A distopia punk no início dos anos 80 – parte 1

Se o início dos anos setenta foi marcado pelo chamado período de ‘degelo’ da guerra fria, através de uma série de acordos pragmáticos negociados, quer entre a União Soviética e os Estados Unidos, quer entre países europeus dos dois lados da cortina de ferro, no final dessa década era já claro que estava de volta, em força, uma lógica de escalada de confronto, em parte derivada de sucessivos conflitos no terceiro mundo (Angola, Etiópia, Afeganistão, Nicarágua). A eleição de Margaret Thatcher no Reino Unido em 1979 e de Ronald Reagan nos EUA em 1980 levaram então à afirmação por parte dos líderes do eixo anglo-saxónico de uma retórica cada vez mais agressiva e provocadora relativamente ao bloco soviético. Este clima belicista, bem como as draconianas políticas socioeconómicas de ambos os líderes, não deixou de ter reflexo na cena musical punk dos dois países, nomeadamente através da propagação de canções em torno de cenários distópicos. Porém, o modo como algumas bandas punk da altura ficcionam novas distopias e apropriam narrativas distópicas populares, ou se distanciam face a movimentos utopistas, não exprime apenas um pessimismo momentâneo, mas uma atitude subversiva mais ampla.

The Clash, que terminam a década de 70 pregando o apocalypse nuclear em tom de escárnio com “London Calling” (“The ice age is coming, the sun’s zooming in/Engines stop running, the wheat is growing thin/A nuclear error, but I have no fear/’Cause London is drowning, and I live by the river”), abordam o assunto num registo ainda mais cómico-grotesco no álbum de 1980, Sandinista! A canção “Ivan Meets G.I. Joe” imagina símbolos das duas superpotências – na gíria britânica, os nomes “Ivan” e “G.I. Joe” referem-se a soldados russos e norte-americanos, respectivamente – numa competição de dança disco, aparecendo assim diferentes formas de ataque como extravagantes passos de dança (“He did the radiation/the chemical plague/but he could not win/with a Cossack spin/The Vostok Bomb/the Stalin strike/he tried every move/he tried to hitch hike/He drilled a hole/like a Russian star/He made every move in his repertoire”). A canção, com uma apropriada batida de disco sound e um bizarro fundo de disparos laser, termina com o dançarino americano a destruir o planeta (“He wiped the Earth/clean as a plate/What does it take to make a Ruskie break?”) e o público, aborrecido, a ir-se embora para assistir à explosão da China.

Outras bandas inglesas da altura pintam o fim do mundo em estilo igualmente iconoclástico. Em 1981, “The Last Rockers”, dos Vice Squad, descreve a devastação atómica derivada de guerras políticas e as ‘estátuas’ cadavéricas dos ‘últimos roqueiros’. Em 1983, “All Gone Dead”, dos Subhumans, imagina também uma guerra em grande escala, mas é mais específica quanto à data (1984, ano simbólico a que voltarei na segunda parte) e às causas (reagindo à intenção de Thatcher de reintroduzir a pena de morte, a canção prevê uma insurreição popular combatida com gases químicos). Embora envoltas em linguagem tétrica e efeitos sonoros sinistros – vento, ruído de estática, coros guturais e um assobio que evoca uma bomba a cair – ambas as letras sugerem que, ironicamente, é no futuro planeta arrasado que triunfará finalmente o espírito de anarquia punk, pois com toda a gente morta ou mutante já não haverá quem possa travar guerras ou subjugar mentes.

Em 1984, cada vez mais frustrados com a apatia social britânica, os Subhumans reimaginam a explosão final, agora ao som de uma mistura lunática de reggae e rock, em “When the Bomb Drops”. Desta vez, a causa apontada é não uma revolta popular, mas sim a alienação e complacência face à crueldade política, alienação essa ridicularizada no facto de ninguém se aperceber da destruição iminente até ao último momento: “When the bomb drops, it’ll be a bank holiday/Everybody happy in their tents and caravans/Everybody happy in their ignorance and apathy/Nobody realises until their television breaks down”.

Do outro lado do Atlântico, o receio de uma terceira guerra mundial é expresso recorrentemente pelos californianos Bad Religion. Com som e letras ainda pouco polidos, o primeiro EP da banda, de 1981, contém a canção “World War III”, que narra o presidente americano a lançar o ataque inicial (“‘Forget it’ came from the President’s door/‘I’ll make us have another world war/It doesn’t matter what the people think/We have to save our precious brink’”). O álbum que se segue, How Could Hell Be Any Worse? (1982), dá já alguns sinais da direcção mais poética e abstracta que a banda virá a tomar anos mais tarde. A destruição que se avizinha já não é atribuída a um indivíduo em concreto, mas sim ao desejo de dominação da humanidade em geral, quer na canção de abertura, “We’re Only Gonna Die from Our Own Arrogance”, quer na canção “Part III”, cuja letra começa por reformular a premissa de “World War III” em termos comparativamente menos infantis: “The final page is written in the books of history/As man unleashed his deadly bombs and sent troops overseas/To fight a war which can’t be won and kills the human race/A show of greed and ignorance, man’s quest for dominance”.

 

 

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