Liturgy e The Ark Work: Black metal hipster ou transcendental?

Liturgy está de volta com um novo CD, The Ark Work, e, inevitavelmente, volta a ser tema de conversa. Não há muitas bandas que suscitem tanta discussão no Black Metal (BM) como Liturgy. Não é difícil irritar os fãs mais puristas do género, é verdade, mas estes jovens de Brooklyn parecem rebentar com todas as escalas, até porque causam comichão em pessoas menos quadradas e tendencialmente mais abertas (isto é, pessoas que acham que uma demo que não foi gravado num leitor de k7’s ranhoso ou no meio dum bosque nórdico pode ser BM ou até em “fãs” de outros estilos dos campos mais extremos do metal).

Há várias razões por trás das reacções frequentemente extremadas que a banda tem a capacidade de gerar. Como quase todos os estilos de “culto”, a música não é o mais importante, e, como tal, não é só pelo som que Liturgy causa irritação. Mais grave do que alguns dos experimentalismos sonoros, é o vocalista Hunter Hunt-Hendrix ter ar de quem saiu dos Kelly Family e os restantes membros da banda usarem camisolas com cores fluorescentes e às riscas. O BM não costuma perdoar quem parece ter tido uma infância normal e, portanto, não admira que uma das piores acusações arremessadas à banda seja a de “hipster black metal” (para os mais distraídos, “hipster” é uma das grandes ofensas dos nossos dias). Deafheaven costuma ser alvo da mesma acusação horrenda, mas raramente consegue suscitar os mesmos níveis de aversão gerados por Liturgy. É verdade que George Clarke é demasiado simpático para frontman do género, que os músicos da banda são extremamente competentes e que a fila da frente dos seus concertos está muitas vezes preenchida por grandes nomes das Olimpíadas da Matemática (o próprio Kerry McCoy, guitarrista e principal compositor da banda, tem pinta de se ter dado bem com equações), mas são uma banda muito menos pretensiosa a todos os níveis. Os elementos shoegaze e post-rock no seu som não têm nada de anormal no panorama actual e não escrevem ensaios nem tentam inventar conceitos para falar da música que fazem, o que faz com que sua maior excentricidade não vá muito para lá das poses petulantes e dos gestos suaves e sensuais com que Clarke gosta de acariciar o ar.

Uma foto dos gajos com um ar todo simpático e sorridente. Inadmissível.

O lado “intelectual” de Liturgy é um dos principais motivos de repugnância. Paradoxalmente, apesar de gostar de exibir um certo anti-intelectualismo, deve haver poucos estilos tão “intelectuais” quanto o BM, na medida em que tem subjacente uma forte metafísica e uma reflexão filosófica permanente (não está em causa a qualidade dessa reflexão, a universidade também produz um enorme volume de merda e ninguém põe em causa o seu estatuto singular de espaço de produção intelectual). Mas Hunt-Hendrix, o alvo preferencial da ira dirigida a Liturgy, escreve ensaios e estudou na Columbia University. Considera mais pertinente destacar que estudou composição “espectral” com Tristan Murail do que falar sobre a importância que os Darkthrone ou os Emperor tiveram na sua vida. Prefere falar de filosofia a falar de música e, muitas vezes, explica os seus álbuns através de um complexo esquema de diagramas que organizam a cosmologia própria que procura construir. O actual texto de apresentação da banda proclama que Liturgy “exists as a 21st century total work of art (gesamtkunstwerk)” e o músico apresenta-se como um “conceptual architect”. Numa conversa com a Pitchfork sobre o novo trabalho, Hunt-Hendrix assume a pretensão de inventar “a new philosophy that goes with a new music and a new way of making art and living life”. Mais importante para todo o ódio de que é alvo (e que suscitou ameaças e todo o tipo de insultos), foi o manifesto que apresentou, em 2009, no primeiro grande evento académico dedicado à emergente “Black Metal Theory”, sobre aquilo a que chamou Transcendental Black Metal, uma nova fase do estilo que Liturgy se propunha a inaugurar. O Trascendental BM seria a sublimação daquilo a que Hunt-Hendrix definiu como o Hyperborean BM (correspondente, em grande medida, à dita “segunda vaga” do estilo, dominada pela “cena” nórdica), tanto em termos espirituais (transformando o niilismo em afirmação, um niilismo final que seria a negação de todas as outras negações) como em termos técnicos (substituindo o blast beat pelo burst beat). Nas suas palavras, o Transcendental BM constituiria um humanismo apocalíptico, mais positivo, mais “solar” e menos “lunar”, mais “corajoso” e menos “depravado” (termos do próprio manifesto). Parece uma grande merda. Mas, felizmente, Liturgy é melhor do que isto sugere.

