Dos refugiados para os refugiados

Afirmar que o punk/hardcore é “mais do que música” é certamente um dos clichés mais repetidos entre aqueles que integram as fileiras do estilo para a ele se referirem. Como acontece com todos os chavões, e também pela diversidade que caracteriza o universo punk/hardcore, nem sempre se percebe muito bem o que é que a expressão significa. O evento que serve de mote a este texto (um benefit, o Refugees Welcome Benefit Fest – já lá vamos) diz na sua nota de apresentação que “o movimento punk/hardcore sempre se definiu pela defesa de ideais e valores, pelo combate às injustiças, pelo respeito pela diferença, pela tolerância e pelo inconformismo”. A coisa é descrita em termos suficientemente abrangentes para não ser muito esclarecedora e deixa espaço para que esse chavão continue a querer dizer coisas muito diferentes consoante quem o exprime. Para uns quantos, quererá dizer que o punk/hardcore é um “estilo de vida”, com os seus próprios valores, estética e lugares, auto-referencial e quase auto-suficiente, como uma comunidade fechada e sem grande necessidade de interconexão com o mundo que o rodeia. Por outras palavras, o punk/hardcore é, nesse caso, um lugar de refúgio, um espaço de fuga à violência do mundo exterior e um lugar onde é possível desligar de um dia-a-dia entendiante e incerto, mas pouco mais do que isso. Para outros tantos, dizer que é “mais do que música” é dizer isso tudo, mas, também, que o punk/hardcore não procura apenas um lugar no rol de estilos musicais e subculturas urbanas da indústria musical e que, portanto, procura ir muito para lá do campo domesticado (o campo dos lazeres e entretenimento) para que a música e as expressões culturais que dele emanam são geralmente remetidas. Neste sentido, o punk/hardcore não se fecha nas sociabilidades e políticas internas que regulam a sua comunidade e pretende intervir e interferir com a sociedade e com a política dominantes do mundo “exterior”. Daí que a música tenha praticamente tanta relevância quanto as fanzines, as letras ou os debates, por exemplo, ou os músicos sejam tão importantes quanto quem frequenta os concertos ou quanto quem os organiza.

No passado domingo, no Musicbox, em Lisboa, realizou-se um desses eventos que durante muito tempo – especialmente quando aconteciam com mais frequência em Portugal – fez com que o carácter mais interventivo se destacasse em muitas das “cenas” do punk/hardcore nacional: um benefit, a reverter para a Plataforma de Apoio aos Refugiados, intitulado Refugees Welcome Benefit Fest e que reuniu bandas dos mais diversos estilos e tendências desse universo. Não tenho sido o frequentador mais assíduo de concertos hardcore nos últimos anos, em parte por falta de tempo, em parte por desinteresse, mas este evento cativou-me por ser um benefit, e, especialmente, por ser um benefit para uma causa que tem suscitado reacções particularmente hostis para os padrões a que estamos habituados neste país de “brandos costumes”. Além disso, um evento como este teria sido inequivocamente consensual há uns anos  e seria até quase inevitável que surgisse ligado ao hardcore, mas hoje é uma raridade e um motivo de agradável surpresa.

A “cena” hardcore mudou bastante desde que a conheço. Na última década, a “cena” lisboeta perdeu o carácter fortemente politizado que vinha dos anos 90 e que a singularizava. Não se despolitizou, mas o significado de “político” mudou, tornando-se acessório e consequentemente menos crítico, abrindo espaço na “cena” para que ideias chauvinistas e comportamentos sexistas (num meio que nem no período mais politizado era imune a tais coisas) se disseminassem sem grande resistência. A “política” passou a cingir-se a questiúnculas internas, a uma ou outra letra para marcar posição e a “cena” deixou de ser um espaço de debate e partilha de ideias para passar a ser pouco mais do que esse lugar de escape e “refúgio”, marcada por expressões de revolta mais ou menos incipientes em que a identidade e o sentido de pertença colectiva se sobrepuseram a tudo o resto.

