Baden Baden

Termina com esta interpretação de “Speak Low” o filme Phoenix de Christian Petzold, que ainda é possível encontrar nos cinemas (as we speak). Para quem não viu, a revelação é inapropriada; ou talvez não, pois a canção interpretada pela grande Nina Hoss, valendo por si, adquire um singular significado histórico-emocional depois da hora e meia anterior da película, que vale bem a pena. Speak Low é um conhecido standard, tocado e cantado entretanto por meio mundo, e composto pelo alemão Kurt Weill em 1943 para um musical da Broadway, numa altura em que o nacional-socialismo no seu país, de onde fugira dez anos antes, parecia capaz de confiscar o planeta. O musical  One Touch of Venus, com música de Weill e letras de Ogden Nash, um poeta de verso ligeiro que gostava de rimar, foi encenado por Elia Kazan e supostamente havia sido pensado para Marlene Dietrich, que recusou o convite. É possível adensar esta rede de nomes, não para efeitos de erudição, mas para pensar as relações entre as vanguardas artísticas e a cultura de massas. Se não vejamos, Weill, aluno de Busoni, inspirado por Mahler, Schoeneberg e Stravinsky, ficara conhecido na Alemanha pela sua colaboração com Bertolt Brecht, com quem partilhava também o gosto pelo socialismo. As suas óperas conjuntas foram traduzidas para inglês e algumas das canções destas obras passaram a fazer parte do Great American Songbook. Nos Estados Unidos, como outros notáveis alemães,  Weill ajustou a sua arte a um sistema de comunicação dependente de uma relação lucrativa entre produção e consumo. Pelo efeito da reprodutibilidade técnica, as experiências nas salas de teatro e ópera eternizaram-se em discos e películas. Como outros musicais, One Touch of Venus foi adaptado ao cinema. Coube então a Ava Gardner cantar “Speak Low”. Quando Weil morreu, em 1950, o filósofo Adorno, também ele compositor, melómano e teórico da forma musical, escreveu um obituário onde acusou o amigo de ter vendido a alma à americana Broadway. A afirmação confirmava  ideias recorrentes sobre a comunicação massificada, associadas à tradição crítica da escola de Frankfurt, e que as premissas da sociologia da música de Adorno pareciam confirmar. E no entanto, de tanto pavlovianamente repetida, a pertinente análise crítica redundou numa simplificação. Outro frankfurtiano, Detlev Claussen, biógrafo de Adorno e de Béla Guttmann, sugere que o problema político em causa, medido pelo efeito da cultura nos indivíduos e nos grupos, não reside no género cultural, mas do que se faz com a sua linguagem. Seria isso que importaria reter do legado de Frankfurt: a linguagem e a sua relação com a história, o que permite olhar para o comércio cultural massificado mais como uma luta- difícil – do que propriamente como uma maré que varre sem resistência. Ora como Claussen demonstrou, numa actividade tão aparentemente banal como o jogo de futebol, o húngaro Guttmann conseguiu manipular com mestria um idioma formal, e a bonita lampionagem ainda hoje lhe agradece, apesar da história da maldição. Enfim, o caso de Weill exemplifica a permeabilidade das linguagens típicas da comunicação de massas ao contributo das vanguardas, fora dos consumos de nicho. A questão política, na realidade, residia em proporcionar e forçar estes encontros. Recentemente, o trabalho do crítico austríaco Felix Gasselich sobre Horkheimer, o outro fundador da escola de Frankfurt, revelou traços desconhecidos da biografia do co-autor de A Dialéctica do Iluminismo, obra onde precisamente se estrutura uma crítica à indústria cultural e às suas fórmulas repetitivas e normativas. Na sua casa de campo nos arredores de Baden Baden, Horkheimer reuniu num enorme baú um arquivo anotado de cultura popular, a que Gasselich terá acedido, antes de mais ninguém. Cadernetas de cromos de futebol com notas estatísticas sobre a prestação de jogadores e avaliações individuais (“Jens Schumann joga bem pela linha, mas defende mal ao centro, abrindo espaço para os interiores adversários”, “Carl Schmitt está gordo e lento, um desperdício de talento e uma afronta aos genes do pai”) coleções inteiras de bandas desenhadas americanas muito manuseadas, notícias de jornal sobre a vida sentimental dos artistas de teatro das principais cidades do sul da Alemanha e vários exemplares de revistas de cinema italianas.

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Segundo Gasselich, baseado em inúmeras entrevistas aos vizinhos de Horkheimer em Baden Baden, este acabou conquistado pelo objectos que desejava criticar. O que lhe parecia repetitivo tornou-se singular: os mecânicos jogadores de futebol adquiram uma fisionomia própria, os actores de westerns pareciam personagens shakesperianas e o jazz deixou de lhe parecer uma música inferior. Arrisca ainda o austríaco, invocando fontes que parecem algo frágeis, que Horkheimer terá morrido agarrado a uma fotografia de Marylin Monroe.

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