Os Silver Apples e a utopia intemporal dos osciladores (parte I)

Este ano sai um novo álbum dos Silver Apples, o que só por si seria já relevante, tendo em conta que o primeiro saiu há quase 50 anos. De um modo geral, não se dá grande atenção a discos novos de músicos marcadamente conotados com uma determinada época do passado. Assim aconteceu com os álbuns de originais que os Silver Apples editaram, mais ou menos espaçadamente, desde meados dos anos 1990, como sucede o mesmo com músicos de maior nomeada. Com efeito, ninguém ligará grande coisa a um novo álbum de Paul McCartney, de Brian Wilson, dos Wire ou dos Smashing Pumpkins, mas o mesmo provavelmente não sucederia se, nalgum desses casos, se tratasse de reeditar êxitos antigos, fosse em disco ou em actuações ao vivo. Por exemplo, uma edição em CD de um concerto dos Velvet Underground em 1966, ainda que com um som pouco mais do que indiscernível, terá hoje mais impacto do que qualquer coisa nova que John Cale edite. Tal como um reagrupamento dos Television para concertos em que tocam integralmente o álbum Marquee Moon merecerá muito mais atenção do que todos os discos de Tom Verlaine a solo.

Este fenómeno, particularmente presente nos últimos 15 a 20 anos na ecologia da música pop, inscreve-se no que Simon Reynolds tem designado por retromania, conceito que basicamente designa uma espécie de fetichismo do passado posto em acção por via da explosão dos meios técnicos de reprodução e circulação digital. O conceito de retromania, tal como tem sido teorizado por Reynolds, é suficientemente ambíguo e desafiante para justificar um futuro post sobre o assunto. Mas, para o que aqui interessa, bastará reter a sugestão de Reynolds de que um dos efeitos negativos desta obsessão com o passado é gerar um bloqueio criativo em quem faz música no presente. Ou seja, simplificando, se eu passar a vida a reviver a memória de um suposto momento fundador no passado, estarei em princípio menos apto para fundar novos momentos, para inovar, para «seguir em frente». O tema dá pano para mangas, mas parece inegável que o modo como em geral se olha, por exemplo, para a produção musical dos tais músicos conotados com uma determinada época do passado é devedor de uma lógica semelhante à que Reynolds critica. Se o espartilho do género musical é implacável – a cada músico é sempre acoplada a etiqueta do género, e é dentro das fronteiras desse género que se espera que se mantenha –, o da marca temporal não o é menos. Bem pode Jonathan Richman editar discos há quase 40 anos, que há-de sempre ser visto como o freak de Boston dos anos 1970. Ou ainda que os The Fall lancem discos novos regularmente, Mark E. Smith será sempre o ícone irascível do pós-punk britânico do início dos anos 1980. E assim por diante…

Do mesmo modo, também os Silver Apples hão-de ser sempre aqueles dois gajos que editaram dois discos de música electrónica (digamos, para já, assim…) estranhíssima no final dos anos 1960 em Nova Iorque. E é a essa condição que se espera que façam jus em qualquer circunstância. No caso dos Silver Apples, a «estranheza» da sua música muito contribui para tornar bastante redutora essa etiquetagem temporal. O que habitualmente define uma categorização de época – por exemplo, «música dos anos 1960» – não é apenas o facto de se referir à música produzida nessa época, mas também a circunstância de traduzir uma determinada afinidade estética, formal, temática, etc. com o momento, que permita identificar uma tendência mais ou menos alargada. Ora, a música dos Silver Apples não é enquadrável em qualquer tipo de tendência conotada com a época em que lançaram aqueles dois discos. Em 1967, não havia nada em Nova Iorque que se assemelhasse a uma «cena» de música electrónica. Na verdade, o recurso a dispositivos electrónicos para fazer música, desenvolvido desde há décadas em diversos contextos, era ainda um terreno reservado a especialistas e, em geral, fechado no interior dos muros académicos.

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