Fa-Fa-Fa-Fa-Fa-Fa-Fa-Fa

Em 1982 foi editada uma biografia de Otis Redding. O autor, Martin Kulawski, um engenheiro hidráulico americano de origem polaca, viajou para França em 1959 para trabalhar na construção da barragem de L’Escale, na região dos Alpes Marítimos, e por lá ficou. Em meados dos anos setenta este homem convenceu um pequeno editor de Avignon a publicar a biografia do rei da soul. Kulawski teria conhecido Redding na sua Geórgia natal, onde frequentaram a mesma escola; manteria ainda com ele uma troca epistolar. Otis: la vraie histoire (Avignon: Éditions Furtifs) nunca foi traduzido em inglês, nem em outra língua. Na página 152 deste livro Kulawski transcreve parte de uma carta onde Redding se refere a Fa-Fa-Fa-Fa-Fa-Fa (sad song), canção editada em 1966, mais ou menos um ano antes da sua morte.: “Marty, estive a tarde toda a consertar a cerca da casa, e a minha cadela não parava de ladrar. Estou agora a escrever uma coisa que tem um refrão que parece não ter sentido. Mas vai ser mais uma canção de amor. “ Era uma canção de amor, chegou ao 29.º lugar do top britânico e começava logo pelo refrão (fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa), coisa que poucos, como os Abba em Dancing Queen, se atreveram a fazer.

 

Oito anos depois uma banda da aborrecida cidade norte-americana de Providence chamada The Artistics lançava uma nova canção cujo refrão revelava o seguinte fraseado: Fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-farbetter. Psycho Killer não era um tema de amor nem propriamente um tema com tema, pormenor não indiferente para esta história. No ano seguinte a canção passou a fazer parte do repertório dos Talking Heads, a nova banda de David Byrne e Chris Frantz, formada em Nova Iorque em 1975. Psycho Killer começava com uma inesquecível linha de baixo e continuava num corrupio criativo difícil de encontrar nas discografias inteiras da maior parte das bandas pop dos últimos 40 anos. O documentário Stop Making Sense, realizado por Jonathan Demme em 1984 a partir das imagens de vários concertos dos Talking Heads, abre com Byrne a interpretar Psycho Killer com uma guitarra acústica, acompanhado por uma batida proveniente de um rádio portátil, a desempenhar o papel do baixo. Um comentário sugestivo sobre a evolução do pop nas últimas décadas. De acordo com fontes bem informadas, o refrão de Psycho Killer foram os Talking Heads buscá-lo à melodia de Redding. Mas o fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa já não era exactamente o mesmo. A imaginação de Redding servia ainda um modelo de canção romântica, mas o refrão de Psycho Killer assinalava uma reconstrução mais livre e extraordinária do formato canção. Se a arte pela arte existisse isto seria um elogio à arte pela arte.

 

 

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s