Cantores românticos e poetas nos seus labirintos

Júlio Iglesias regressa a Lisboa para mais um concerto. No youtube, os comentários aos vídeos de alguns dos seus êxitos estão cheios de frases fofas, amorosas e certamente sinceras. Como notou um jovem revolucionário marxista, personagem de um filme de Bertolucci, o amor está longe de ser apenas uma superestrutura. Sobre Hey, Lupita Gonzales afirma “Todas tus canciones me traían bonitos recuerdos, dios te bendiga”. Vilma Diaz: “Me encanta esta canción, una de mis favoritas por siempre, hey siempre es mas feliz quien mas amo, simplemente lindo para recordar.” Já Márcio Sousa: “I m portuguese but I just love the felling this greath man express in is songs, hope one day appears another Julio Iglesias”. Eddie Pineda: “Sienpre recuerdo a esa persona que jamás se saldrá de mi mente y mi corazón.” Genero Sotomayor: “Y asi, los dias de descanso, las paso pensando en los bellos momentos que pase a tu lado. Los peluches, las miradas, los juegos de palabras, las bromas, los abrazos… las tardanzas mias”. E por aí adiante.

A canção de amor serve talentos dispares, mas no caso dos grandes cantores românticos ela é a pedra filosofal de um contrato entre intérprete e público, um pacto que oferece múltiplas recompensas, sobretudo monetárias, mas que tem o seu lado mefistofélico. Um dos compromissos a que o grande cantor romântico se obriga é a interpretação do papel do grande cantor romântico, fora e dentro do palco. Não é fácil estas verdadeiras máquinas sentimentais libertarem-se da máscara a que se colaram. Pode um cantor romântico deixar de ser romântico? Ou poderá manter-se romântico num quadro estético distinto, arriscando uma lírica menos literal, evitando a melodia pastosa? Talvez, mas a editora e os promotores de espectáculos provavelmente não achariam piada. E o seu público fiel, com algum azar, trocá-lo-ia por outros cantores românticos mais previsíveis. Se o tema amoroso é repertório de comunicação universal, outros assuntos convocam imaginações mais contenciosas. Quando George Michael cantou “Shoot the Dog”, critica cerrada ao então primeiro ministro inglês Tony Blair, os tablóides vieram intimá-lo a fazer o que sabe: canções de amor. O seu amigo Elton John concordou, Michael afastava-se do terreno que devia pisar. A política não era mundo para o cantor romântico e o pacto que firmou com os seus afeiçoados mas exigentes clientes parecia determinar a recusa do espaço público.

São quase sempre assim, os Iglesias, os Robertos Carlos, os Marcos Paulos, os Tonys Carreiras. E até as frequentes aparições em festas partidárias e comemorações autárquicas, ou a fotografia no folheto da campanha eleitoral, acabam por reforçar uma forma de política despolitizada.

Mas talvez os termos deste pacto não afectem apenas os cantores românticos. A propósito da morte de Herberto Helder, Ana Cristina Leonardo recordou no Expresso, num exercício que  se tornou banal enquanto estratégia para marcar as trincheiras simbólicas e práticas do campos artísticos, o que o poeta pensava do neo-realismo e dos escritores neo-realistas: “O neo-realismo, vinculando a literatura a uma acção virtualmente transformadora, mas que os homens não souberam exercer no devido plano prático, criou uma curiosa ‘alienação’, um cómodo processo de fuga”. Os escritores neo-realistas “transferiram para má literatura o que deveria ter sido uma boa acção social. Creio que, assim, pacificaram a sua a perturbada consciência de pequeno-burgueses e imaginaram ter reformado o gosto, a sensibilidade e a imaginação.” A sociologia de Herberto Helder sobre o neo-realismo português é instigadora, porventura injusta com alguns. Mas a defesa de uma arte definida nos seus próprio termos – seja lá isso o que isso for – é legítima e a excelência da obra do poeta está aí para o provar. Helder não tinha de ser neo-realista e muito bem, a literatura pode ter ficado a ganhar e a forma, como se sabe, é também política, por vezes radicalmente política.

