The shape of punk that never came: Refused e o recém-lançado Freedom

Uma das primeiras frases que se agarra aos nossos ouvidos quando ouvimos Freedom é a de que “Nothing has changed”. É parte do refrão de “Elektra”, a primeira música do álbum a ver a luz do dia e aquela que lhe dá início, e soa a tentativa de justificar o regresso pouco consensual de uma das bandas mais marcantes a emergir do punk/hardcore: “continuamos todos na merda, nada mudou e nós fazemos falta – ainda somos os mesmos e tudo”. Quase que convence. Mas já voltamos ao Freedom.

Surgidos em 1991, em Umeå, uma pequena cidade no norte da Suécia, os Refused foram os grandes impulsionadores de uma das cenas vegan straight edge mais politizadas, férteis e influentes da Europa. Em 1998, chegam ao fim, pouco depois de terem lançado a sua magnum opus, com o título, tão profético quanto provocador, The Shape of Punk to Come, um álbum que acabou por ganhar um estatuto mítico nos campos da música pesada e alternativa e gerou um certo culto em seu redor. O Shape of Punk… dava-nos uma descarga de raiva e energia recorrendo a um cocktail pouco ortodoxo de techno, jazz, drum’n’bass e punk/hardcore, acompanhado por um feroz discurso anticapitalista de raiz libertária, expresso nas letras, em manifestos e em fanzines escritas pelos próprios membros. A sonoridade inovadora e ambiciosa do álbum e o radicalismo político das letras pareciam levar ainda mais longe, e com mais seriedade, a ambição que já pautava alguns dos trabalhos anteriores. Em “Coup d’Etat”, do álbum precedente Songs to Fan the Flames of Discontent, os Refused apresentavam-se como “a shitty band with an awesome plan” e Dennis berrava a urgência quase inconsequente que guiava esse fabuloso plano: “staying up all night planning the downfall of your corrupted system. What plot will I figure out and what thoughts will I pen down? I will have my coup d’etat. I will start a riot. I will hold your burning flag in my hand. Sitting up all night planning my revolution with a catchy phrase”.

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Os jovens imberbes Refused

The Shape of Punk to Come já não prometia apenas um coup d’etat para quebrar o tédio: exigia o impossível. Pretendia irromper pela sociedade do espectáculo, assaltar a cultura de massas e infectar tudo com uma nova sonoridade e uma nova estética. Os Refused não queriam conquistar apenas a cena onde cresceram. Queriam escapar dos clichés e auto-referencialidade rabugenta do punk sem deixar de ser punk. Em “New Noise”, questionavam “how can we expect anyone to listen if we are using the same old voice?” e estabeleciam sem ambiguidades que “we need new noise, new art for the real people. We lack the motion to move to the new beat. We dance to all the wrong songs and we enjoy all the wrong moves”. Em “Liberation Frequency” declaravam “We want the airwaves back (…) We don’t just want air time, we want all the time”. Tamanha ambição artística e revolucionária levou a banda à exaustão e contribuiu para o seu fim prematuro, exactamente quando estavam no auge, como é perceptível no documentário que dá conta desse processo terminal, Refused are fucking dead (2006). Terminam mal e porcamente a meio de uma tour pelos Estados Unidos, a tocar numa cave manhosa para meia dúzia de badamecos e – cereja no topo do bolo – com a polícia a invadir o espaço impedindo-os de tocar até ao fim o que tinham programado. Os Refused acabavam a meio de tudo: da carreira, da tour e do último concerto.

Das cinzas dos Refused surgiram outros projectos. Os The (International) Noise Conspiracy (T(I)NC), encabeçados pelo vocalista Dennis Lyxzén, foram o caso mais duradouro e de maior sucesso. T(I)NC reunia membros de algumas das bandas mais importantes da cena hardcore de Umeå (para além dos Refused, tinha membros de Separation, Saidiwas e das feministas Doughnuts), mas domesticava um pouco a visceralidade do estilo e deixava de lado um certo experimentalismo que tinha caracterizado algumas dessas bandas,  dando lugar a um rock mais convencional, com uns laivos de punk e a roçar a pop, ainda que com a política a ocupar um lugar central e a mundividência situacionista a servir de referência. Em poucas palavras, T(I)NC dava continuidade à ambição, já presente em Refused, de chafurdar grosseiramente no pacato mundo da cultura de massas com um vasto arsenal de teoria política radical e com umas roupas todas estilosas. Abraçando a ambição de Phil Ochs, a banda definia-se frequentemente como uma tentativa de cruzar Elvis Presley com Che Guevara.

