Ai, ai, ai é amor. É amor!

Desde a invenção de Gutenberg que a escrita se tornou a forma predominante de transmissão cultural. Mais do que uma questão de aura, aqui parece ser o peso da história a relegar para segundo plano a música gravada. O disco só se tornou um formato comercial de gravação no início do século XX e só a partir da década de 1950 as inovações tecnológicas permitiram a fabricação e a reprodução em série dos suportes musicais.

O factor histórico explica parcialmente a prevalência da escrita sobre a música gravada na expressão dos afectos, em particular nas formas de cortejo, com as cartas de amor, e as suas declinações contemporâneas, via sms e outras, a assumirem preponderância. Com efeito, a escrita como instrumento ou expressão dos sentimentos constitui uma espécie de mónada mágica que continua a marcar o imaginário romântico. Na canção «Cartas de Amor», o eterno romântico, Tony de Matos, evidencia a importância das cartas de amor nas formas de galanteio, dizendo «Quantas noites em claro passei/ A escrever para ti/ Cartas banais/ Que eram toda a razão do meu ser/ Cartas grandes, extensas, iguais/ Ao meu grande sofrer». A importância concedida ao sentido da letra e as determinações do imaginário romântico talvez não tenham permitido a Tony de Matos eleger o disco como outro mediador do discurso amoroso. Porém, a tecnologia encarregou-se de superar as formas tradicionais de comunicar o amor, expressas materialmente nas cartas. Bastaria ouvir qualquer rubrica radiofónica «os discos pedidos» para verificar como as canções de Tony de Matos serviram de suporte a diversas declarações de amor.

Particularmente dotado para entrever no coração razões que a própria razão desconhece, Chico Buarque não deixou de integrar as emanações da cultura popular urbana no seu reportório, reconhecendo nos discos artefactos culturais centrais para a representação do discurso amoroso. Na letra da canção «Trocando em miúdos», Chico Buarque narra a dissolução de um relacionamento amoroso, descrevendo o difícil processo da divisão de bens: «Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!/ O resto é seu/ Trocando em miúdos, pode guardar/ As sobras de tudo que chamam lar/ As sombras de tudo que fomos nós». Contrariando o poder soberano da escrita, Buarque evidencia como a legibilidade do amor pode igualmente estar vinculada a um disco, também ele fundamental para a narrativa passional.

Afunilar o discurso amoroso a um texto escrito empobreceria as formas de cortejo e tornar-nos-ia indiferentes aos rebates amorosos incluídos, por exemplo, no reportório de Al Green. Na coluna «Baker’s Dozen», incluída no website The Quietus, onde várias personalidades do universo pop-rock são convidadas a escolher os seus discos favoritos, o casal Chris Frantz e Tina Weymouth, ex-Talking Heads e responsáveis pelo desvario funk dos Tom Tom Club, escolheram precisamente o álbum «I’m Still In Love With You» de Al Green, gravado em 1972 na legendária Hi Records. Chris Frantz justificou a sua escolha, dizendo que o disco Al Green serviu de forma de cortejo e foi central para o início do relacionamento amoroso. Segundo Chris Frantz «This is the record I would put on to woo Tina, and it worked». Tina Weymouth, por seu turno, afirmou como a colecção de discos de Chris ajudou a construir a ligação afectiva: «I always went to Chris’s house to listen to music, because he had the best collection. And yes, it worked, over time». Concluindo com aquelas declarações que têm tanto de banal como de irresistível, o casal Chris Frantz e Tina Weymouth confessou que Al Green se converteu na banda sonora do seu romance. Amor e felicidade. Falta-nos porventura restituir o sentido simples das coisas e, já agora, fazer algumas adendas aos «fragmentos de um discurso amoroso».

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