Lúcifer para as massas

O diabo tem uma longa história na música e nem me atrevo a começar a desfiá-la com pormenor. Para não irmos muito longe, e apenas para constatarmos as costas largas do mafarrico, tanto o blues como o jazz foram apelidados de música do demónio nos seus primórdios. Parte dessa associação devia-se, naturalmente, a conveniência política ou à necessidade de legitimar relações de poder extremamente desiguais através dum discurso moralista meio palerma, mas, no caso do blues, esta comunhão encontrou força na lenda que nos dá conta da forma singela como Robert Johnson adquiriu o domínio da guitarra, oferecendo em troca a sua alma ao diabo num encontro que ambos tiveram num cruzamento qualquer algures no Mississipi. Do blues até ao rock e ao heavy metal é um saltinho, mas essas são águas profundas onde não vou cometer a ousadia de mergulhar, senão nunca mais de lá saio.

Convenhamos, no entanto, que esta presença maléfica quer no rock quer no heavy metal é, numa boa parte das vezes, ou involuntária ou uma espécie de fogo de artifício para espantar almas sensíveis. Tanto assim é que muitas bandas ou artistas que se atreveram a flirtar com as forças do mal nas suas letras ou imagética, logo que as acusações de satanismo começaram a pairar sobre si, apressaram-se a desmentir tal fantasma apresentando todo o tipo de atestados de bom comportamento e respeito pelos costumes. Black Sabbath (dos grandes responsáveis pela presença quase transversal de temáticas ocultistas e pela centralidade do trítono – o diabolus in musica! – no heavy metal), Judas Priest, Iron Maiden ou até os Slayer, só para atirar alguns exemplos sonantes, todos desmentiram com esforço e dedicação tais ligações e, em alguns casos, acabaram mesmo a agitar a bandeira da sua religiosidade (Ozzy Osbourne, Rob Halford ou Tom Araya, por exemplo, falam frequentemente sobre as suas confissões cristãs). No campo da idiotice aguda, temos Dave Mustaine e os seus Megadeth que a partir de dada altura chegaram ao ponto de começar a recusar partilhar o palco com bandas que professavam crenças anti-cristãs, caso dos Rotting Christ que se viram forçados a cancelar presenças em festivais onde também tocava a banda thrash californiana. Há honrosas excepções, obviamente, e nem sequer é preciso descer às catacumbas do black metal para encontrá-las. Fiquemo-nos por aquela de que aqui quero falar, bem actual, com um álbum acabado de sair (Meliora) e prestes a vir espalhar a boa nova a este país abençoado pela Nossa Senhora de Fátima: os Ghost.

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Os Ghost nasceram em 2010 na Suécia e são compostos por seis ilustres desconhecidos que consagraram as suas vidas à humilde causa das trevas, encontrando no rock um bom meio para exponenciar tal devoção. O anonimato é parte fulcral do fascínio em torno da banda (coisa que tem conseguido preservar com relativo sucesso) e pouco ou nada se sabe sobre a identidade dos seus membros: a obscura figura papal que encabeça a banda, conhecida por Papa Emeritus, e os restantes cinco sujeitos que a compõem, os Nameless Ghouls, escondidos por máscaras e trajados de igual. A cada álbum tem correspondido um Papa diferente, devidamente nomeado para o efeito, e, como tal, recém-lançado o terceiro álbum, os Ghost encontram-se sob a sombra do Papa Emeritus III (o segundo Papa, segundo se diz, foi afastado pela sua incapacidade em derrubar governos e a Igreja). O som que praticam assenta num heavy metal com laivos progressivos e psicadélicos, a remeter para os 70s’, e com uma forte componente pop. As suas odes satânicas são debitadas por um registo vocal limpo e enriquecidas aqui e ali por cantos corais que nos aliciam para esta sinistra comunhão. Todo este caldinho redunda numa espécie de “mega satanic rock show”, ou essa é, pelo menos, uma das ambições dos músicos.