Disse que a “cena” não se despolitizou, mas sim que foi o significado de “político” que mudou. Isto porque as mudanças que se verificaram na “cena” são mais complexas do que muito dos seus intervenientes quiseram entender (mea culpa) no calor do acontecimento – e do que alguns ainda entendem quando olham retrospectivamente, lamentando o que se perdeu e desprezando em absoluto aquilo em que se tornou. Em termos meio impressionistas, é possível dizer que parte desta transformação no hardcore foi devida a uma ruptura social, em que aqueles que viam na “cena” um lugar de partilha e discussão de (certas) ideias – maioritariamente de uma classe média suburbana, escolarizada e com famílias com profissões liberais ou com autonomia laboral – entraram em “conflito” com tanta outra gente que integrou ou já fazia parte da “cena” – em grande parte de classes médias/baixas menos remediadas e, em alguns casos, de zonas periféricas mais fodidas. Esse conflito deu-se em parte através de um desligamento “intelectual” destes últimos, sentindo-se deslocados e desinteressados daquilo em que a “cena” se tinha tornado, sem identificação com as linguagens predominantes, cada vez mais abstractas, cada vez menos viscerais e imediatas, cada vez mais distantes da merda quotidiana com que estavam familiarizados e que tinha servido de combustível à raiva que encontrava sintonia no estilo (já tinha falado mais ou menos disto noutro post, a propósito de outra banda, os Modern Life is War). Perante o desemprego, a precariedade e a violência que pairava sobre o seu dia-a-dia, letras sobre os zapatistas, sobre lutas em contextos longínquos, sobre prisioneiros políticos ou sobre espiritualidades e metafísicas esotéricas, soavam a pouco mais do que à tremenda máquina de produção de tédio com que se ferve diariamente em lume brando a imensa massa constituída por aqueles “sem futuro”.

Alguns dos nomes do cartaz do benefit de domingo fazem parte desta história. Todas as bandas presentes têm elementos que conheceram a “cena” que descrevi atrás – talvez a excepção sejam os F.P.M., mais novos, e os Viralata, doutro circuíto. Os Shape são, também, uma banda relativamente recente nesta cronologia, mas podem servir como exemplo de um dos resultados da “pacificação” deste processo: tocam um hardcore moderno e melódico, com letras a expressar, principalmente, frustrações individuais e problemas existenciais. Pelo som, fariam facilmente parte da “cena” atrás descrita, mas os temas das letras e as preocupações são outras, são as da “cena” actual. GAEA é um projecto de hip-hop vegan straight-edge, anti-capitalista e anti-fascista até ao osso, e, curiosamente, foi quem melhor representou o espírito antigo. O seu mentor, Miguel Sarzedas, é um veterano da “cena” e integrou bandas como New Winds (um dos grandes nomes da história do hardcore nacional e uma das bandas mais militantes que por cá existiram) ou, mais recentemente, os Together e os xAIMx. As letras versam principalmente sobre uma vida livre de drogas, sobre veganismo e ecologia e apelam à transformação individual, com muito romantismo mas sempre em tom guerreiro: “Sem drogas – uma vida pura, uma vida limpa, uma vida mais segura. Veganismo e Anti-fascismo, Anti-capitalismo mas nunca esquecer de ser consciente no consumismo. Ser humilde e renunciar o egoísmo. Porque se eu não mudo, o mundo gira mas fica o mesmo.” (in “Quando fecho os olhos”). Ouvir e ver GAEA, naquele contexto, e apesar de me rever pouco na forma como alguns daqueles temas são abordados e entendidos (o recurso frequente a palavras como “pureza” e “verdade” fazem-me um bocado de comichão, por exemplo), remeteu-me para o impacto que o hardcore pode ter em alguém que ali caia desamparado ou que com ele contacta pela primeira vez. A força das músicas e da presença do Miguel, a honestidade das palavras e a intensidade de cada coisa que é dita, foram o que melhor demonstrou naquela tarde a mistura de paixão e incisividade que constitui a força do hardcore e que é capaz de captar o espanto dos menos precavidos.

For the Glory, cabeças de cartaz do evento, também é constituída por alguns veteranos da “cena”, e, mais do que isso, foram provavelmente a banda que melhor representou a ruptura atrás referida, impulsionando-a e assumindo-a como bandeira. É nela que me vou focar agora. For the Glory foi das primeiras bandas a abandonar o primado da política e da intervenção nas suas letras e atitude e a adoptar um som mais musculado e imediato, carregado de beat-downs, a reclamar mais presença do corpo do que do cérebro nos concertos. Não que não houvesse bandas com um som e atitude próximas desta banda; o que distinguiu For the Glory e fez com que chateasse muita gente foi o facto de ter emergido dessa “cena” altamente politizada e ser constituída por membros vindos de algumas das bandas mais interventivas. O que os tornou incómodos foi, portanto, alguns desses membros terem mandado às urtigas uma “cena” cada vez mais previsível, rígida e regrada; cada vez mais parecida, em suma, com o mundo que procuravam deixar fora da sala de concertos. Como já se percebeu, bandas como os For the Glory saíram vencedoras desta “batalha”. E há muito de positivo nisso. O hardcore pode ter perdido uma certa força que o caracterizava, mas, em contrapartida, tornou-se mais plural e menos excludente. E, enquanto comunidade, nem por isso se tornou menos identitário do que aquilo que já era: apenas mudaram os referentes dessa identidade.