Não seria ainda assim do efeito político da forma que Helder falava quando se referiu à “acção virtualmente transformadora”, “exercida no plano prático”. Helder não foi neo-realista e também se escusou a ter uma intervenção política prática,  mesmo que isso significasse somente o exercício da actividade intelectual. Mais uma vez esteve no seu direito. O poeta faz o que quer e bem lhe apetece. Resta saber se esta decisão foi apenas o resultado de uma convicta escolha individual. Apesar da sua aparente liberdade, que não os prende à expressão vulgar do sentimento nem aos encantos da melodia, não estarão os poetas, tal como os cantores românticos, enredados num pacto que os obriga a ajustarem-se à imagem admissível de si próprios, vigiada por um público especializado que é tão exigente que por vezes o poeta consegue acreditar que não escreve para ele? Não é afinal este mundo, onde parece mandar a transgressão e a anomia, um espaço de regras e comportamentos previsíveis?  E não cria esse regulamento invisível – e inadmissível –  uma barreira à entrada destes poetas no espaço público, uma barreira tão alta como a que trava a entrada nesse mesmo universo dos melosos cantores românticos?

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6 thoughts on “Cantores românticos e poetas nos seus labirintos

  1. Giro. gostava de comentar o seguinte, em forma de dúvidas, hipóteses, provocações, sem certezas:
    escrever a poesia que se escreve, escrever a poesia que HH escreveu é um acto político.
    Escolher a vida que se leva, tentar praticar a liberdade consciente e honesta, para si, para com os outros, são valentes exercicios políticos. sejam em poesia mais consensual em certos meios, sejam “gostos das massas”. não será o gosto a ditar o que é político ou não. poderá então ser o romantismo um exercicio poltico? se sim, em que condições?
    fazer as pessoas “felizes e sonhadoras”, ainda para mais se for um exercicio continuado de escuta-partilha, backstage, soldariedade? em on contínuo, como dizem as má linguas ser o caso (da acçao) de tony carreira.
    Analisar a prática da musica romântica – relação-cantor/público, etc etc, como se analisa o futebol. por exemplo.
    Não que simpatize com o “estilo” romântico-literal, mas simpatizo de algum modo com o dar às pessoas o que estas querem, talvez por acreditar nas mesmas.
    uma hipótese: o universo da música romântica ser bem mais político e complexo do que supomos. generoso até. será? já deve haver estudos sobre isto, não sei…naõ sei.
    de momento não consigo explicar-me melhor.
    J

  2. nunodomingos says:

    Olá Joana. Sim, acho que todos esses consumos oferecem muitas coisas e são altamente generosos, não são falsos ou menores. E também concordo que vida que se leva pode ser um acto político, mas isso tanto no Helder como em centenas de milhares de pessoas, bastante mais invisíveis. Mas tratava-se aqui sobretudo de tentar perceber como um acto considerado individual, intimo e estético pode afinal resultar de uma coerção. Não há avaliação moral ou a intimação a uma acção política “correcta”, mas apenas a tentativa de perceber os mecanismos que travam, em duas actividades muito distintas, a capacidade de participar num espaço público político alargado.

  3. Inês says:

    olés, boas perguntas!
    notas bem rápidas, desde bissau:

    dizes ser inadmissível esse regulamento. por ser invisível, apenas?
    se a trangressão manda, não anulará a própria transgressão? o que resta, quando a transgressão, continuada, acaba normalizada?

    mas será a transgressão apenas resultado de convictas escolhas individuais? que é isso, afinal? (tenho dado preferência à ideia de pessoal, quando trato de intimidades, por lá pôr as relações – que é o íntimo, se não em relação?
    o que complica, talvez, esse quadro de coercção social vs escolha individual. muitas dúvidas, no entanto)

    voltando aos casos:
    dizes procurar “os mecanismos que travam… a capacidade de participar num espaço público alargado”. sejam travões alheios, ou vontades de calcorrear outros trilhos, nada disso será toldado por uma relação simples, nem linear, entre público/clientes/críticos. há experiência acumulada, há o dito envelhecimento social. difícil fugir ao que se espera, claro. e importa perceber, nessas situações, também os processos de constituição de esferas de “investimento” (social, afectivo, político) relativamente autónomas, cada qual com habilidades e práticas específicas, dificilmente intermutáveis, diria, que exigem tempo de maturação… daí também as tais barreiras, por vezes um não-conseguir-estar, visceral.
    e daí, se umas surgem em alternativa a outras, mais inacessíveis, por ainda haver deserto para tanto, desertos onde se sabe respirar melhor, por que têm primazia, e/ou maior legitimidade, as mais inacessíveis (esse espaço público alargado, talvez)?

    como a Joana, dou pelo político nesses outros lugares. lá se encontram e desafiam relações de poder, pois. beijos a ambos!

