Charanjit Singh: Shiva on acid

Há uns poucos meses tropecei num curioso álbum editado na Índia em 1982. Trata-se de um disco de Charanjit Singh, um músico de estúdio de Bollywood, que cruza, através de dois sintetizadores da Roland – o Jupiter-8 e o TB-303 – e uma drum machine da mesma marca – a TR-808 –, a clássica sonoridade indiana do raga com batidas disco. O próprio título do álbum o indica: Synthesizing, Ten Ragas to a Disco Beat. Flop comercial em 1982, o álbum foi reeditado em 2010 pela editora holandesa Bombay Connections, cujo proprietário, Edo Bouman, o havia encontrado numa loja em Deli uns anos antes. O que na altura prendeu a atenção de Bouman foi o facto de o álbum soar a algo próximo da acid house, sobretudo pela utilização do sintetizador TB-303 e da drum machine TR-808 que, na segunda metade dos anos 1980, ficariam para sempre associados à produção daquele género de música de dança. Daí que, após a reedição, Singh seja sempre referido como «precursor da acid house» e o seu álbum como o primeiro do género.

Soube hoje que Singh faleceu há poucos dias, na sua casa em Bombaim, aos 75 anos. Invariavelmente, as muitas referências na Internet ao acontecimento sublinham a suposta marca seminal da acid house: «Pioneiro da acid house faleceu», «Charanjit Singh, pioneiro da acid house, morre aos 75 anos», «Adeus a Charanjit Singh, pioneiro da acid house», e assim sucessivamente. Ainda que seja habitual, sobretudo nestes casos de recuperação de músicos da obscuridade, este género de busca obsessiva de linhas genealógicas, não deixa de ser um pouco perturbador que alguém fique para sempre com uma punch line comercial colada à pele, para mais quando o próprio não terá sequer contribuído para isso.

Numa reportagem publicada no Guardian em 2011, Stuart Aitken questionava o próprio Singh sobre o assunto, numa altura em que o músico passou uns dias em Londres. Explicava ele: «havia muita música disco nos filmes naquela altura, em 1982. Por isso pensei que poderia fazer algo diferente partindo apenas da música disco. Tive a ideia de tocar os ragas indianos com batidas de disco, deixando de lado a tabla. E assim fiz. E resultou bem.» Na verdade, nem precisaríamos da explicação do próprio, bastaria lermos o título do álbum. E se a leitura do título não fosse suficiente, bastaria então ouvir o álbum. É, com efeito, um cruzamento de música clássica indiana com batidas disco, com recurso a sintetizadores e a uma drum machine, e é justamente nessa fusão que reside o principal interesse do álbum. Se há certos sons que lembram a música de dança de Chicago do final dos anos 1980? Sim, embora não muito mais do que qualquer semelhança que se possa descortinar entre os Rolling Stones e os Placebo ou o Dick Dale e o Joe Satriani – todos usam guitarras eléctricas, logo…

Ten Ragas to a Disco Beat é sem dúvida um excelente álbum para as pistas de dança. Mas a enorme vantagem das pistas de dança é que cabe lá quase tudo.

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