A mundiaudiência de Matana Roberts

Quem não sabe é como quem não vê. Assim mesmo, sem vírgulas nem espinhas, nos declara o senso comum que a cegueira coincide com a ignorância e que, pelo contrário, a faculdade de ver coincide com o saber. Talvez «faculdade de ver» seja de facto a expressão mais adequada, e não tanto «visão», que nos remete para uma dimensão fisiológica. Essa coincidência entre o ver e o saber está, na verdade, mais próxima da vidência do que da visão – não por acaso se chamará mundividência ao pensamento sobre o mundo… Poder-se-ia então dizer, seguindo as artimanhas da linguagem, que pensar o mundo, concebê-lo de algum modo, ou a nós próprios e aos outros, à história, etc., é algo que se deve à capacidade de ver para lá do que se vê. Nessa medida, fazer coincidir o ver com o saber não pode deixar de gerar diversos equívocos (valeria a pena gastar tempo a reflectir sobre a forma como esta coincidência se consolidou na linguagem, mas aqui não é esse o ponto), uma vez que a vidência, contrariamente à visão, é operável por qualquer um dos sentidos. Se se vê, tal como se constrói saber, com os olhos, também se vê, e se constrói saber, com os ouvidos, com as mãos, etc.

Sendo assim, um primeiro exercício de desconstrução da linguagem do senso comum talvez possa ser introduzir outras coincidências entre o saber e os sentidos. Por exemplo, a mundiaudiência, ou seja, um modo de conceber o mundo através da capacidade de ouvir para lá do que se ouve. É algo desse género que nos propõe Matana Roberts no seu mais recente álbum, River Runs Thee, o terceiro capítulo da série Coin Coin, um ambicioso projecto de 12 álbuns que pretende construir uma narrativa sobre a experiência dos afro-americanos ao longo da história dos Estados Unidos. O modo como constrói essa narrativa procura subtrair-se a uma lógica de encadeamento cronológico, de periodização fixa ou de rigidez identitária. Não se trata de uma história da escravatura, da Reconstrução, do movimento dos Direitos Civis ou das tensões raciais que hoje continuam a colonizar esmagadoramente o quotidiano; trata-se, na verdade, de uma história disso tudo junto e ao mesmo tempo, de uma história que vive de diálogos e sobreposições de contingências improváveis que inesperadamente formam sentidos. É, desse modo, uma narrativa frágil e precária, sempre em recomposição, um pouco como a «ténue linha vermelha» que percorre os subterrâneos da História com agá maiúsculo de que falava Greil Marcus na sua História Secreta do Século XX. Imagine-se que se conseguia ouvir toda a história ao mesmo tempo e se procurava descortinar, na cacofonia, os nexos que se escondem para lá do que se ouve.

Do ponto de visto sónico, Roberts radicaliza esse vai-e-vem narrativo através daquilo a que chama «panoramic sound quilting», uma estratégia de colagem que pretende desenhar um mosaico de diálogos e, ao mesmo tempo, confrontar quem ouve com a recomposição infinita da narrativa. Mais do que os dois primeiros capítulos – Gens de Couleur Libres (2011) e Mississippi Moonchile (2013), gravados com banda e mais devedores de uma estética associada ao jazz –, River Runs Thee leva bem longe essa estratégia. Interpretado exclusivamente por Roberts, numa sucessão interminável de camadas e overdubs, o álbum cola a sua voz, o seu saxofone e os seus sintetizadores com sons recolhidos numa viagem recente pelo Sul dos Estados Unidos, samples de diversas canções ou do discurso de Malcom X «Confronting the white oppression», de 1965, ou leituras de excertos de «Down Chasing the Zanzibar Waters», um texto de 1873 de George Lydiard Sullivan.

A determinada altura do álbum, Roberts declara que gosta de contar histórias – e percebe-se que gosta… Mas seria manifestamente redutor apresentá-la simplesmente como uma contadora de histórias. Na verdade, mais do que contá-las, o que ela faz é transfigurar histórias que recolhe e abri-las a uma reconfiguração num plano superior à sua respectiva contingência. River Runs Thee pode ser ouvido aqui. Aguardemos pelos próximos capítulos desta mundiaudiência.

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