Do som comum ao fim da economia

O que terão em comum a música folk e a música electrónica? A questão pode parecer bizarra, sobretudo se o ponto for alguma espécie de comparação estética. Mas ganha interesse e relevância se a pensarmos no contexto dos modos de produção e circulação musical e da economia política das indústrias musicais. Vejamos, por exemplo, o que diz a esse respeito Laurie Spiegel, pioneira da composição musical por computador, numa extensa entrevista que deu em Novembro passado ao site New Music Box: «(…) o modelo electrónico é muito similar ao modelo folk. Há material que circula e é transmitido de pessoa para pessoa. Tem uma forma variável; está constantemente a ser transformado e modificado para ser útil a quem o esteja a trabalhar, tal como sucede com as canções folk. As pessoas trazem novas letras para as mesmas melodias, ou fazem de uma balada uma faixa de dança. Ninguém se lembra qual é a origem. Não há um criador individual. Não há um proprietário. O conceito de propriedade não faz aqui sentido. Na forma como os sons electrónicos circulam – as pessoas samplam coisas, fazem remisturas ou samplagens, aproveitam pedaços de som das faixas umas das outras –, o conceito de uma peça com uma forma fixa finita, com um criador identificável, que seja propriedade e meio de troca, ou portadora de valor económico, desaparece efectivamente, de modo muito semelhante quer na música folk quer na música electrónica ou por computador.»

Spiegel acerta na mouche quando introduz na discussão o problema da propriedade autoral e do modelo económico. Com efeito, todo o debate que nos últimos anos se adensou acerca da questão dos direitos de autor, a pretexto de uma discussão ética sobre a valorização da figura do autor, tem na verdade no seu fundo a implosão de um modelo económico e a ruína das condições para a sua rentabilidade. Não será por acaso que a iniciativa e a vanguarda das manobras contra a circulação musical livre sempre pertenceram às indústrias musicais, tendo para isso mobilizado muitos autores, as estruturas legais e do Estado, etc. A sustentação ideológica dessas manobras é precisamente a lógica da propriedade, ou seja, a naturalização de um modelo de relações sociais em que os indivíduos são portadores «naturais» de determinadas porções de valor que trocam entre si, procurando que essa troca resulte em rentabilidade para cada um deles. Lamentavelmente, a oposição a este modo de raciocinar nem sempre tem tido a capacidade de verdadeiramente se livrar dele, centrando-se muitas vezes não numa perspectiva de superação da lógica da propriedade, mas procurando imaginar formas económicas pretensamente alternativas. Vejamos, pelo contrário, o que diz Spiegel: «O objectivo da indústria da música é tentar a toda a força tornar tudo identificável e instituir sistemas de royalties e tudo o mais. Mas eu, ainda que pudesse beneficiar desses royalties, penso que, até certo ponto, se trata de uma batalha perdida e da imposição de um modelo que na verdade já não encaixa. Ainda não temos um novo modelo que proporcione retorno económico, mas provavelmente não precisamos desse novo modelo, uma vez que a produção musical é hoje muito mais rápida e barata.»

Já em 1980, quando editou – curiosamente na Philo Records, uma editora que, ao longo dos anos 1970, se especializou na edição de música folk – o álbum The Expanding Universes, Spiegel parecia identificar uma tendência cujas consequências só hoje podemos verdadeiramente ponderar. Nas longas liner notes do álbum – que podem ser lidas na Internet, juntamente com as não menos longas liner notes da excelente reedição do álbum em 2012 pela Unseen Worlds Records (também disponível online) – Spiegel escrevia o seguinte: «Ganha-se muito com a capacidade de ir até às últimas consequências com a ideia de tocar uma peça para as pessoas sem ser necessário ter o apoio de organizações estabelecidas. Comecei a usar computadores quando era necessário ter algum tipo de patrocínio de grandes instituições para lhes ter acesso, mas no ponto a que chegámos os computadores são suficientemente baratos para quase toda a gente, e é provável que venham a tornar-se um meio popular [grassroots] capaz de uma grande sofisticação musical (…). Muito mais pessoas do que antes serão capazes de aceder a concepções musicais de complexidade e subtileza consideráveis, e em formas replicáveis.»

Efectivamente, 35 anos depois, podemos dizer que Laurie Spiegel não se enganou. A dialéctica da degradação de um modelo económico assente na lógica da propriedade e da democratização do acesso aos meios de produção e de circulação redundou num modo de produzir e circular música que se revela crescentemente irredutível a qualquer mediação económica. Tal como na velha tradição folk, a fluidez cooperativa parece substituir a figura fixa do autor, ao mesmo tempo que o output dessa cooperação é um património musical e sonoro comum, e já não um meio de troca. Talvez este paradigma possa também ser um bom início de discussão mais abrangente sobre a obsolescência da lógica da propriedade e sobre formas de vida libertas da economia.

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