Quem conquista as novas cidades sujas?

Escrita em 1949 por Ewan MacColl, Dirty old town permite continuar o mergulho pelas canções de amor, mas também falar dos Pogues, de futebol e sobretudo de Jeremy Corbyn, o novo líder do Partido Trabalhista inglês. Produto do ambiente industrial da cidade de Salford, no Lancashire, a que chamou precisamente de dirty old town, MacColl era um artista multifacetado e um comunista descendente de socialistas escoceses. O seu casamento com Peggy Seeger, filha do conhecido musicólogo americano Charles Seeger, juntou na mesma família as tradições da canção tradicional popular de protesto britânica com a sua congénere norte-americana, que viria a ter em Peter Seeger, irmão de Charles, um dos seus maiores expoentes. A primeira versão de Dirty Old Town, na voz de MacColl, é acompanhada no vídeo pelas imagens da tristonha Salford, enquanto a letra propõe uma geografia amorosa pela infra-estrutura industrial. O processo de desindustrialização sentido nestas regiões inglesas a partir da década de sessenta fez com que Salford, que em 1951 tinha 178,194 habitantes, contasse em 2001 com apenas 72,750.

Eu, que não sabia nada desta história, nem do renascimento da canção pela mão dos Dubliners, tomava Dirty Old Town como uma das mais conhecidas baladas dos Pogues, banda irlandesa formada em 1982 em Londres e que misturava a música tradicional irlandesa com o espírito do tempo revelado pelo punk. Os Pogues publicaram a canção de MacColl em Rum, Sodomy and the Lash, álbum de 1985 cujo título cita uma descrição, atribuída a Churchill, da vida quotidiana da marinha de guerra inglesa. Para os Pogues interessava cantar as desventuras da diáspora irlandesa e os seus conflitos com a Inglaterra política mas não com a Inglaterra social e cultural a que pertenciam e com a qual desenvolveram uma relação ambígua, que define frequentemente os povos colonizados. Esta versão ao vivo de Dirty Old Town mostrada no vídeo é antecedida por algumas palavras de Joe Strummer. No início dos anos noventa, os Pogues actuaram no Campo Pequeno com o antigo vocalista dos Clash, num período em que o histórico vocalista Shane MacGowan fora afastado de uma banda excessivamente alcoólica por ter ultrapassado os limites do excesso de álcool permitidos em bandas excessivamente alcoólicas.

As apropriações da música e da letra de Dirty Old Town mantiveram muitas vezes um carácter político. Os adeptos do FC United of Manchester usaram-na para celebrarem no estádio a existência do seu clube, nascido em 2005 da luta contra a conquista do mais conhecido Manchester United pelo grande capital americano dos irmãos Glazer. A tradição coral das claques dos adeptos ingleses é difícil de bater e sobretudo neste caso quando estas vozes reforçam o cimento convivial e simbólico de um combate pela democracia associativa.

A vitória de Jeremy Corbyn nas primárias do Partido Trabalhista anuncia o papel político contemporâneo das populações das novas Dirty Old Town. Estas já não são centros industriais cheios de fumo mas espaços urbanos onde vão faltando empregos e serviços públicos. Hoje, Ewan MacColl escreveria a letra da sua canção de forma distinta. Nestas cidades cresceu o voto nacionalista, à esquerda na Escócia, e à direita em Inglaterra, com a xenofobia do Ukip e o discurso proto-racista dos próprios partidos do centro partidário, os trabalhistas e os conservadores. Neste quadro em que o protesto contra o modelo económico se vai fazendo à direita pela exploração do medo, Corbyn é uma boa notícia. A reacção mediática à sua vitória foi, porém, muito violenta. Em Inglaterra, os tablóides pintaram-no como o filho do diabo e os jornais ditos sérios com inconfessada sobranceria. Em Portugal, em vários artigos de jornal e comentários televisivos, os defensores do caldo ideológico que define o centro político, campeões da ponderação e da sensatez educada, não conseguiram melhor do que reproduzir a retórica dos jornais de Murdoch, o Sun e o Daily Mail. Perigoso radical, republicano, anti-patriota, anacronismo político, Corbyn não propõe nada de especialmente extraordinário ou inovador, apenas um programa social democrata que defende uma maior justiça fiscal, uma redistribuição mais justa de rendimento entre grupos sociais e regiões, melhores serviços públicos, melhores hospitais e transportes, escolas menos segregadas socialmente e uma política externa mais humana. Concebida como radical, esta social-democracia contrasta com uma normalidade contemporânea que em Inglaterra, como noutros lugares, é caracterizada por uma retórica nacionalista extremada, pelo poder de uma oligarquia financeira centrada em Londres e suportada por paraísos fiscais, num sistema escolar que se aproxima de um regime de apartheid em benefício dos ricos e que contribuiu para a quase ausência de mobilidade social ascendente. Talvez o futuro da Europa seja determinado pelas forças que conquistarão o eleitorado das novas cidades sujas e pela cultura política que dai sairá.

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