A “cena” tornou-se mais desinteressante? Talvez. Mas ao ver For the Glory, hoje, com as águas pacificadas, passados quase 10 anos desde que apareceram e de me terem irritado por desafiarem tudo aquilo que eu valorizava no hardcore, percebo que a “política” está lá. E não apenas por participarem num benefit a dar as boas vindas aos refugiados. Podem não viver para as “causas”, podem ser menos críticos (o que me parece falso: basta perguntar quantas das pessoas que viveram esse período mais politizado não viram as suas “ideias” e “causas” ruir como um castelo de cartas ao primeiro sopro, tornando-se tão ou mais letárgicas e conformistas do que aquelas a quem apontavam o dedo?), mas permanece um certo apelo à revolta, numa toada provavelmente mais directa e impactante para aqueles que hoje constituem a “cena”. Entre as músicas, o Congas (vocalista) foi frisando o hardcore como espaço sem restrições e de liberdade, onde ninguém julga ninguém por contraste com a sociedade exterior, e frisou o seu carácter igualitário, em que o palco e o microfone são de todos e “a banda é a voz do público e o público é a voz da banda”.

Tudo isto pode parecer pouco político, ingénuo e superficial até, e, no entanto, é do que de mais político o hardcore tem (ainda que raramente tenha sido percebido, enquanto tal, pelos seus integrantes): as redes de sociabilidade e a comunidade de partilha que funciona em contracorrente com muito do utilitarismo materialista que invadiu grande parte dos sectores da nossa sociedade através da lógica do “mercado”. Em suma, o hardcore pode hoje ser mais desinteressante para quem a ele chega artilhado com uma boa base de referências culturais e com uma revolta predisposta a ser canalizada para lutas e formas concretas de acção. Mas o hardcore é, antes de mais, um ponto de partida, em especial para aqueles que se sentem mais deslocados do mundo (nos muitos sentidos que esta expressão pode ter). É um espaço de (novas) possibilidades e expectativas, em que uma raiva individual e contida se encontra e reconhece na raiva de tantos outros putos perdidos que ali foram parar; é um local onde o sentimento de frustração, deslocamento do mundo e de tédio é exteriorizado e explode em manifestações antes imprevistas. O hardcore não vai mudar o mundo, mas, por tudo isto, muda vidas. E é essa capacidade que deve ser preservada.

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A Cidade e a polis

E uma Polaroid elevou-se da desarrumação.

quedacidade

Colocado num autocarro, um anúncio da Rádio Cidade apela à adesão dos jovens aos programas desta estação da Amadora. O anúncio, que terá uns bons anos, assegurava que na Rádio Cidade os jovens podiam ouvir o que queriam, em alternativa a tudo o que não desejavam. O princípio do prazer. Num outro anúncio da Cidade, a antítese do deleite era a chamada música pimba. Se numa fotografia uma rapariga com uns brócolos enfiados nas orelhas rejeita a política, na outra, um rapaz tapava os ouvidos para não ouvir os sons de Emanuel e companhia. A diferença de género não será aspecto menor nesta história. Estes dois exemplos negativos, pensados com detalhe pelos profissionais do marketing, imaginavam uma juventude moderna e urbana, que enjeita os sinais de ruralidade recauchutada para classes populares encarnada pelo “pimba”, e simultaneamente afastava-se do mundo aborrecido e adulto da política. O marketing explorava a economia moral da adolescência numa época da história de Portugal, quando a adolescência se ia enfim libertando do mercado de trabalho.

Criada como rádio pirata em 1986 por um imigrante brasileiro que importou um modelo bem sucedido no seu país, a Rádio Cidade inovou na sua análise de mercado. Quando a Cidade apareceu, reinavam os dois canais da RTP e não havia propriamente rádios para jovens. Acabado de entrar na então CEE, Portugal encontrava-se à beira da primeira maioria absoluta de Cavaco Silva e a liberalização da economia, aumentando as desigualdades, colocou dinheiro a circular e promoveu o consumo. Em meados da década de noventa, a Rádio Cidade deixara de ser uma estação confinada ao subúrbio de Lisboa: era a segunda rádio com mais audiências do pais. Em 1999 foi comprada pelo grupo Media Capital e desde então procura manter-se num mercado que respondeu ao seu desafio copiando o estilo alegre e desprendido, em linha com a imagem de uma classe jovem em crescimento pelo prolongamento da vida escolar.

