«De mi amor Manuela». Imaginação ao poder

A conquista de quatro cidades nas eleições municipais espanholas por plataformas políticas saídas do 15M constitui um feito inédito na história recente da esquerda que, sobretudo, no continente europeu vem acumulando um longo historial de frustrações e derrotas. O síndrome do falhanço e a capacidade masoquista para a autoflagelação faz parte de uma tendência esquerdista para a melancolia, já diagnosticada em diferentes ocasiões. Contrariamente à esquerda melancólica, que cultua a marginalidade e se alimenta do glamour das grandes recusas e da pureza dos seus ideais, a esquerda em Espanha não se intimidou com os fantasmas da capitulação e adoptou o formato da «confluência», conquistando o poder municipal através da soma e agregação de diferentes forças políticas.

Quer o Barcelona en Comù, quer o Ahora Madrid são exemplos de «confluências» que resultaram de experiências organizativas do pós-15M. A inovação organizativa foi simultaneamente política, artística e tecnológica, com o método «do it yourself» a ser aplicado na produção de ilustrações, posters, vídeos e músicas. Se levarmos em linha de conta a relação hostil que a esquerda costuma ter com os artefactos provenientes da cultura de massas, invariavelmente responsáveis por mergulharem as massas no círculo vicioso da falsa consciência e alienação, esta campanha foi verdadeiramente revolucionária. O matrimónio contraído com a cultura de massas foi assumido sem constrangimentos e levou inclusivamente à edificação de estrelas pop, como Manuela Carmena, a nova alcaidessa de Madrid. Embora tenham sido acusados de replicar os modelos de marketing de conjuntos como as Spice Girls, os Manuelistas não se intimidaram e decidiram gravar uma canção, intitulada «Manuela», que entrava em diálogo com o tema popularizado por Júlio Iglésias, reconhecido por todos, e que denotava a sua aposta em fazer do entusiasmo colectivo um elemento galvanizador da campanha política.

Ainda no âmbito da campanha realizou-se o evento «Festão pela democracia em Madrid», que procurava traduzir na prática o célebre mote esquerdista, atribuído a Emma Goldman, «se não posso dançar não é a minha revolução». No evento convidavam-se todos a dançar em cada praça, a dançar por Manuela: «O rumor já manda sinais. A nossa vingança será sermos felizes. No próximo #24M começa a mudança. Dança na tua praça. Dança por Manuela. Vem com amigos. Leva confettis e purpurina. Um ingrediente básico: o entusiasmo. O Festão durará quatro anos (e os que virão).http://uninomade.net/tenda/dez-pontos-chave-da-inovacao-de-manuelamania/. Os mais rebuscados em termos teóricos diriam que o «festão» foi a forma concreta de colocar uma actividade colectiva na esfera de improdutividade, à la Agamben, em que os gestos e os movimentos dispensariam os seus fins.

Por último, e para afrontar o elitismo da esquerda cultural, sobretudo a que afirma pedantemente que o seu «voto não vai em futebóis», a campanha AhoraMadrid produziu um logotipo que juntava os emblemas do Real Madrid, Atlético de Madrid e Rayo Valleco para fundar o #ManuelaUnited FC. Foi você que pediu a união das esquerdas?

Rompendo com a sisudez e o purismo dos princípios rígidos e pré-estabelecidos, em Barcelona também se ousou fazer uma campanha política criativa e repleta de artefactos pop. Também aí a música popular desempenhou um papel importante, com a candidata Ada Colau, actual alcaidessa, a interpretar o tema «El run, run», uma rumba contagiante que pôs a multidão barcelonense a dançar e que encontrou na pop um novo terreno do comum.

Aparentemente indiferentes às acusações de populismo ou inconsequência política, as campanhas municipais no Estado espanhol provaram que é possível fazer política sem condescendência, nem soluções paternalistas. Ao invés de pôr as massas a ver pela enésima vez filmes ásperos e comoventes na expectativa que elas acordem do seu marasmo, ou pô-las a ouvir músicas de intervenção com letras pedagógicas e libertadoras, as diversas campanhas muniram-se de mensagens, imagens e sons da vida quotidiana, que interpelavam directamente as pessoas, conseguindo insuflar alguma mundanidade no domínio sagrado do político.

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