A distopia punk no início dos anos 80 – parte 2

Na cena californiana dos anos 80, ninguém explora o potencial da distopia com tanto sucesso como os Dead Kennedys. Esta banda especializa-se na criação de cenários absurdos, normalmente envolvendo planos maquiavélicos do governo e do capitalismo, denunciando através do exagero o que de absurdo e maquiavélico está já presente na nossa realidade. Este tipo de sátira surrealista, reforçada por acordes psicadélicos e pela voz sarcástica do vocalista Jello Biafra, pode ser encontrado, por exemplo, no terceiro single da banda, “Kill the Poor” (1980), onde se celebra em tom alegremente trocista um hipotético plano do governo para exterminar os pobres com uma bomba de neutrões.

Mais tarde, os Dead Kennedys projectarão, entre outros, planos diabólicos para reduzir a maioria da população ao tamanho de térmitas (“Shrink”) e para enviar políticos inconvenientes para o espaço (“One-Way Ticket to Pluto”). “Gone With My Wind” imagina um presidente deprimido e embriagado, que decide começar a terceira guerra mundial por impulso. “Kinky Sex Makes the World Go ‘Round” simula um telefonema hilariante entre o Departamento de Estado norte-americano e uma primeira-ministra não identificada (presumivelmente a Thatcher) em que este convence aquela a iniciar uma enorme guerra com a União Soviética explicitando argumentos cínicos como “The more people we kill in this war, the more the economy will prosper” e “We can get rid of practically everybody on your dole queue if we plan this right.”

A canção mais conhecida dos Dead Kennedys insere-se precisamente neste registo distópico. Com um ritmo marcado por precursão marcial e cantada da perspectiva do então (e actual) governador da Califórnia Jerry Brown, “California Über Alles” (lançada como single em 1979) anuncia um sistema ‘hippie-fascista’ presidido por Brown, caricaturando assim o contraste entre os seus ideais de inspiração hippie e a sua postura autoritária. A par da imagética nazi, a letra recorre a uma das mais marcantes obras sobre autoritarismo na cultura de massas ocidental, nomeadamente ao romance distópico de George Orwell 1984 (publicado em 1949), com Biafra referindo o ‘Grande Irmão’ em torno do qual gira o culto da personalidade nesse livro (“Close your eyes, can’t happen here/Big Bro’ on white horse is near/ The hippies won’t come back you say/Mellow out or you will pay”) bem como a data em que a narrativa tem lugar, então a poucos anos de distância (“Now it is 1984/Knock-knock at your front door/It’s the suede-denim secret police/They have come for your uncool niece”). Dois anos depois, já com Reagan na presidência, a banda revisita a canção em “We’ve Got A Bigger Problem Now”, agora com um som mais próximo do jazz e uma letra adaptada à direita americana, sobretudo à sua dimensão cristã e racista. Mantém-se uma das referências à obra de Orwell: “Welcome to 1984/Are you ready for the Third World War?!”

Tanto os Subhumans como os Crass evocam também na altura 1984, com as canções “Big Brother” e “Nineteen Eighty Bore”. Ao contrário dos Dead Kennedys, estas bandas inglesas não reimaginam a distopia orwelliana num futuro próximo – procuram sim demonstrar como, apesar de aparências em contrário, essa distopia está já parcialmente concretizada, seja através da híper-vigilância do Estado (no caso de “Big Brother”) seja através da pacificação provocada pela televisão (“Nineteen Eighty Bore”, que conclui com os versos: “You’re life’s reduced to nothing but an empty media game./Big Brother ain’t watching you, mate, you’re fucking watching him.”). Ainda que o alvo principal de 1984 (regimes totalitários, em particular o soviético) difira dos alvos da crítica destas bandas (o regime britânico), a apropriação de Orwell pelo movimento punk não é descabida. Por um lado, a proximidade da data que dá título ao livro confere-lhe particular ressonância nesta era. Por outro, 1984 trata-se de uma alegoria antiautoritária poderosa, reconhecível e abstrata o suficiente para se prestar a variadas interpretações – aliás, o livro continuará a inspirar outras bandas de punk-rock nas décadas seguintes.