  4. nunodomingos says:

    Tantas questões Inês.
    Inadmissível por ser aparentemente impensável que a transgressão esteja regulamentada. Enfim, não existem convictas escolhas individuais, nem escolhas individuais, ou existiram dentro de certos limites de possibilidade, aqueles definidos por “um não-conseguir estar, visceral”, uma despertença inevitável a um lugar. Mas isto não é bem uma fatalidade, se não era tudo muito aborrecido. Nada é linear. No texto interessou-me focar as relações que ajudam a criar o criador enquanto criador e que remetem para um certo colectivo com poder de criar criadores, o que não significa que o inventem desde as entranhas e que essas entranhas possam ser reduzidas à matemática. O político está em todo o lado, mas não está da mesma forma em todo o lado. Hoje, o mais cómodo é remetê-lo para a idiossincrasia explosiva do ego. Se consequente, ainda assim melhor do que nada, ou mesmo por vezes melhor do que temos com os profissionais que vão sendo os autorizados porta-vozes dos outros no espaço público, aqueles para quem o espaço público é visceralmente seu. Mas nem sempre.

  5. Olá.
    Lembro-me que uma das coisas que me surpreendeu e dps elucidou nas aulas de antropologia política, foi o esquema que o prof desenhou no quadro logo na primeira ou segunda aula. O primeiro era um círculo que representava a sociedade, e depois uns circuluzinhos fora do circulo maior. Ele disse, é assim que normalmente se pensa na marginalidade e na pobreza (e/ou na transgressão). O que é incorreto, do seu e do meu ponto de vista. Então, desenhou o segundo círculo, com vários círculos pequenos ora dentro do círculo grande, ora na intersecção dos seus limites, metade dentro metade fora, mas nunca fora. Este modelo, que me faz todo o sentido, ajuda a pensar nomeadamente nas questões da pobreza, como se estivessem fora da sociedade, como se fossem círculos à parte, e não são. Nem a transgressão, nem as identidades, nem nada. Somos todos seres sociais, inter-relacionais, é um chavão, mas é verdade. Por isso não me faz muito sentido a questão da transgressão, porque claramente a perceciono dentro, ou no limite, logo com regras que se bebem da sociedade, claro está. E nada disto, no meu ponto de vista, menoriza a transgressão, ou lhe dá menos valor. Apenas a contextualiza, por referência, consciente ou inconsciente por parte de quem a prática. Por ter regras, não a torna menos visceral, mesmo que o transgressor as idealize como regras só suas. Acontece que não há tábuas rasas, mas tb não acho que isto menorize seja o que for.
    Discordo com o Nuno quando diz que o mais cómodo hoje” é remete-lo p a idissioncracia explosiva do ego”. Não só não é mais cómodo ao nível do cidadão comum (não é mais fácil agir-se em grupo, suportada por um grupo?), como não é menos político, como não resulta de egocentrismo, mas de uma luta contra a desesperança. Mais uma vez, é impensável separar individual de social. A ação individual inscreve-se num contexto social, age no social, pelo que em última instancia nem sequer faz sentido separar as duas esferas.
    Dá-me ideia que o Nuno tem pouca simpatia pelo que classifica de ego, ou de ações egocêntricas, por não as visualizar em espaço público. Pois eu continuo a insistir que são espaço, criam espaço, e espaço público. Não se age no vazio.

  6. nunodomingos says:

    Simpatizo imenso com o ego e com a política realizada à escala individual, apesar de o efeito propriamente político desta não poder ser avaliado pela própria pessoa que se anuncia operacional desse tipo de acção política, ou pelos seus amigos mais próximos. Mas a questão nunca foi de preferência, ou de simpatia, ou de moral, ou de imposição de um comportamento político correcto. Isso é menos interessante e portanto não podemos estar em desacordo perante um posição que eu não tenho. Tratou-se apenas de um desafio para pensar os limites do político, da participação, da intervenção, do uso da palavra ou da escrita. É um universo limitado, mas relevante, que não esgota, tal como foi referido várias vezes nesta troca de ideias, o universo do político.

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