Aquilo que os Ghost oferecem está mais próximo do espectáculo domesticado duns K.I.S.S. ou mesmo dum Alice Cooper do que dos níveis de provocação, horribilidade e javardice de algumas das bandas oriundas dos campos mais extremos do metal. É, no entanto, inegável que mantém o espírito missionário de muitas destas bandas e que o espírito luciferino atravessa o seu imaginário de uma ponta à outra, tudo conjugado com uma boa dose de humor pecaminoso. A razão da sua aparente inocuidade residirá, porventura, na modesta pretensão de levar a mensagem do Anjo Caído ao maior número de pessoas em vez de se ficarem pela habitual pregação aos convertidos. E essa missão ficaria seriamente comprometida se não se procurasse uma certa subtileza no chamamento e se não se abdicasse um pouco do espalhafato do costume. Apenas a clareza da mensagem permanece incólume e não há letra de Ghost que não remeta para a veneração do maldito. As primeiras palavras que oferece ao mundo em Opus Eponymous, o álbum de estreia lançado em 2010, são a esse respeito inequívocas e, também, ilustrativas da bitola que pautou o seu percurso até aos dias que correm: “Lucifer/ We Are Here/ For Your Praise/ Evil One” (in “Con Clavi Con Dio”).

Já se percebeu que os suecos são ambiciosos e nunca negaram que a vertente comercial é parte incontornável da sua megalomania. O já referido Opus Eponymous trouxe-lhes um reconhecimento quase imediato, um contrato com uma major e presenças em grandes festivais, como o Coachella ou o Rock in Rio (imaginem milhares de almas a entoar em perfeita harmonia demoníaca “Come together, together as a one/ Come together for Lucifer’s son” ou a clamar em uníssono por “Belial, Behemoth, Beelzebub, Asmodeus, Satanas, Lucifer”, tudo isto enquanto comem um kebab, bebem uma coca-cola e têm um lenço promocional duma marca de telemóveis qualquer na cabeça). Infelizmente há sempre alguém disposto a perturbar a alegria dos outros. Nas gravações de Infestissumam, o segundo álbum da banda editado em 2013, realizadas nos EUA, todos os grupos corais das proximidades solicitados para gravar as respectivas partes recusaram-se a fazê-lo. E foi com a mesma boa disposição que algumas lojas de discos os receberam, negando-se a vender os seus álbuns.

Apesar destes percalços, tudo na banda parece pensado para funcionar no sentido do sucesso, quer a imagem cuidada e o folclore que a rodeia permanentemente quer o som, cheio de riffs orelhudos e refrões contagiantes. As influências pop são evidentes desde o primeiro dia, como demonstram as covers de ABBA, Army of Lovers e Depeche Mode que integram o primeiro EP, produzido por Dave Grohl. Esta mistura de heavy metal, com pop e satanismo resulta numa alegria apocalíptica que torna Ghost numa entusiasmante lufada de ar fresco com cheiro a enxofre. E o novo Meliora não desilude nem um bocadinho. Ligeiramente mais pesado, e com uma assinalável quantidade de riffs tenebrosos, Ghost encontra neste trabalho uma nova consistência mas mantém a linha percorrida até ao momento, sentindo-se a mesma diversidade de referências que remetem para algum hard rock mais progressivo e psicadélico dos anos 70. O single “Cirice” é enorme e demonstra essa capacidade de conjugar o peso das guitarras com um refrão que nos põe a cantar e nos fala directamente ao coração, como toda a boa música pop: “I can feel the thunder that’s breaking in your  heart/ I can see through the scars inside you (…) Can’t you see that you’re lost without me?”. Meliora tem até direito a uma espécie de balada, “He is”, com uma beleza tão envolvente, ainda que negra e desesperançada (“We’re standing here by the abyss/ And the world/ Is in flames”), que tanto nos imaginamos a cantá-la romanticamente debaixo de chuva com os braços abertos para o céu à espera da bênção do Majestoso, ou na praia, com os amigos, enquanto distraidamente aguardamos o Juízo Afinal com aquela leveza de quem saboreia o verão: “He’s the shining in the light/ Without whom I cannot see/ And he is/ The disobedience that holds us together/ He is/ Nostro Dispater/ Nostr’Alma Mater/ And we are falling/ Over the precipice”.

