A economia moral da cassete

Um arquivo de cassetes é um repositório biográfico. Se estas fotografias mostram algo, ocultam uma lógica de progressão do gosto, deixando ainda invisíveis as mediações que levaram a que essas gravações existissem. Cada vez que o dedo tocava no botão vermelho da gravação encerrava-se um percurso por vezes intrincado de influências e iniciava-se nova fase de proselitismo musical.

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Algumas cassetes, as mais antigas, foram gravadas do vinil. Lembro-me de visitar com o meu amigo Alex a coleção de vinis do seu irmão Tiago. Passávamos os vinis e íamos gravando as músicas que achávamos melhores no momento, com tudo o que isso tem de discutível. Alguns cassetes possuem essa lógica de best-off: três músicas dos Doors, cinco dos Queen, quatro dos Violent Femmes, seis dos Clash, duas dos Talking Heads, quatro dos Dire Straits. Mais tarde convenceram-me que um álbum era um corpo por inteiro e que parti-lo às postas não era a melhor política. As cassetes passaram então a ter  um álbum de cada lado, quando cabiam os dois. Respeitar a unidade da obra é justo, mas é de saudar essa transferência do poder da selecção para quem grava.

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O single também entrara na altura em crise, mal ajustado ao tempo do CD. Antes disso, a cassete não tinha apenas a vantagem de eliminar a aura do vinil, permitindo fazer circular a propriedade intrínseca à música pelos decks de rádios e aparelhagens. Mais relevante, ajustava-se a esse mundo novo do walkman, onde as vantagens da portabilidade competiam com os benefícios da privatização da audição. A liberdade concedida pelo walkman não tinha preço, criando fundamentais autonomias familiares e uma relação musical distinta com o espaço público: a música associava-se agora às imagens de diversos percursos. A capacidade de reproduzir a propriedade tornava a cassete um meio crucial da expansão musical, embora com o estatuto menor atribuído a uma cópia, neste caso à cópia da cópia. Recomprava-se por um preço mais barato num formato moderno e com outras funcionalidades. O vinil subsistiu entretanto enquanto objecto distinto, por vezes um pouco snob, mas diferenciado pelo som característico e pelas capas largas que o CD jamais conseguiu igualar. Aparentemente, semelhante processo de revalorização está a afectar hoje as cassetes e talvez isso me leve a poupar este património ao desconforto do caixote do lixo. A cassete viveria ainda um breve e feliz matrimónio com o CD, mas pouco mais tarde, quando o CD se adaptou à portabilidade do discman e aos leitores dos rádios dos carros, a ruptura era inevitável. Depois, a internet destruiu democraticamente tudo o resto, tornando o ex-massificado em gourmet nostálgico.

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Para lá do circunstancial interesse biográfico, a história da cassete é mais atraente a uma escala maior. Recuperar os seus circuitos e formatos é algo que entusiastas amadores e profissionais tendem a evitar, apegados que estão ao conforto da análise do produto e dos seus supostos efeitos sobre os indivíduos. Pela bricolage intrínseca à gravação, os arquivos pessoais de cassetes serão até mais verdadeiros do que as coleções de vinis e de cd’s. Mas mais importante de que a organização da matéria será perceber os seus itinerários. Redes de trocas musicais apoiadas na tecnologia de reprodução assumiram incontáveis morfologias e explicam por que razão num local qualquer uma banda era grande e na terra ao lado irrelevante, que obscuras formações tivessem bizarras geografias de culto.

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De que forma estas cassetes giratórias reproduziram ou contestaram as tendências da indústria musical é uma questão a determinar. A possibilidade da cassete ter criado mercados de troca imprevisíveis não apenas obriga a repensar a história da circulação e do consumo musicais como permite apontar para a formação futura de outras economias de troca. Resgatadas a críticas apressadas, a tecnologia e a reprodutibilidade podem criar outros tipos de moralidade. Sem romantizar em demasiada, porque a cassete não terá destruído a indústria ou alterado significativamente o seu poder de formar o gosto, parece claro que promoveu um terreno marginal. Nas margens da própria indústria, por sistemas paralelos de fuga ao cobrador de impostos, com as cassetes piratas de feira, base fundamental de crescimento de uma certa música popular que mistura o tradicional, o “pimba”, as variedades e hoje o “internacional popular” via Brasil, mas sobretudo a partir de uma dinâmica menos localizável consentida pela reprodução e pela reprodução da reprodução, num acrescento de colagens, selecções e partilhas que excedem a questão musical.

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2 thoughts on “A economia moral da cassete

  1. Inês Brasão says:

    Gostei muito deste texto e reconheço-me nele, do ponto de vista biográfico. É uma daquelas matérias urgentes: antes de estas formas de contar a vida das pessoas acabem no caixote do lixo, alguém, nós, tu, Nuno, leve isto por diante. É terreno fértil e introduz novas técnicas sobre o estudo da recepção. Senti algum tom nostálgico e romântico, que tu próprio assumes. perdeu-se o gesto, o lado físico do processo, e é o dedo, e não a mão que conduz tudo. Por isso, não é uma crítica, até porque este espaço é o de uma produção livre e desarrumada de cientifismo.Ainda bem que os há. Levou-me apenas a olhar para os adolescentes lá de casa e perceber o quanto eles, de alguma forma, contarão uma história semelhante, mas com tecnologia diferente. São exímios na produção de playlists (de onde recortam, em cada banda, os temas da sua preferência, ouvindo o pote sequencial onde cabem coisas diferentes e incoerentes: pop, grunge, rap, as remixagens da folk music (diabo na cruz e etcs (devo estar a cometer alguma asneira com estas classificações), em fazer cortes e costuras sobre o material depositado. Também as mostram aos amigos graças àquele prodígio das colunas ambulantes e de as festas se fazerem a partir de portáteis em que, ao som, se acrescenta o vídeo, tantas vezes o grande “hit” do seu olhar e atenção. É verdade que tornará mais difícil entender por que gostos passsaram, num tempo futuro. As suas listas apagar-se-ão e substituirão por outras, mas são igualmente formas de transgressão da indústria, e processos de partilha. Mas pronto, tudo dizes isto mesmo: que as novas formas não deixam de formar o gosto à revelia da coerência do cd ou do album. Estamos a concordar. Mas olha, apeteceu-me escrever, também para marcar a minha presença como leitora. (*Nota: este texto é um pedido urgente para que se faça uma história da cassete. Nada de mal entendidos)

  2. nunodomingos says:

    Sem dúvida Inês, as possibilidades de mistura são hoje muito mais relevantes do que eram no tempo da cassete, o que torna aliás as coisas mais interessantes. O tempo da cassete massificada acabou mas o da mistura ainda só está a começar.

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