Ainda os Heróis do Mar

No outro dia, numa viagem de carro, no rádio passava Só Gosto de Ti dos Heróis do Mar e eu pensei, bolas isto está bem feito, a entrada dolente do órgão, que volta no meio da canção, a simplicidade e a depuração da pop, a eficácia do tom do Pregal da Cunha e dos coros, com uma letra que está lá porque aparentemente tem de haver uma letra qualquer para servir a música (Só gosto de ti/porquê não sei/mas estou bem assim/e tu também).

O que significa ouvir hoje os Heróis do Mar? O que transmitem as suas músicas e, mais do que isso, o que fica de todo o embrulho lírico-iconográfico-nacionalista, que não era inocente na sua provocação ideológica de direita no Portugal do pós-25 de Abril, dominado pelos baladeiros de intervenção, como tem bem salientado o Luís Trindade. Aí temos uma combinação singular entre o orgulho de um nacionalismo primordialista do sangue, da terra e da história idealizada servido pela pop, por uma bem conseguida adaptação portuguesa de uma certa modernidade musical.

Grande parte dos êxitos dos Heróis do Mar são, no entanto, canções de amor. Mas apesar de Paixão, Amor, Só Gosto de Ti e Supersticioso ninguém considerará a banda de Aires Magalhães com uma banda romântica. Talvez a razão para isso se deva ao facto de canções como Só Gosto de Ti soarem a falso, convidando mais a um jogo do que a uma adesão incondicional, embora estas fronteiras sejam ténues. É certo que o jogo é também estimulado pelas melodias mais açucaradas, mas nestas canções de amor dos Heróis do Mar o dispositivo está demasiado à mostra. Não há um naturalismo romântico que torne estas canções o momento da vida de um duo enamorado; as músicas parecem anunciar permanentemente “isto é uma tanga”: melodias pop para cantadas de fim de tarde, provavelmente numa praia da linha, com os coros a anunciar o gozo colectivo da cumplicidade masculina, e onde toda a lírica algo kitsch da coreografia do amor, como na canção Amor (quando a tua mão e a minha trocam doçuras/ no calor eterno de ternuras) parece estar lá apenas ao serviço de um desejo assumido (ó amor não me mataste o desejo/ ó amor com o teu primeiro beijo). Se a canção até pode parecer ser inócua, o vídeo de Amor mostrava a banda, no mosteiro dos Jerónimos, numa encenação pós-moderna dos desfiles da Mocidade Portuguesa.

É impossível e indesejável ocultar a dimensão política dos Heróis do Mar, embora seja difícil medir o seu efeito na mundividência do ouvinte. Mas talvez seja interessante olhar para algumas destas canções atendendo ao quotidiano destes jovens de classe média. Esta desnaturalização do amor, que desoculta a estratégia masculina, é interessante por duas razões. Por um lado, do ponto de vista formal, utiliza uma certa artificialidade para romper com o efeito emocional da adesão romântica, tão presente em tantos produtos culturais de sucesso, que pedem a adesão visceral dos ouvintes ou dos espectadores. Por outro, revela que no mundo duro das relações de poder e da reprodução social, universo que as classes mais privilegiadas aprenderam a dominar por questões de sobrevivência, nunca fez mal encarar o amor como uma espécie de farsa, co-encenada, para que tudo se mantenha na mesma.

Advertisements
Standard

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s