ENOlogias

«Greguerías» são textos breves que se assemelham a aforismos através dos quais se expressa de forma aguda pensamentos filosóficos, humorísticos, ou de outra índole. Consideradas por alguns um género literário autónomo, as «greguerías» foram criadas por Ramón Gómez de la Serna, editadas em tempos pela Assírio & Alvim, na saudosa colecção Gato Maltês.

O preâmbulo não tem nada a ver com o que se segue, é apenas uma forma pretensiosa de confessar uma incapacidade: despachar a caracterização do autor que mais contribuiu para a modernidade pop-rock com uma «greguería». Até os mais distraídos terão percebido que o santo patrono desta casa é Brian Eno, um autor que possui o dom da ubiquidade, tendo estado presente, como músico, produtor ou curador, nos momentos mais marcantes da história da música.

Membro da formação original dos Roxy Music, com quem gravou dois álbuns – Roxy Music (1972), For your pleasure (1974) – Brian Eno iniciou a sua carreira a solo, gravando álbuns seminais como Taking Tiger Mountain (by Strategy) (1974) ou Another Green World (1975), o seu grande salto em frente, um álbum que marcou o afastamento da estrutura canção – ainda que por lá se encontrem pepitas como St. Elmo’s Fire, I’ll Come Running, Golden Hours – em direcção a uma abordagem mais etérea e minimalista do som. Encarando o som como um ecossistema composto por várias camadas, Brian Eno primou quase sempre pela novidade e sofisticação sem nunca prejudicar a riqueza melódica e o ritmo. Mesmo na série Ambient Music, em que o groove é interrompido momentaneamente por uma pesquisa sobre os efeitos da música em diferentes contextos e situações, Eno oferece-nos uma multiplicidade de sons capazes de afectar a experiência sensível.

O resto da história é conhecida, Eno conseguiu transformar em ouro tudo aquilo que tocou, produzindo entre 1977 e 1980 duas célebres trilogias: Low, Lodger e Heroes, de David Bowie; e More Songs About Buildings and Food, Fear of Music e Remain in Light, dos Talking Heads. Pelo meio integrou o super-grupo Harmonia, trabalhou com John Cale, Devo, Laaraji, Harold Budd, foi curador da compilação No New York, que incluía bandas como The Contortions, DNA, Mars, Tennage Jesus and the Jerk, etc, e lançou com David Byrne o melhor álbum da história da música, My Life in the Bush of Ghosts (1981), uma tapeçaria sonora repleta de grooves elípticos intercalados por vozes bizarras provenientes dos sítios mais inóspitos.

Ao derrubar convenções e redefinir o significado de inovador, Eno passou a ser uma figura incontornável nas discussões sobre música moderna. Abalançando-se à «greguería», o crítico de música Lester Bangs descreve-o como um verdadeiro original mas sempre uma contradição: «He’s a Serious Composer who doesn’t know how to read music. What may be worse, he’s a Serious Composer who’s also a rock star. But what kind of rock star is it that doesn’t have a band and never tours». 

A frase de Lester Bangs expõe as idiossincrasias de Eno e alude às transformações que ocorreram na segunda metade do século XX, com o tratamento electrónico do som a desviar a música da sua sagrada escritura, a notação, do seu hierarca, o director de orquestra, e dos seus dirigidos, os músicos; e com o estúdio de gravação a transformar-se num instrumento vital para a criação musical, o que veio retirar protagonismo ao músico virtuoso e expôs os limites do intérprete que fala com autoridade da sua autenticidade, partindo do princípio que os espectáculos ao vivo são mais verdadeiros porque neles não existem os artifícios do estúdio nem outros maneirismos. Inserindo-se numa genealogia de produtores singulares, como Phil Spector, Joe Meek, George Martin, Teo Macero ou Lee Scratch Perry, Brian Eno intensificou a potencialidade criativa do estúdio de gravação, expandindo a sua capacidade de criar novos mundos sonoros e formas de os experienciar.

Se Brian Eno é uma figura chave na história da música moderna é porque atravessa diferentes lugares e desempenha diversos papéis. Para utilizar um palavrão caro a algumas correntes feministas, Eno é um precursor da interseccionalidade, que articula e exerce diversas funções, operando uma indistinção entre compositor, músico e produtor.

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