A apresentação de Meliora, e a estreia da banda, em Portugal, acontecerá no dia 27 de Novembro, na sala Hard Club do Porto, a que se segue um concerto em Lisboa, no Paradise Garage, dia 28.

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Ainda os Heróis do Mar

No outro dia, numa viagem de carro, no rádio passava Só Gosto de Ti dos Heróis do Mar e eu pensei, bolas isto está bem feito, a entrada dolente do órgão, que volta no meio da canção, a simplicidade e a depuração da pop, a eficácia do tom do Pregal da Cunha e dos coros, com uma letra que está lá porque aparentemente tem de haver uma letra qualquer para servir a música (Só gosto de ti/porquê não sei/mas estou bem assim/e tu também).

O que significa ouvir hoje os Heróis do Mar? O que transmitem as suas músicas e, mais do que isso, o que fica de todo o embrulho lírico-iconográfico-nacionalista, que não era inocente na sua provocação ideológica de direita no Portugal do pós-25 de Abril, dominado pelos baladeiros de intervenção, como tem bem salientado o Luís Trindade. Aí temos uma combinação singular entre o orgulho de um nacionalismo primordialista do sangue, da terra e da história idealizada servido pela pop, por uma bem conseguida adaptação portuguesa de uma certa modernidade musical.

Grande parte dos êxitos dos Heróis do Mar são, no entanto, canções de amor. Mas apesar de Paixão, Amor, Só Gosto de Ti e Supersticioso ninguém considerará a banda de Aires Magalhães com uma banda romântica. Talvez a razão para isso se deva ao facto de canções como Só Gosto de Ti soarem a falso, convidando mais a um jogo do que a uma adesão incondicional, embora estas fronteiras sejam ténues. É certo que o jogo é também estimulado pelas melodias mais açucaradas, mas nestas canções de amor dos Heróis do Mar o dispositivo está demasiado à mostra. Não há um naturalismo romântico que torne estas canções o momento da vida de um duo enamorado; as músicas parecem anunciar permanentemente “isto é uma tanga”: melodias pop para cantadas de fim de tarde, provavelmente numa praia da linha, com os coros a anunciar o gozo colectivo da cumplicidade masculina, e onde toda a lírica algo kitsch da coreografia do amor, como na canção Amor (quando a tua mão e a minha trocam doçuras/ no calor eterno de ternuras) parece estar lá apenas ao serviço de um desejo assumido (ó amor não me mataste o desejo/ ó amor com o teu primeiro beijo). Se a canção até pode parecer ser inócua, o vídeo de Amor mostrava a banda, no mosteiro dos Jerónimos, numa encenação pós-moderna dos desfiles da Mocidade Portuguesa.

É impossível e indesejável ocultar a dimensão política dos Heróis do Mar, embora seja difícil medir o seu efeito na mundividência do ouvinte. Mas talvez seja interessante olhar para algumas destas canções atendendo ao quotidiano destes jovens de classe média. Esta desnaturalização do amor, que desoculta a estratégia masculina, é interessante por duas razões. Por um lado, do ponto de vista formal, utiliza uma certa artificialidade para romper com o efeito emocional da adesão romântica, tão presente em tantos produtos culturais de sucesso, que pedem a adesão visceral dos ouvintes ou dos espectadores. Por outro, revela que no mundo duro das relações de poder e da reprodução social, universo que as classes mais privilegiadas aprenderam a dominar por questões de sobrevivência, nunca fez mal encarar o amor como uma espécie de farsa, co-encenada, para que tudo se mantenha na mesma.

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