Ipanema

Até ao dia em que Dominique Rocheteau, capitão do exército de Napoleão, entrou com cinquenta soldados pelo solar do lugar de Nine, freguesia de Vila Nova de Famalicão, que os Gonçalves de Menezes viviam uma existência branda, há pelo menos três séculos. Possuíam terras a perder de vista em Braga e Barcelos, eram os senhores de Grimancelos, Silveiros e Viatodos, lugares onde funcionários do Estado pediam permissão para entrar e de onde os camponeses desejavam rapidamente sair. O liberalismo de oitocentos não terá feito bem à família e decidiram expedir parte das reservas de sangue nobiliárquico para o outro lado do Atlântico, acostando no Rio de Janeiro. Uma bela história capitalista começou quando os primos Tomás Xavier Ferreira de Menezes e Joaquim Gonçalves de Menezes receberam de D. Pedro II a concessão dos transportes urbanos da cidade. Do casamento de Joaquim com uma conterrânea de Nine nasceram seis filhas e um varão de nome João, um dos maiores proprietários do Rio e comerciante de tabaco. Tomás casou primeiro no Brasil, fundando o ramo dos Oliveira de Menezes, e segunda vez em Portugal. Os Oliveiras de Menezes e os seus primos, os Gonçalves Menezes, continuaram a reproduzir-se no Rio de Janeiro, na maior abastança.

Certo dia do ano de 1962, ao passear na praia de Ipanema, a jovem Heloísa Eneida de Menezes Paes Pinto, da linhagem dos Oliveiras de Menezes, era observada por um embaixador de meia idade, carioca da Gávea, poeta. Sugestionado, escreveu uns versos que entregou a um amigo que compôs uma música que passou a outro amigo que no ano seguinte a editou em disco com um saxofonista americano chamado Stan Getz. Descendente longínqua dos nobres de Vila Nova de Famalicão, Helô Pinheiro não tardou a transfigurar-se na Garota de Ipanema, identidade popular, mas não plebeia, que lhe garantiu o estrelato em passereles, televisões e no negócio da praia, onde a Garota de Ipanema virou marca comercial.

Inconscientemente, sempre arrumei a garota de Ipanema, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, numa certa história do Brasil tropical, resultado criativo de um certo encanto que uma elite culta de esquerda reservava a esta imagem de um pais multirracial, já não imaginado desde a Casa Grande e da Senzala, mas de um contexto de igualdade. Assim fosse, e a garota de Ipanema seria uma mulata, vinda do morro mais próximo, nas vertentes íngremes do qual a família levantara uma precária habitação, em direcção à praia onde mergulhava a elite. Mas como adverte a canção, o “corpo dourado do sol de Ipanema” resulta da acção feliz do sol e não da condição dermatológica proporcionada pela mistura racial. O equívoco, não torna a canção menos interessante, nem o poeta mal intencionado. Hoje, em Ipanema, nas ruas que celebram viscondes, barões, generais, almirantes e ministros, continuam a rarear as mulatas e os mulatos, com a excepção dos que estão lá para servir e vender.

Quando escreveu “Burguesinha”, Seu Jorge podia estar sentado no mesmo lugar de onde Vinicius encontrou um dia a garota de Ipanema. Seu Jorge olhou à sua volta e provavelmente viu o mesmo que Vinicius, mas viu alguma coisa mais. Com a estrutura de sentimento lá da favela, não foi apenas susceptível ao universalismo amoroso e ao existencialismo tropical masculino captado pelo embaixador e vertido depois na dolência dos ritmos de Jobim. Nem mulatas de postal, nem musas balanceadas. Burguesinha, sem grande sugestão poética nem ódio de classe, elenca a vida mansa da garota de Ipanema do século XXI. O ritmo da canção segue o ritmo rápido da vida dessa burguesia, e o comentário social, em lugar da forma sisuda, convoca a festa. Seu Jorge submete a vida burguesa à dança e à apropriação coletiva.

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