Ornette, o mestre ignorante

Sem pretensões de contar a história tal qual ela aconteceu, os obituários aproximam-se normalmente do registo hagiográfico, que é porventura o melhor registo para descrever músicos maiores do que a vida, como Ornette Coleman. Quase todos os obituários mencionaram o carácter percursor e revolucionário da sua música e assinalaram como ela se pautou por desrespeitar os cânones instituídos.

Partindo do jazz para destruir as suas normas e, posteriormente, refazer e remodelar diversos géneros musicais, a obra de Ornette Coleman não conheceu fronteiras musicais. Nunca é de mais repetir este truísmo, até porque se colocarmos a obra de Ornette Coleman no contexto da música produzida na segunda metade do século XX verificaremos que ele foi percursor na supressão do virtuosismo, uma ideia bastante comum na mitologia jazzística do criador individual e que contaminou outros domínios musicais. Anos antes do estardalhaço mediático do punk, Ornette aboliu a aura do intérprete musical virtuoso, enviando para o museu de antiguidades as exigências da técnica para a prática musical.

Ao favorecer a expressividade em vez da proficiência técnica, Ornette afrontou os guardiões do templo sagrado do jazz, que acusaram-no de não respeitar os cânones, fazer solos desregrados e ignorar as hierarquias da notação musical. Ornette, diga-se, não perdeu uma oportunidade para acicatar a ira dos sacerdotes, seja quando tocava com um saxofone de plástico; quando incluiu o seu filho, Denardo Coleman, de 10 anos de idade numa das suas formações, alegando que ele seria o baterista perfeito porque ainda não estava endoutrinado pela técnica; ou quando referia que brincar era melhor metodologia de aprendizagem musical: I thought music was just something human beings done naturally, like eating. I thought [the saxophone] was a toy and I just played it. Didn’t know you have to learn something to find out what the toy does.”

Bastariam os álbuns produzidos na viragem da década de 1950 para os anos 60 para colocar Ornette Coleman no panteão dos revolucionários do Jazz. Sem falsas modéstias nem moderação, Ornette deu títulos proféticos aos seus primeiros álbuns – Something Else!!! (1958), The Shape Of Jazz To Come (1959), Tomorrow Is The Question (1959), Change Of The Century (1960) –, consciente que estes reescreviam a forma do jazz e instituíam um novo paradigma na criação musical. O álbum «Free jazz: A Collective Improvisation (1961) teve o condão de inaugurar um subgénero musical – o free jazz – e uma nova linguagem musical colectiva.

Abominado pelos puristas, o álbum foi um divisor de águas no campo do jazz, separando aqueles que tocavam convencionalmente dos que «tocavam fora», como Ornette, e outros que lhe seguiram, depreciados pela corporação por não terem swing. Invocando o tema de Duke Ellington, «It don”t mean a thing (If it ain”t got that swing)», os puristas sentenciaram que o swing era a essência do jazz e que sem swing não haveria jazz. Os puristas mais dogmáticos encarregaram-se ainda de ridicularizar a teoria/prática musical desenvolvida por Ornette, chamada harmolodia, que pressupunha que cada composição abarcasse uma igual medida de HARmonia, MOvimento (ritmo) e meLODIA. Em vez de uma progressão linear, cada composição, na sua forma, cor e duração, devia ser vista como um todo e improvisada no momento.

Parafraseando Jorge Jesus, que tem gerido sabiamente as citações de vários autores de esquerda, na música de Ornette «a prática era o critério da verdade». Ao mover-se do abstracto para o concreto, e das teorias herméticas para as questões práticas, a harmolodia de Ornette era um conjunto flutuante, aberto e adaptável, de ideias que tinha como função manter o jogo da improvisação aberto e imprevisível, sem hábitos solidificados nem rotinas. Assumindo a função de desarrumador de regras e estruturas musicais, Ornette encarou a música como um todo e libertou-a das suas hierarquias e exigências formais. Se é um cliché afirmar que o jazz é a música da liberdade, Ornette ousou transformá-la numa prática da igualdade. Uma igualdade que não se concede, nem se postula, pratica-se quotidianamente.

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