Mas 1984 não é o único romance distópico a proporcionar metáforas filtradas pela música punk. Há também Admirável Mundo Novo (1932), a obra de Aldous Huxley sobre um futuro ultra-utilitarista com rígida estratificação social em que a população é controlada através de programação genética, drogas alienantes e rituais sexuais. O livro é homenageado pelos americanos Reagan Youth com “Brave New World”, canção composta por referências a vários aspectos do universo criado por Huxley e por interrogações sobre o paralelo com a lógica da sociedade actual: “Is this utopia, the dream of mankind?/Livin’ your life on a factory line/Is this utopia, dream of mankind?/Livin’ your life from nine to five”.

Já os Cock Sparrer recuperam o calão de Laranja Mecânica (livro de Anthony Burgess publicado em 1962, popularizado pela adaptação ao cinema de Stanley Kubrick em 1971), o qual lida com uma distopia marcada por extrema violência juvenil e tácticas prisionais de lavagem cerebral. A banda londrina, no entanto, mostra-se menos sensível ao teor distópico da obra – a canção “Droogs Don’t Run” parece tratar-se somente de uma celebração dos códigos de honra e camaradagem entre membros do mesmo gangue (‘droogs’), lembrando que serão sempre mais fortes numa luta se estiverem unidos.

Por outro lado, no mesmo álbum (Shock Troops, 1982), esta banda Oi! orgulhosamente da classe operária expressa o seu cinismo face a movimentos utopistas em “Watch Your Back”: “Everybody’s talking about revolution/Everybody’s talking about smash the state/Sounds to me like the final solution/Right wing, left wing, full of hate”. Rejeitando o que crêm ser a instrumentalização da sua classe por movimentos revolucionários (“All they want is total power/Climbing on the backs of the working class.”) e em nome de uma espécie de purismo conformista (“We don’t wanna be part of a political dream/We just wanna get on living our lives”), os Cock Sparrer recusam a cooptação política e ameaçam até sabotagem no contagiante refrão: “We don’t wanna fight/Because you tell us to/So watch your back when you attack /’Cause we might just turn on you.”

Estas duas canções não desencorajarão com certeza aqueles que insistem em ver nos Cock Sparrer uma banda com laivos de extrema-direita (a doutrina divide-se). Mesmo sem ir a esse extremo, “Watch Your Back” presta-se a uma leitura próxima de um populismo lúmpen, reacionário e anti-intelectual. Ao mesmo tempo, se a canção for tida como um grito de revolta contra elites que manipulam e traem os seus seguidores, não estará assim tão distante de outras canções já aqui referidas de bandas mais abertamente politizadas.

Há porventura uma indignação individualista e imediatista em muita da música punk que inevitavelmente colide com a formulação de utopias universalistas. Note-se que mesmo os Crass, banda seminal do movimento anarco-punk, expressam as suas reservas face a movimentos de massas utopistas no álbum Penis Envy (1981). A canção “Where Next, Columbus?” questiona a noção de seguir cegamente as ideias de um único indivíduo, seja Marx, Mussolini, Jung, Sartre, Einstein ou Cristo, apontando o dedo a manipuladores e manipulados: “The idea born in someone’s mind/is nurtured by a thousand blind/anonymous beings, vacuous souls./Do you fear the confusion, your lack of control?/You lift your arm to write a name/so caught up in the identity game/Who do you see? Who do you watch? Who’s your leader? Which is your flock?”

O que nos traz de volta aos Subhumans, que cunham em 1983 a canção que melhor exprime esta tensão entre reivindicações utopistas e sentimentos punk de revolta desconstrutivista. Em “Subvert City”, um grupo de ‘subversivos’ que se insurgem contra o dogma religioso e as políticas do Estado (que escrevem “Fuck the government” na parede) são mandados para debaixo da terra e gaseados pela polícia. Regressam dez anos mais tarde, mutantes e furiosos, dispostos a mudar o sistema, mas encontram uma sociedade pós-revolucionária em que o sistema já foi mudado: “There was no system left to change/The people ran the entire land/The subverts became politicians/And finally got the upper hand”. Mas a história não termina aqui, pois a canção lembra que há-de continuar a haver quem escreva “Fuck the government” nas paredes.

A história não termina, porque a subversão não pode ter fim, ou pelo menos um fim que não seja o mundo de roqueiros petrificados descrito pelos Vice Squad. A história não termina, porque os Subhumans não oferecem soluções feitas de fórmulas e utopias, oferecem catarse feita de guitarras, bateria e berros mordazes. E mesmo passados mais de trinta anos, finda a era da Thatcher, do Reagan e da guerra fria, a história ainda não terminou…

 

 

 

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