O meta-punk dos NOFX

O punk-rock é tradicionalmente um género autofágico, com letras repletas de citações mútuas e picardias (sobretudo acusações puristas de falta de autenticidade punk e de venda ao sistema, à indústria musical, e ao que mais por aí houver de mau), já para não falar na proliferação de covers e ecos de acordes passados. Ainda assim, poucas bandas dedicaram tantas canções, ao longo de tantas décadas, à temática da cena punk-rock como os NOFX.

Ininterruptamente prolífica desde 1983, esta banda californiana recusou ofertas de mudar para editoras maiores e opõe-se à transmissão das suas canções em rádios e televisões mainstream, tendo ainda participado em diversas iniciativas militantes (sobretudo durante a era Bush), o que não impediu que tenha sido repetidamente acusada, entre outras coisas, de comercialismo, de cedências à pop, de hipocrisia e simplismo político – de resto, todas críticas com um certo fundamento. Apesar disso (ou talvez por isso mesmo), Fat Mike, o letrista e vocalista dos NOFX, insiste em reivindicar orgulhosamente o seu lugar na linhagem punk, reservando espaço em praticamente todos os álbuns para cantar sobre o que é (ou não) essa evasiva identidade musical.

Esta tendência tem tomado formas variadas, incluindo manifestos de pureza musical (“The Cause”, “It’s My Job To Keep Punk Rock Elite”; “Dinosaurs Will Die”), sátiras aos estilos e fórmulas da moda (“Please Play This Song On The Radio”; “Whoa On The Whoas”; “Medio-Core”), desabafos sobre a relação da banda com a cena punk (“The Desperation’s Gone”; “We Threw Gasoline On The Fire And Now We Have Stumps For Arms And No Eyebrows”) e em particular com os fãs (“60%”; “Cell Out”), nostalgia sobre os primórdios do movimento (“13 Stitches”; “Hardcore ‘84”; “Jaw Knee Music”), private jokes sobre membros da indústria (“Jeff Wears Birkenstocks”, “I’m Telling Tim”, “August 8th”), ou uma mistura de tudo isto (“Punk Guy”).

Para além disso, há as piscadelas de olho jocosas a clássicos do punk-rock, quer em títulos de canções (“Kids of the K-Hole”; “Flossing a Dead Horse”; “Stranger Than Fishin’”), quer no próprio design das capas (a do EP Surfer é assumidamente decalcada do álbum Suffer, dos Bad Religion). E, claro, há aquela bizarra versão jazz do hino hardcore “Straight Edge”, dos Minor Threat.

Por si só, muitas destas músicas são bem fixes, tocadas em ritmo frenético mas melódico e quase sempre cantadas em tom sarcástico. As letras podem não ser necessariamente sofisticadas em termos de conteúdo, mas contêm sempre tiradas engraçadas ou maneiras criativas de revisitar o assunto (por exemplo, grande parte de “Jaw Knee Music” é uma colagem surrealista de versos punk-rock dos anos 80). Olhadas no seu conjunto, no entanto, não deixam de revelar um certo espírito umbiguista, revivalista e masturbativo – punk for punk’s sake.

Acrescente-se que toda esta intertextualidade se traduziu também em diálogos com outras bandas. Num álbum de 1997, Fat Mike criticou explicitamente Kathleen Hanna, a icónica fundadora dos Bikini Kill, com a canção “Kill Rock Stars” (nome da editora mais associada com Hanna na altura). Hanna respondeu dois anos mais tarde com “Deceptacon”, tema do primeiro álbum do seu novo projecto musical, Le Tigre. Nenhum dos dois sai muito bem na fotografia, trocando insultos pessoais demagógicos sem grande inspiração.

Em “The Separation of Church And Skate”, os NOFX queixam-se de que a rebeldia de outrora foi cooptada por concertos pop-punk cheios de miúdos complacentes (“When did punk rock become so safe? When did the scene become a joke? The kids who used to live for beer and speed now want their fries and coke”). Isto valeu a Fat Mike um ataque directo por parte dos Propagandhi, que o acusaram de ser parte do problema e não da solução, na canção “Rock For Sustainable Capitalism”. Os NOFX contra-atacaram com duas bocas no álbum Wolves In Wolves’ Clothing, uma na sátira à esquerda caviar “The Marxist Brothers” e outra na reafirmação final de credenciais DIY, “60% (reprise)”.

E no entanto, do narcisismo, da nostalgia snob e da obsessão competitiva por uma suposta autenticidade, volta e meia sai algo genuinamente poderoso…

Incluída no álbum The War On Errorism, de 2003, “We Got Two Jealous Agains” é, por um lado, uma canção sobre comparar colecções de discos e avaliar alguém pelo seu gosto musical ou falta dele (“I thought you were the one when I heard “Holidays in the Sun” come from your bedroom, but my mind started to stray when I saw Youth of Today mixed with your singles”). Mas mais do que isso, é sobre aquele momento da relação quando um casal se junta e, ao fundir as colecções, descobre novas cumplicidades através dos álbuns repetidos (o título refere-se ao segundo EP dos Black Flag, Jealous Again).

A premissa serve também de pretexto para os habituais jogos de palavras (“We got two Articles of Faith and 31 minutes of Group Sex”). De facto, mesmo nos temas mais irados e sentidos, um dos meus aspectos favoritos nos NOFX sempre foi o modo como vão buscar estratégias à linguagem da comédia: não apenas a ironia e a provocação irreverente, mas os trocadilhos, as caricaturas, as imitações, as mudanças de ritmo súbitas, o timing das punchlines…

Ainda assim, “We Got Two Jealous Agains” poderia ter sido apenas uma música gira, misto de canção de amor dedicada à esposa do Fat Mike e canção de amor dedicada ao próprio punk-rock. Mas adquiriu um novo significado após o divórcio do vocalista, em 2010, dando a origem a uma emotiva sequela, melancolicamente intitulada “I’ve Got One Jealous Again, Again”.

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