Declinações do punk

De regresso a Kurt Cobain depois de lida uma sua biografia, longe de genial. O percurso de Cobain até ao estrelato foi meteórico e o ocaso tão dramático que ele não teve tempo de mergulhar no novoriquismo habitual da banda rock de sucesso. Comprou já no final da curta vida uma mansão e uma televisão gigante para pôr lá dentro, mas o dinheiro acumulado com o êxito de Nevermind foi quase todo para a heroína. “White trash pretending to be middle class” era a sua descrição do meio familiar, o de uma classe trabalhadora a navegar entre o rural e o urbano, no meio conservador e deprimido de Aberdeen, no Estado de Washington. Mais ao detalhe, o traumático divórcio dos pais, períodos a viver na rua e dentro de carros, dificuldades de relação com as mulheres mas também com a masculinidade dominante, solidão consistente. Este toxicodependente intenso, escatológico, que acabou com um tiro na cabeça não era o exemplo perfeito do sonho americano. As mortes de Hendrix, Morrison e Joplin, também aos 27, reforçaram o mito de uma época, danos colaterais de uma narrativa heróica, de uma certa história dissolvida no yupismo dos anos oitenta e recuperada por um culto contemporâneo que continua a alimentar utopias. Se a Cobain faltava a relação com uma narrativa histórica, apesar da ideia um pouco vaga de representante de uma geração, a sua música não deixava, porém, de falar pela sua condição.

Talvez seja justo assumir que Cobain é uma declinação singular e algo descontrolada da história do punk. No subúrbio de Seattle ele tornou-se no centro improvável por onde se cruzaram referências e experiências muito diversas. Este subalterno anómico e banal possuía um conhecimento musical popular ecléctico e uma vocação autodidacta relativamente perfeccionista, alimentada pela cena musical envolvente, que era mais do que uma cena musical, mas um espaço de vida. Aprendera a gostar musicalmente do mainstream radiofónico, onde foi buscar um respeito pela melodia e pela pop, e no punk encontrou além de uma afinidade musical o conforto social e político. São as lógicas destas vivências que emigram com dificuldade para o discurso das indústrias culturais, tanto o veiculado pelas máquinas dos circuitos das grandes produtoras, como o produzido pelos nichos alternativos, que simplificam essa condição de origem, inevitavelmente colada à sequência de acordes musicais. Será esse o perigo de fazer a história da música a partir do discurso do campo musical, o que impede de perceber, por exemplo, como nos casos de muitas bandas o desaparecimento das condições fundadoras alterou o sentido da própria música. Os Nirvana vieram do cosmopolitismo singular do entulho, de um mundo inóspito de onde aparentemente nada poderia brotar. Ainda assim, ao simplificar a mediação industrial não torna falsas as apropriações das suas músicas, tanto para o adolescente “pouco criterioso” que tinha os Nirvana ao lado dos Guns N’ Roses ou da Madonna, como para quem tais misturas eram intoleráveis, preferindo colocar a banda de Seattle numa genealogia mais linear e “correcta” do punk, onde estavam os conterrâneos Melvins mas também o punk sónico da classe média nova iorquina. Para Cobain a questão da recepção não era assunto menor. Ele ficava tão incomodado ao pensar que a sua música era ouvida por uma América conservadora, reacionária e machista, como quando no seu meio começaram a desdenhar a chegada de instrumentos atípicos ao palco punk dos Nirvana, como por exemplo o violoncelo.

Na sua aparência vulgar, Cobain possuía uma intuição política apurada, mesmo que não exteriormente organizada. A sua declinação do punk implicava sair do nicho onde se encontravam algumas das bandas que o inspiraram e politizaram. Achou então que conseguiria trazer o punk para o mainstream. Fê-lo, porém, com o som polido de Nevermind, cedência que procurou corrigir no derradeiro álbum da banda. A sua política passava tanto por trazer os três acordes e os seus gritos guturais para a MTV como convocar a pop para dentro do punk, sem deixar cair a categoria e desprendendo-a de um destino formal: uma atitude corajosamente punk. Enfim, não se tratava de reproduzir as virtudes de uma comunidade fechada mas de mover a política para fora do gueto e simultaneamente desafiar as suas convenções, por vezes sobranceiras. É talvez esta tentativa de multiplicar os alvos políticos do punk rock, desafiando o seu próprio conceito, que tornam Cobain mais desafiador do que aparenta.

 

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Duas versões de Aneurysm. A primeira, 23 anos depois da segunda, na comemoração da chegada dos Nirvana ao Hall of Fame do Rock. Nesta ocasião, os membros restantes da banda convidaram cinco mulheres para substituírem o vocalista. Acho que Kim Gordon foi a que se saiu melhor, embora de entre as canções então tocadas esta é a que tem menos visualizações no youtube e eu não possa disfarçar a minha parcialidade em relação à Gordon. Liberta de uma certa contenção mais habitual nos Sonic Youth, imposta pela estrutura da música aos próprios corpos dos intérpretes, com os longos solos, Kim Gordon reinterpretou bem, infelizmente para a um público já muito aburguesado. Há filmagens com melhor som mas esta tem uma introdução do Novoselic onde se fala de quão cosmopolita se tornou o punk nas garagens de Aberdeen. A segunda ainda com Cobain num teatro em Amesterdão em 1991

 

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