalista e guitarrista dos DNA, um dos expoentes da no wave nova-iorquina na passagem dos anos 1970 para os anos 1980, revelou uma insólita história. Durante o sequestro do general da NATO James Lee Dozier, levado a cabo em Dezembro de 1981 pelas Brigate Rosse, os brigadistas forçavam o sequestrado a ouvir um disco dos DNA, num volume altíssimo, através de um par de headphones. Segundo Lindsay, não se tratara propriamente de uma forma de tortura, mas de uma estratégia para que o general não ouvisse as conversas dos seus raptores. O entrevistador não escondeu a sua surpresa e perguntou-lhe como tinha tido conhecimento do episódio, ao que Lindsay respondeu que tinha ouvido uns rumores na altura, acabando por reconhecer que não passava de uma lenda. Uns meses mais tarde, o entrevistador, Valerio Mattioli, publicou na Vice um artigo em que procurava desenvolver o tema, especulando sobre o sentido que poderia ter uma hipotética relação entre a no wave e a militância política da esquerda autonomista italiana no final dos chamados «anos de chumbo». O esforço revela-se um pouco ingrato e essas ligações, incluindo o episódio do disco dos DNA no rapto de Dozier, são tudo menos evidentes.

Mas a utilização da música, e em geral do som e de dispositivos sonoros, para torturar prisioneiros e para todo o género de manobras militares é uma realidade que vem de longe. Ficou, por exemplo, célebre o episódio da rendição de Manuel Noriega quando, no final de 1989, na sequência da invasão do Panamá pelos Estados Unidos, se refugiou no edifício da embaixada do Vaticano. As tropas norte-americanas cercaram o edifício e, alguns dias depois, instalaram um poderoso sistema sonoro direccionado para a embaixada e a emitir permanentemente. O objectivo era claro: pressionar Noriega e a sua entourage barricada, mas também os próprios elementos da embaixada. Como o que interessava era a projecção sonora, o conteúdo que era projectado era relativamente indiferente, pelo que as faixas que tocavam eram as da emissão da rádio das tropas estacionadas no Panamá, cuja playlist era escolhida pelos próprios soldados. O resultado foi, em certo sentido, surpreendente, não tanto por casos como o óbvio «Panama», dos Van Halen, mas por canções bastante improváveis naquele contexto. É o caso, por exemplo, de «War Pigs», dos Black Sabbath, uma canção antiguerra que tanto podia ser usada para criticar regimes apoiados (e posteriormente caídos em desgraça…) pela CIA e os Estados Unidos como, por maioria de razão, a própria CIA e os Estados Unidos. Noriega acabou por se render já no início de Janeiro de 1990, não tendo deixado de haver quem ficasse convencido que a estratégia de «bombardeamento sonoro» desempenhou um papel essencial.

Mais recentes, e com maior impacto mediático, foram as utilizações de faixas de heavy metal para torturar prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Grahib, em 2008, no contexto da chamada «Guerra Global contra o Terrorismo». Os Metallica foram uma das bandas usadas inicialmente, o que motivou um protesto dos próprios, não sem alguma ambiguidade. Afirmou na altura James Hetfield, vocalista e guitarrista da banda: «Parte de mim fica orgulhosa por terem escolhido os Metallica, mas a outra parte fica desapontada. Não temos nada a ver com o assunto e tentamos ser, o mais possível, apolíticos. Penso que a política e a música, pelo menos para nós, não se misturam.» Passaram então a ser usados os Demon Hunter, uma banda de heavy metal cristão. No final desse mesmo ano, um grupo de artistas lançou uma campanha contra a utilização de música para torturar prisioneiros, a campanha «Zero DB», após a divulgação de diversos casos em Guantánamo. Muitos destes casos, bem como uma investigação sobre o uso sistemático de técnicas e dispositivos sonoros pelas forças armadas norte-americanas ao longo do tempo, podem ser consultados num interessante artigo de Suzanne Cusick, publicado no número de Dezembro de 2006 da revista Trans. Revista Transcultural de Música.

Um não menos interessante artigo de Anabela Duarte sobre o tema acaba de ser publicado na Music & Politics. O foco, neste caso, é o fascismo português e o artigo trata de uma forma abrangente a «Violência Acústica e Acusmática e a Tortura no Estado Novo», sobretudo a partir do período do pós-Segunda Guerra Mundial. Anabela Duarte analisa a evolução do recurso por parte do regime fascista a um conjunto de técnicas e dispositivos sonoros no seu combate contra a oposição clandestina, desde a tortura de prisioneiros ou a perseguição política ao controlo e deturpação dos julgamentos, da relação entre os prisioneiros e os seus advogados, etc. Também neste caso avulta a relação entre a PIDE e a CIA, através de acções de formação e importação de métodos, no contexto da cooperação que a administração norte-americana mantinha com os regimes mais sanguinários na perseguição aos comunistas. Um tema que estará ainda certamente por explorar, e que Anabela Duarte aflora no final do artigo, é a forma como a música e o som tiveram também um papel na resistência política, nomeadamente no interior das prisões fascistas em Portugal.

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