Para uma banda sonora alternativa da resistência timorense

O processo de resistência à ocupação de Timor-Leste pela Indonésia (1975-1999) gerou em Portugal um verdadeiro subgénero musical. Um conjunto de baladas, gravadas durante e posteriormente à ocupação, expressando solidariedade para com a luta independentista do povo timorense, enaltecendo a sua virtude e determinação enquanto se denuncia a crueldade da opressão a que este se encontrava sujeito. Durante a onda de protestos que acompanhou o genocídio pós-eleitoral em 1999, as duas canções mais populares desta linhagem, da autoria dos Trovante e dos Resistência, inundaram as rádios portuguesas, bem como concertos, vigílias e todo o tipo de manifestações.

À denúncia da dominação indonésia associa-se, embora nem sempre explicitamente, uma memória do passado colonialista nacional. Ainda que esta corrente musical corra o risco de naturalizar os laços entre Portugal e Timor-Leste como se a sua origem fosse meramente fraterna (e não fruto de uma relação de exploração ao longo de quatro séculos), o elemento de redenção pós-colonial não está completamente ausente. “Timor”, dos Trovante, com letra de João Monge, incluída no álbum Um Destes Dias (1990), pinta em assombrosos laivos poético-surrealistas a conquista da colónia por soldados cristãos (“Da cruz se faz uma lança em chamas/Que sangra o céu no sol do meio dia”) e assume-se a voz de gerações de vítimas anteriores à descolonização portuguesa (“Ai Timor/Calam-se as vozes dos teus avós/Ai Timor/Se outros calam cantamos nós”).

Já o “Timor” dos Resistência, do álbum Mano a Mano (1992), tem uma relação algo confusa com o passado. A letra de Pedro Ayres Magalhães reflecte a perspectiva de quem tem saudades dessa terra (“Andorinha de asa negra/Se o teu voo lá passar/Faz chegar um grande abraço/Dá saudades a Timor”) mas nunca a viu (“As crianças a chorar/Não as posso consolar/Que eu nunca cheguei a ver/A Timor”) e só em tempos passados se lembrou dela (“Já não posso lá voltar/À idade de lembrar/A Timor”). Por outro lado, ao menos a música é cantada por Tim com um ritmo bem mais animado que o tom meloso de Luís Represas na canção anterior.

De resto, Tim revisitaria esta temática com “Resistir É Vencer”, do álbum Olhos Meus, lançado em Novembro de 1999, pouco depois de ser assegurada a independência timorense. O lema “Resistir É Vencer”, aliás, serviria ainda de título para um álbum de José Mário Branco, em 2004, dedicado pelo autor à resistência de Timor-Leste. E claro, antes disso houve também a agonizante sucessão de hinos tipicamente pretensiosos criados pelos Delfins ao longo dos anos 90 (“Solta os Encarcerados”, “Solta os Prisioneiros”, “Soltem os Prisioneiros (Navegar É Preciso)”), recorrentemente introduzidos nas suas actuações televisivas com dedicatórias a Xanana Gusmão.

Não obstante, a minha memória musical mais marcante relacionada com essa causa data de 2002, durante o concerto da banda punk canadiana Propagandhi, na Voz do Operário, onde o vocalista, Chris Hannah, disse algo do género: “A próxima música é sobre Timor-Leste, que foi ocupado por… Espera aí, vocês devem saber do que é que eu estou falar!”

Hannah estava prestes a introduzir a canção “Mate Ka Moris Ukun Rasik An” (do álbum Today’s Empires, Tomorrow’s Ashes), inspirada pela vida de Bella Galhos, uma resistente timorense que, após sobreviver ao massacre de Santa Cruz, conseguiu infiltrar-se no exército e ganhar a confiança das autoridades indonésias ao ponto de ser enviada como embaixadora estudantil ao Canadá, onde desertou e iniciou uma campanha de denúncia da ocupação e das relações norte-americanas com o regime de Suharto. É uma canção de contrastes fortes, não apenas a nível da letra (que contrapõe o ambiente de privilégio norte-americano à saga de Bella Galhos) mas a nível sonoro, alternando entre o melódico e o desenfreado:

 

 

De facto, a evocação do sofrimento timorense não se limitou ao universo musical português, nem ao registo da balada. Em 1996, a editora australiana Spiral Objective lançou East Timor: A Nation Betrayed, uma compilação com vista a angariar fundos para a resistência timorense, incluindo temas dos Heads Kicked Off, Forward Defence, Coach, Undertone e James Brook. Começa com malhas assumidamente hardcore e termina num registo mais experimental com uma mistura de spoken word e punk-rock, tocada e cantada por James Brook (mais tarde dos Ecowar), intitulada, claro está, “Resist Is To Win”.

 

Também os californianos Rancid se interessaram pelo tema. Embora esta banda se foque sobretudo na cultura e vivência quotidiana das comunidades urbanas americanas, não é raro mostrar interesse por questões internacionais, por exemplo em canções sobre a ex-Jugoslávia (“New Dress”), a Polónia (“Warsaw”), a Somália (“Blackhawk Down”), o Ruanda (“Rwanda”), a África do Sul (“Reconciliation”), a China (“Arrested in Shanghai”) ou a Costa do Marfim (“Ivory Coast”). A esta lista pode juntar-se “Empros Lap Dog”, um enérgico hino contra a opressão em Timor. Gravada durante as sessões do álbum Life Won’t Wait (1998), “Empros Lap Dog” acabou por ficar fora desse disco, tendo sido apenas editada quase dez anos depois na compilação B Sides and C Sides.

Para hino, saiu já tarde demais. Porém, tal como os trabalhos dos Propagandhi e da Spiral Objective, cumpre a missão de realçar a dimensão internacional da saga timorense. Afinal de contas, para além de um drama local e de um pretexto para expurgar de forma mais ou menos hipócrita o complexo pós-colonial português, esta foi também uma história de complacência e mesmo de cumplicidade internacional.

 

 

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