A influência de Refused, depois do fim da banda, nunca deixou de crescer e o seu fantasma pairou sobre quase todos os projectos em que os seus membros se envolveram posteriormente. Era rara a entrevista a T(I)NC que não incluísse uma pergunta sobre um possível regresso dos Refused e a resposta era sempre a mesma: “nem pensar, o regresso de Refused não era uma possibilidade”. Eu próprio cumpri esse ritual, em conversa com o Dennis, há uns anos, quando falávamos sobre a quantidade absurda de reunions que estavam a acontecer (naquele caso, se bem me lembro, falávamos do grande entusiasmo dele com o regresso dos Sex Pistols e o pouco entusiasmo com quase tudo o resto). Perguntei-lhe quanto dinheiro é que era necessário para que Refused regressasse e ele respondeu: “Oh, muito dinheiro mesmo! (risos) Isso nunca irá acontecer. Já nos ofereceram mesmo muito dinheiro para tocar. Nós crescemos todos a ouvir bandas como Minor Threat e outras bandas da cena hardcore de Washington DC… bandas que nunca voltaram a juntar-se para fazer reunion tour’s. (…) Às vezes é triste as pessoas lembrarem-se de se reunir… para que é que têm de fazê-lo? E é o que aconteceria com os Refused, acho que as pessoas ficariam bastante desiludidas se nos vissem (risos).”

Em 2012, para surpresa e regozijo ou desgosto de muitos, os Refused acabaram mesmo por reunir. O combustível ($$$) para despertar o monstro parece ter sido dado pelo festival Coachella (que proporcionou a confirmação oficial do regresso), mas seguiram-se, nos anos seguintes, centenas de actuações. O que parecia ser só um plano para dar uns concertos e ganhar umas massas trouxe, entretanto, a notícia que todos temiam: os Refused preparavam-se para lançar um álbum novo – o pior erro que alguém pode cometer quando acaba com o que veio a ser reconhecido como uma obra prima. Para os mais puristas, as trombetas da desgraça soaram ainda mais alto quando foi anunciado que o álbum contaria com a colaboração e produção de Shellback, o super-produtor pop responsável por alguns dos hits de artistas como Taylor Swift, Britney Spears, Avril Lavigne, Maroon 5 e Christina Aguilera (reza a lenda que Shellback aprendeu a tocar bateria com o Shape of Punk… e que passou pelo hardcore e até pelo black metal). Antes de estar cá fora, o Freedom, o nome do novo trabalho, já era, portanto, odiado, confirmando o que Dennis supunha com clarividência uns anos antes: “acho que as pessoas ficariam bastante desiludidas” com o regresso. Dificilmente seria de outra maneira e é compreensível. Uma das primeiras coisas que me surge perante este regresso é uma vulnerabilidade que não é compatível com a ambição quase megalómana que a banda pôs naquilo que fez. Apesar de Freedom manter a radicalidade política, o meu lado mais cínico vê este regresso algo extemporâneo como um sinal de cedência ao mais fácil e imediato.

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Os Refused já em plena crise de meia idade

