Modern Life is War: tédio, angústia e futilidade

Não há nada mais político do que a banalidade das nossas vidas. A dimensão institucional da política, e a separação que encenou da vida quotidiana, contribuiu para que a omnipresença do político se tornasse paradoxalmente invisível. A minha politização fez-se toda fora do quadro institucional, num contexto bastante informal e distante daquilo a que usualmente chamamos a “política”. Foi na música que por acaso descobri as “ferramentas” que me permitiram começar a encontrar legibilidade no mundo em que vivia. Entre o que me tinha sido transmitido sobre esse mundo e aquilo que eu comecei a encontrar pelo meu próprio tacto à medida que crescia, instalava-se uma enorme fissura que se traduzia num misto de confusão mental, sensação de deslocamento não sei muito bem do quê e um enorme aborrecimento. Sentia-me a viver uma tremenda farsa. É um fenómeno geralmente conhecido por “adolescência”, eu sei. E é verdade que a saída que encontrei para isso também é uma terapia comum neste tipo de diagnóstico. Mas é certo que na música – e em particular na “cena” hardcore altamente politizada saída dos anos 90 – encontrei um conjunto de referências e práticas que abalaram quase todos os débeis alicerces em que assentava a “cosmologia” que me tinha guiado até então.

Quando conheci Modern Life is War (MLIW), para aí em 2003 ou 2004, esse choque já tinha sido vagamente superado. Começava, aliás, a invadir-me outro tipo de frustração, causado agora pela esterilidade dessa pequena “cena” que me tinha agitado, cada vez mais entregue ao conforto ritualístico de gritar incessantemente a mesma série de lugares comuns e chavões. Para lá do som muito próprio (raivoso e sujo, com padrões rítmicos e estruturas algo estranhas para as normas do estilo, mas melódico e sem beatdowns, numa fase em que começava a parecer impossível haver hardcore sem tal coisa), MLIW chamou-me a atenção pelas letras e por ter dado sentido a essa “banalidade” da política cada vez mais clara para mim (tanto no hardcore, como no meu bairro ou na escola), unindo o quotidiano com os “grandes eventos” que nos sufocam discretamente e que acontecem para lá do nosso domínio. Nascido e criado num tranquilo bairro povoado de gente sedada pela aparente estabilidade dos anos 90, mas onde a pobreza não era uma memória assim tão longínqua ou uma possibilidade muito remota, identifiquei-me imediatamente com o alerta de que “we’re all dangerously close to the bottom” que perpassa as letras de MLIW.

mliw

O que distingue liricamente Modern Life is War de outras bandas do género é a enorme capacidade que Jeffrey Eaton tem de expressar a trivialidade e a modorra a que a dada altura quase todos parecemos estar condenados. Seja numa letra em que conta a “história” do vizinho regressado da guerra do Iraque como herói, e a quem pouco mais tem para dizer do que “yeah, I’m still playing in that stupid band” (in “John and Jimmy”), seja através das frequentes proto-psicogeografias em que desfia as suas angústias pela paisagem urbana decadente e pós-industrial de Marshalltown, é invariavelmente o absurdo e futilidade existenciais que marcam o imaginário de MLIW. Nessa narrativa surge um tremendo retrato dos Estados Unidos contemporâneos, mas um retrato que é apesar dessa localização um retrato universal, atravessado por um quotidiano e uma panóplia de sentimentos com os quais estamos suficientemente familiarizados. O sujeito das suas letras é geralmente um puto tão aborrecido como eu ou outro gajo qualquer. É a “gente comum” (“we’re common, we’re desperate”) dos subúrbios ou duma pequena cidade industrializada do interior norte-americano, são os reféns do “Sonho”, enterrados na banalidade dos dias e corroídos por um enorme tédio. A comunhão que encontramos com esses sujeitos não é mais do que a de uma experiência partilhada e moldada pela mesma maleita que Marx encontrava por trás da “contínua perturbação de todas as relações sociais, interminável incerteza e agitação” que define a nossa “era”.

A força política de MLIW está em não ser panfletária, nem entrar naquela espécie de discurso pobre de “auto-ajuda” e “empowerment” muito presente nas bandas do género. Não agita bandeiras, não parece ter causas e não faz apelos a nenhum tipo de acção heróica. Para além da ausência de certezas e da insegurança que atravessa cada palavra, em muitas das suas letras, textos ou entrevistas surge aqui e ali um resquício desse nacionalismo banal, ainda que em forma de desilusão, que tanto afasta muita da vanguarda radical da “cena”, mais dada a queimar bandeiras.

Para as bandas mais radicais e politizadas do hardcore, MLIW nunca parece ter sido, por estas razões, uma banda política. E, como é comum, em particular nas bandas norte-americanas, MLIW também sempre recusou esse estatuto (Jeffrey vê o que escreve como parte de uma conversa entre “angry Americans” e, como é comum nas bandas “não-políticas”, quase pede desculpa cada vez que foca explicitamente um tópico político – veja-se, como exemplo, o que escreveu sobre os tumultos de Ferguson). A tudo isto não é alheio um aspecto de classe: nas duas últimas décadas, as bandas politizadas, nesse sentido militante, ficaram cada vez mais associadas a putos da classe média, a frequentar a universidade e com um discurso sofisticado, o que deixou cada vez menos espaço para a malta dos subúrbios ou dos bairros mais fodidos onde pululam as classes baixas. Estes últimos, na melhor das hipóteses, expressam alguma consciência social através da descrição dessa vida quotidiana, sem um grande aparato para transformar uma experiência particular num plano de acção política ou sequer numa linguagem universal apelativa para todos. Expressam a raiva que têm ao mundo nas letras das músicas, mas fazem-no de uma forma que é vista como ingénua e inconsequente, frequentemente a resvalar para um certo niilismo. A separação das águas empurrou cada vez mais miúdos para a catarse imediata da violência dos moshpits e da pertença a uma crew e menos para a dissecação aborrecida do mundo feita através das palavras. Em suma, o hardcore dito “político” reproduzia cada vez mais o elitismo e a “violência de classe” de que procuravam fugir todos os deslocados que ali tinham caído. A “cena” tornou-se um sítio onde se sentiam inúteis e estúpidos, tal como se sentiam na escola.

MLIW veio de certa forma resgatar o lugar de uma rebelião mais visceral e menos encartada de uma “cena” estagnada por uma dicotomia sem nexo. Abriu de novo o espaço para toda a gente falar sem ter medo de o fazer por não ser “especialista” neste ou naquele assunto. A honestidade que as suas letras e textos carregam pode ser menos espectacular do que a provocação estética ou um ataque frontal aos costumes e às instituições políticas que muitas vezes associamos ao punk/ hardcore. Mas a reclamação da dimensão política da banalidade, do quotidiano e da futilidade é, parece-me, o primeiro passo para recuperar o controlo da própria vida por quem cai desamparado na “cena”; é o que permite resgatar a política ao espectáculo “com lista VIP” a que ficou entregue. MLIW é uma revolta onde cabemos todos.

Isto tudo porque MLIW vem “passear” à Europa este mês e, mais uma vez, não passa por Portugal. Como sempre, e sem dinheiro para ir vê-los a qualquer outro lado, compenso-me com um vislumbre da energia que libertam em cada concerto através de um humilde vídeo. Falar de hardcore sem sentir minimamente essa descarga é vazio. Espreitem-no:

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