Lubomyr Melnyk e a música contínua

Tenho andado distraído com coisas maiores do que eu e, talvez por isso, quase não dava pela visita de Lubomyr Melnyk a Portugal. Foi por uma daquelas forças cósmicas que parecem impelir a sua música, revelada através do cruzamento da minha timeline (do facebook, sim) com a do seu percurso, que tomei conhecimento da boa notícia um dia antes do acontecimento. A esta coincidência temporal juntou-se a espacial, pois calhou estar onde não costumo estar e onde o pianista ia tocar, o Porto. Tinha tocado há quase uma semana em Viseu, nos Jardins Efémeros, e nem dei por ela.

Lubomyr Melnyk é um pianista ucraniano, conhecido pela técnica de piano que desenvolveu ao longo de cerca de 40 anos chamada “música contínua”. As primeiras descrições que li sobre ele não me entusiasmaram: é o pianista mais rápido do mundo, toca 18 ou 19 notas por segundo, tem o record de mais notas tocadas numa hora e… fiquei com a sensação de que afinal estavam a falar de um malabarista. Quem sabe se esta forma de apresentar o seu trabalho não contribuiu para que durante uns 30 anos o músico tivesse permanecido na obscuridade – frustrado e revoltado, segundo o próprio, pelo desprezo que lhe votaram – e só recentemente tenha começado a ver o seu trabalho reconhecido. Melnyk começou a trabalhar a “música contínua” no período em que viveu em Paris, em meados dos anos 70, quando tocava nas aulas de dança da coreógrafa e bailarina Carolyn Carlson, na Opera de Paris. Nesse período, enfrentou um período de pobreza extrema e foi com o corpo abalado pela fome, num estado de escassez quase meditativo, segundo diz, que foi levado a mergulhar no universo do piano e a explorar uma nova dimensão da sua linguagem. Esta via de austeridade material é parte central na sua filosofia – fruto tanto da sua formação na área como de influências místicas e da cultura hippie – e imprime-lhe, interessantemente, uma aura algo anacrónica, em particular pelo seu entendimento particular da música e pela sua devoção monástica a esse “milagre” que é o piano, dedicada à procura de uma pureza e de uma experiência tão transcendente quanto transcendental. Esta comunhão entre músico e instrumento é expressa pelo próprio quando diz, sobre a música contínua, que “it’s like taking a breath and exhaling out onto the piano, and the piano will sing for you”Melnyk lamenta diversas vezes que o seu legado não esteja a passar como desejava, permanecendo o único músico capaz de executar a sua técnica no piano, não por falta de alunos, por qualquer dificuldade em ensinar ou por qualquer exigência sobre-humana na sua execução, mas por falta de tempo e dedicação daqueles que ensina. Como assinala algures, “to become advanced with it, you have to stop eating. You have to live and breathe continuous music”.

LUBOMYR-MELNYK

É difícil situar Melnyk musicalmente. O virtuosismo e parte do seu ambiente sonoro aproximam-no dum compositor clássico (o que nega ser, afirmando que estes acabaram com Prokofiev), mas o seu esforço pela criação de uma música que transporte tanto o espectador como o músico para uma dimensão comum, onde a fronteira entre o corpo e o espírito se esboroe pelo recurso à repetição e a uma sensação de êxtase, aproximam-no de alguns compositores vanguardistas. Terry Riley, em particular a sua “In C”, ou Steve Reich aparecem aqui como as referências mais salientes. O som parece invocar aquelas descrições da modernidade de alguns autores conhecidos, pela torrente imensa e imparável de notas que brota do piano, simultaneamente cativante e rechaçante, fascinante e entediante, onírica mas tremendamente sóbria. O som jorra como uma cascata até o piano se dissolver no ar e, com ele, nós próprios, levados pela força daquele manto sonoro.

O concerto de anteontem, quinta-feira, no Passos Manuel, permitiu sentir, sem ser através dos headphones ou dumas colunas, a energia da música contínua (caramba, também já estou a soar a hippie). A ressonância, a propagação e a envolvência do som, transformam, naturalmente, o concerto ao vivo numa experiência singular, ainda que a Passos Manuel possa não ser a sala ideal e não proporcione a intimidade que o músico procura. A própria experiência de observar Melnyk a tocar, como se levitasse sobre o piano e como se se libertasse do que flui dos seus dedos em catadupa quando a música arranca, é algo especial.

O concerto foi dividido em duas partes. Na primeira destacou-se “Butterfly”, que, como todas as músicas, foi introduzida por algumas palavras de Melnyk – sobre “como devemos ser felizes como as borboletas”, entre outras coisas, para logo a seguir nos atirar com toda a lugubridade da composição, como se aquela apregoada felicidade fosse uma piada e o malandro estivesse afinal a gozar connosco. Nessa primeira parte, algumas das músicas foram acompanhadas por uma cantora que não fixei o nome e que, enfim, não deixa grandes recordações, até porque a música de Melnyk perde força quando acompanhada por voz (como se sente no álbum Corollaries, por exemplo). Em suma, até aí a música não foi tão contínua quando se desejava e as expectativas cresceram para a segunda parte. Feita a pausa, e depois de mais uma longa introdução, Melnyk entrega-se derradeiramente ao piano para nos entregar a sublime “Windmills”, durante intensos 40 minutos, e nos comunicar, desta vez pela língua que melhor domina, o que é afinal esse milagre do piano e do som que tanto se força por nos explicar por palavras.

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