Da democratização da ironia

Ainda por temas alemães. Lembro-me de ouvir o musicólogo Mário Vieira de Carvalho elogiar a tradição crítica do cabaret alemão. O seu interesse pelo género prosseguia o debate sobre as grandes questões da relação entre produção artística e recepção, nomeadamente a partir do estudo dos sistemas sócio-comunicativos, modelo teórico que utilizou, por exemplo, para investigar a história do Teatro de São Carlos. O palco do cabaret, como o do teatro, ensaiava esta comunicação crítica de comentário social e político, que depois se depuraria com uma teorização mais avançada sobre a forma. Muito disto viajou para os Estados Unidos e alguns dirão que viajou mal. Uma representação cinematográfica do mundo do cabaret alemão de Weimar surge no famoso Anjo Azul, onde von Sternberg conta a história da queda passional de um professor universitário, primeiro em alemão e depois em inglês e com Dietrich.

Passado algumas décadas, em 1990, num outro país, um outro alemão apresentava o seu novo programa de televisão, que se passava num casino, em Lisboa, durante a Segunda Guerra Mundial. O programa era transmitido no canal público, o único existente nesse país, e em prime-time, sendo visto por milhões de pessoas, não tendo propriamente o país muitos milhões de pessoas. A relação entre o palco do cabaret alemão dos anos vinte e o palco do casino televisivo português é porventura ténue, e sobretudo está longe de esgotar a versatilidade do criador deste programa, o humorista Herman José. Poder-se-ia tomar o “palco em Herman José”, por onde passaram Tony Silva e Serafim Saudade, como um espaço específico de uma estratégia mais lata de democratização da ironia e da subversão. Em Portugal, esta estratégia não foi apenas uma bonita ideia, passando, pela força da televisão, a integrar o quotidiano de parte da população portuguesa. A gramática deste humor suscitava analogias, reinvenções de palavras, trocas de significado, proporcionando um tom irónico e de gozo sobre as coisas mais comuns, desafiador de normas e rotinas, um novo dispositivo a partir do qual se olhava e reinterpretava o mundo.

Uma das personagens que habitava o palco de Casino Royal era a rubia Maricarmen, cantante espanhola, travesti interpretado pelo personagem do dono do casino. Herman vai bastante para lá do efeito proporcionado pelo homem que se veste de mulher, trocando de identidade de género. A corporalidade imprevisível de Maricarmen, em diálogo improvisado com os pasodobles da orquestra de Pedro Osório, cria a sua própria subversão, para lá das regras que definem a transgressão de género, por vezes uma forma conservadora e codificada de transgressão. Para o público, ao olhar o receptor do ecrã, tudo aquilo era novo, extraordinário para alguns, inquietante e perturbador para quem o tentava descodificar, sem sucesso, recorrendo a velhas e reconfortantes fórmulas.

Esta subversão do corpo juntava-se, na boa tradição crítica do palco, ao comentário sobre o tempo político e social. Maricarmen, no Casino Royal da Segunda Guerra, veio a Portugal à procura de um homem dos anos noventa, de um amor com as qualidades que definiam um novo tipo social, emergente nos anos afluentes dos governos de Cavaco Silva. Este homem misturava qualidades universais, a valentia, a beleza, com características mais terrenas, como o capital suficiente para garantir à expressiva espanhola uma vida de conforto e notoriedade, abrilhantada por uma loja num shopping, ainda uma raridade no país de então, as férias no iate e as reportagens coloridas em revistas e jornais (uma descrição a que o próprio Herman José não iria escapar). Mas esta figura do novo-riquismo emergente conservava ainda o seu bigodinho de machon. Não seria difícil enriquecer a biografia deste amante idealizado, pensando-o talvez como um Dias Loureiro em formação. Enfim, a elite cultural e académica, que terá o poder de definir o cânone da grande cultura nacional, com as listas de escritores, poetas, pintores e arquitectos, tenderá a secundarizar Herman José, um artista que trabalha com esse meio pouco nobre de difusão massificada que é a televisão. Mas houve alguém que tenha feito mais pela cultura em Portugal no século XX?

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