Há que reconhecer que qualquer coisa que consiga transgredir num estilo que se considera ele próprio transgressor já merece ser respeitado. E Liturgy consegue fazê-lo, ainda que por vezes o faça através duma enorme desfiguração dos padrões do género (o nome do segundo álbum, Aesthethica, por exemplo, é um neologismo que combina “estética” com “ética” e remete para uma possível sobreposição do “belo” com o “bom” ou o “correcto”, o que parece ir de encontro a algum do moralismo barato do tal Transcendental BM). Noutros pontos, no entanto, creio que abre o interesse filosófico e o potencial emancipatório que o BM pode ter, não só por redefinir o seu carácter provocatório, como também por privilegiar as ideias de hibridez e incompletude permanente em função das ideias de pureza e autenticidade – o que permite atirar fora o chauvinismo idiota que ainda atrai muitas bandas e que contradiz infantil e totalmente o individualismo indissociável do estilo.

Talvez mais interessante é o que acontece em termos sonoros. O elemento técnico dessa “sublimação” representada pelo novo género é, tal como foi dito, o burst beat. Se o blast beat é um fluxo contínuo, eterno, sem princípio, sem fim, sem pausas e sem dinamismo, o burst beat, por outro lado, é definido como um hyper blast beat, um blast beat que expande e contrai, acelera e desacelera, marcado por rupturas e transições súbitas. Nunca chega a lado nenhum: “like a nomad, the burst beat knows it will never arrive”, diz no manifesto. Assemelha-se mais a uma explosão caótica, mas controlada, e menos à sensação de derrocada interminável do blast beat. O trabalho onde o burst beat surge com maior clareza é no já referido Aesthethica (veja-se o vídeo da “Returner“, onde dá para “sentir” a tal técnica inovadora e ainda ver a pinta dos gajos). Em The Ark Work, a técnica continua presente, mas divide o protagonismo com uma polifonia de arranjos com glockenspiels, gaitas de foles, “cantos rituais”, trombetas MIDI e sei lá mais o quê. As orquestrações épicas que surgem em “Fanfare”, a música que abre o CD, são algo entre o jingle de telejornal e a música dum super-herói qualquer, o que desperta, no mínimo, uma certa surpresa que facilmente resvala para o encantamento (quando não vai parar ao choque). Finalmente, o outro aspecto que mais se evidencia nas primeiras audições de The Ark Work é o abandono absoluto daquele que era inequivocamente o elemento mais BM em Liturgy: a berraria. Não é totalmente surpreendente. Já em 2011, numa entrevista, Hunt-Hendrix mostrava reticências em relação ao estilo vocal adoptado, indiciando uma nova abordagem, “more like a glossolalia, a schizoid speaking in tongues, like Lil’ Wayne meets Bizzy Bone but more ritual or Kabbalistic”. E de facto a voz está mais próxima dum “rap” xamânico do que qualquer outra coisa, como se nota logo em “Kel Valhaal”.

Resumindo e baralhando, o que me parece estar verdadeiramente em causa com as polémicas em torno de Liturgy é, creio, a expansão do BM para lá dum nicho relativamente pequeno e “controlável”, o abandono do seu estatuto elitista e vanguardista, e a entrada num terreno mais amplo de consumo musical, abdicando, para isso, de algum do folclore do estilo. É, basicamente, a assunção do BM como fenómeno pop, um produto que tanto cabe no MoMA (onde os Liturgy tocaram) como num armazém com cerveja barata perdido algures. Bandas como Dimmu Borgir ou mesmo Cradle of Filth deram esse salto muito antes, é verdade (e também é verdade que não foram poupadas por isso), mas nunca abdicaram do corpse paint, nem da componente horrífica associada ao género. Além disso, enquanto Liturgy anuncia abertamente a pretensão de dar um novo rumo ao estilo, esse tipo de bandas preocupou-se, acima de tudo, em afirmar a sua “pureza” e a sua trveness, para negar as acusações de que se tinham vendido. Não procuravam reclamar qualquer novidade, antes pelo contrário.

Para me calar, fica o primeiro vídeo deste novo trabalho (um vídeo do camandro, diga-se), feito a partir de uma das ilustrações de Gustave Doré para a Divina Comédia de Dante:

Advertisements
Standard

2 thoughts on “Liturgy e The Ark Work: Black metal hipster ou transcendental?

  1. Pingback: Black metal – Como a internet transformou uma tribo musical isolada – Eskhaton

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s