Na Cidade, a oferta musical vinha embrulhada numa boa disposição desenfreada, numa alegria tão conotada com uma certa imagem do Brasil, estereótipo tornado virtude comercial. Este sucesso ajudou à entrada dos mestres da comunicação do outro lado do Atlântico, cooptados para a gestão das grelhas das televisões privadas (com clássicos como o Big Show Sic e a invenção de João Baião por Ediberto Lima), e para eleger primeiros-ministros. Na Cidade, os apresentadores eram envolventes, falavam alto, contavam anedotas, organizavam concursos e divulgavam uma música comercial experimentada com êxito noutros lugares do mundo. A música para dançar ocupava aqui um lugar determinante, bem como as batidas e as misturas dos Djs, depois transpostas para as pistas das discotecas do país. Nascia uma outra paisagem sonora.

Independentemente da apreciação passível de ser feita à proposta da Cidade, para uma camada larga da população ela foi um símbolo do moderno, de um certo moderno, diferente de outros que chegaram mais cedo a Portugal. Como o companheiro Marcos Cardão tem insistindo inúmeras vezes, a música e os estilos de vida de forma mais geral são veículos da mudança, criadores de novas imagens, códigos e práticas, libertadores do corpo e meio de emancipação de várias tutelas. Para os promotores da Rádio Cidade este consumo fazia-se contra outras dimensões da vida quotidiana. O seu carácter despolitizador é notório. E no entanto esta constatação restringe o debate à habitual preguiça e sobranceria característica da crítica aos efeitos da cultura de massas.

A aparente antinomia entre alegria e política merecerá então melhor atenção. Alguém que considere a política chata pode ser acusado de apatia, de afastamento ou desinteresse, tomado como mau cidadão. Mas as razões do divórcio talvez sejam distintas, mesmo que não verbalizadas: para muitos a política é inacessível e hermética, aparentemente inútil, controlada por porta-vozes e profissionais indiferenciados. Tudo isto é muito pouco alegre e motivador.Pode explicar-se crise de uma democracia idealizada invocando a função alienante da cultura mediática. Inicie-se o exercício crítico pela rádio Cidade e termine-se nos resultados mais danosos da liberalização dos media em Portugal. Mais difícil é reformar as formas de fazer política.

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Lionel Ritchie e o efeito eco

Na terceira história do segundo volume da trilogia «Mil e uma noites» («o Desolado»), intitulada «Os Donos de Dixie», porventura a mais amarga e melancólica, o personagem Humberto (João Pedro Bénard) coloca no gira-discos a música «Say you say me» de Lionel Ritchie. À semelhança de canções como «Classic» de Adrian Gurvitz, «I Want To Know What Love Is» dos Foreigner, ou «I Should Have Known Better» de Jim Diamond, o tema de Lionel Ritchie é ilustrativo do universo meloso de meados dos anos 80, actualmente convertido em produto de recordações nostálgicas. Tratam-se de canções aparentemente vulgares e desinteressantes, mas convém não ser peremptório no julgamento, até porque estas canções fizeram parte da educação sentimental de vários pré-adolescentes, que as ouviram agarradinhos em matinées dançantes compostas musicalmente por slows.

Atribuir uma música a um personagem serve para caracterizar e vincar um papel. Neste caso de Humberto, um velho pobre e suburbano, adepto do Benfica que compra habitualmente «O Record», quando devia comprar «A Bola», conhecido popularmente como jornal de todos os lampiões. Aqui e ali a caracterização das personagens parece imperfeita e há declarações desajustadas e destituídas de pathos, como aquela em que Vânia (Joana de Verona) descreve o seu relacionamento com Vasco (Gonçalo Waddington), ex-toxicodependentes, dizendo que «esta é uma história de amor muito fodida, mas mesmo fodida, mas é uma história de amor».