Contudo, ainda que em certa medida banal, não acho que o trabalho esteja tão mau quanto se tem dito por aí. A primeira coisa que fiz questão de ter em mente quando me preparei para ouvi-lo foi a de que não podia esperar um Shape of Punk…, fosse na ousadia, na sonoridade ou no que quer que fosse. Seria um erro e creio que mesmo que Refused nunca tivesse acabado seria impossível elevar tanto a parada e exigir-lhes tal feito. Na verdade, o que mais temia era precisamente que cedessem à pressão de ter que soar demasiado ao Shape of Punk… Felizmente, isso não aconteceu. E, goste-se ou não, o Freedom é o trabalho de uma banda viva e com vontade de criar qualquer coisa nova e diferente, mais do que simplesmente reciclar ideias passadas. Uma das músicas que mais me chateia é precisamente a “366” que, até entrar naquela espécie de refrão (onde melhora bastante), lembra descaradamente a “The Shape of Punk to Come” do álbum homónimo. O resto do álbum parece mais melódico, menos enérgico e visceral do que o Shape of Punk…, com a voz do Dennis sem a força que tinha e com uma certa escassez de riffs do gabarito do seu antecessor, ainda que com alguns momentos empolgantes. “Elektra”, a malha que nos abre as portas ao álbum, ainda promete qualquer coisa à la Refused e põe-nos logo a imaginar uns pontapés no ar e uns moves daqueles fodidos. Mas a música que se segue, “Old Friends/ New War”, já nos ambienta mais àquela que será a toada do álbum. Menos directa e menos estaladão rock nas trombas, a música é guiada por uma guitarra acústica e só perto do fim é que nos brinda com alguma distorção em condições, sem que a música chegue a explodir. É, contudo, uma das melhores malhas do álbum e chega a reforçar a expectativa de que não estamos apenas perante um produto da nostalgia, mas, quem sabe, perante algo que procura qualquer coisa nova. “Useless Europeans” (bem boa!) e, em parte, também “Thought is Blood” merecem destaque por a par da “Old Frieds/ New War” representarem o que de melhor pode trazer uns Refused pós-Shape of Punk

No entanto, assinale-se que a referida incapacidade de explodir – pelo menos até a um patamar tão alto quanto aquele a que o Shape of Punk… nos elevava – parece ser o factor mais constante deste trabalho; e mais do que por fracasso do que por premeditação, como a “Old Friends/ New War” ainda deixava acreditar. Parte da banalidade do álbum resulta dessa constância que deve mais à monotonia criativa do que a um simples desejo de explorar novos territórios sonoros. A “War on the Palaces” é confrangedora, com uns sopros miseráveis e ultra-aborrecidos, e nem aquela súbita mudança de “estilo” lá para o meio passa duma tentativa frustrada de recuperar a imprevisibilidade que definia os Refused no passado; “Servants of Death” ainda começa com um riff que diz que quer pôr o corpo a mexer, mas não consegue sair dali para lugar nenhum, apesar de um arranjinho ou outro mais simpático. Quando o álbum recomeça e voltamos a “Elektra”, já não é possível ouvi-la sem escapar à consciência de que aquilo que nos prometeu na primeira audição foi pouco mais do que um logro.

As letras vão pelo mesmo caminho do “não aquece nem arrefece”. Não há, por exemplo, aquelas frases sem rodeios que apareciam tanto em Refused como em T(I)NC – uma “I got a bone to pick with capitalism and a few to break” ou a mais cândida “I took the first bus out of Coca-Cola city cause it made me feel nauseous and shitty” (in Refused, “Worms of the Senses/ Faculties of the Skull”), nem uma “we are all sluts, cheap products, in someone else’s notebook” (in T(I)NC, “Capitalism Stole my Virginity”). “Dawkins Christ”, porém, só por arrumar o idiota do Richard Dawkins na categoria de um guru espiritual qualquer, merece ser destacada. Músicas como “Useless Europeans” (“go back to sleep, dream a new dream”, diz-nos o Dennis), ou mesmo “Françafrique“ (sobre o colonialismo francês, mas perfeitamente adequável à história de outros países europeus), assinalam-nos que essa coisa a que ainda há quem chame Europa não foi ignorada (“It’s a pretty house and you’re a pretty girl (…) Outside your pretty walls, there’s an ugly world, where there’s no skin left for new scars”, diz-nos, ainda, a “Useless Europeans”).

Em suma, Freedom é um trabalho bastante desequilibrado e inconstante, mais marcado pela banalidade do que pela capacidade de entusiasmar. Não há nele “new noise” absolutamente nenhum e a promessa da banda de uma forma do punk porvir parece ter ficado mais distante. Por isto, e apesar de alguns indícios de que o futuro pode ser melhor, sou capaz de me juntar ao coro de quem considera este trabalho escusado (ainda que o faça por outras razões menos dadas ao puritanismo). No entanto, quem sou eu para dizer isto a uns gajos que parecem estar a divertir-se a sério? Que venham os próximos.

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