Uma situação social não chega para fazer um filme político. Num episódio com pretensões realistas, e em que o apelo à realidade é constante, há lugar-comuns desnecessários, nomeadamente quando se parte do princípio que um velho suburbano de Santo António dos Cavaleiros ouve com naturalidade o «Say you say me» de Lionel Ritchie em vez do «Winterreise» de Schubert. Muitos terão mordido o isco da caracterização sociológica, e fizeram uma correspondência directa entre o gosto musical de Humberto e a pobreza cultural dos subúrbios. Porém, Humberto, como se autonomizasse de um guião pré-definido, não se limita a desfrutar da canção de Lionel Ritchie, ele pronuncia-se sobre o seu tipo de som, tecendo um comentário «erudito» sobre a produção musical dos anos 80. Humberto refere-se concretamente ao eco que está presente nas produções musicais da época.

Assim como o auto-tune está para a produção musical contemporânea, aperfeiçoando as performances vocais no Rap e R&B, o efeito eco caracterizou algumas produções musicais da década de 1980. Desde os trabalhos seminais de Lee Scratch Perry e King Tubby no início da década de 1970 que os ensinamentos do dub – ecos viçosos, «delays», reverberações e múltiplos efeitos sonoros – contaminaram o universo da pop. Não se pretende alterar o valor das coisas para as tornar mais dignas, dizendo por exemplo que o comentário de Humberto o redime do seu meio social, mas convinha não achar que tudo o que as classes populares ouvem é banal, estereotipável e digno de condescendência. Humberto não nos diz, como alguns críticos afiançam, que o «Say you say me» é a canção mais bonita do mundo, ele fala-nos sobre o efeito da canção, interpretando-a com um comentário que transcende o círculo das identificações sociais e baralha as caracterizações naturalizadas. Nada como a riqueza sensível para contornar a prepotência dos lugares arrumados.

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O grande mergulho

Houve quem dissesse que a diferença entre as óperas italianas e as alemãs era comparável ao que separava as marcas de carros das duas nações. Os carros italianos seriam espetaculares, sensuais, românticos e superficiais e os alemães sólidos, sóbrios, profundos e fiáveis.

Descarnadas dos pouco interessantes estereótipos nacionais, estas categorias oferecem outras leituras, quase sempre lineares e ainda assim instigadoras. Talvez a imagem mais associada a estes pares de adjetivos seja aquela que expõe a diferença entre as sociedades do sul atrasado, onde reina o expediente, e as do norte desenvolvido, definidas pela sua racionalidade moderna. No futebol há um gesto que espelha bem este problema: o protagonizado pelo jogador que se atira para o chão para tentar ganhar uma falta que na realidade não aconteceu. O sul futebolístico é especialista em criar estes jogadores, a quem os ingleses chamam pejorativamente divers, os mergulhadores. Nos campos a sul o público apaixonado tolera a estratégia astuciosa de confronto com a moral do regulamento oficial do jogo. No norte, este movimento é ilegítimo e penalizado pela norma social que domina as bancadas. Do futebol para o comportamento que descreve outras situações vai um pequeno passo, como demonstram as imagens sobre povos e regiões que regressaram com as recentes crises da dívida soberana.

Mas se a imoralidade dos mergulhadores é espetacular e romântica, ela não é necessariamente a mais eficaz. As armas dos fracos possuem limitações conhecidas. O método discreto, fiável e moderno utilizado pelos técnicos da Volkswagen que colocaram de forma ilegal em dezenas de milhares de carros engenhos que permitiam alterar os valores das emissões de gazes poluentes revela como o mergulho para a relva é uma técnica atrasada e demasiado espampanante, como as óperas italianas.

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É como queijo numa ratoeira

A farsa do voto útil é repetida a cada eleição, oferecendo com intervalos de tempo mais ou menos regulares as diversas formas de chantagear que caracterizam a luta pelo poder. Não há eleição em que os militantes do Partido Socialista não repitam a rábula do «votar à esquerda do PS é fazer é um frete à direita». Deve ser por isso que este ano a Juventude Socialista, que conserva o ímpeto do socialismo democrático e a irreverência que é própria da juventude, decidiu proclamar aos quatro ventos que «ia pela esquerda»: «Vamos pela Esquerda – Uma Agenda Jovem» é o nome do documento que, dizem eles, «se pretende constituir como agenda progressista dos jovens socialistas para a próxima legislatura».

A política eleitoral é uma questão de tácticas e estratégias, de dribles e simulações, e não dispensa os seus pregões. Neles persiste o cheiro a mofo das proclamações vazias. Mais facilmente os eleitores interpretam o «Vamos pela Esquerda» como uma proposta de alteração do sentido da circulação automóvel do que com um programa político. Já não precisam de prometer «muito pão e vinho/ quando abre a caça eleitoral», como dizia a Lena d’ Água em «Demagogia», basta-lhes uma caricatura.

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