Punk Western

Na semana em que estreou finalmente o novo western de Quentin Tarantino, The Hateful Eight (mal traduzido como Os Oito Odiados), vale a pena realçar a interacção entre este género e o universo musical punk. A ligação não é óbvia para todos – as bandas sonoras de westerns mais marcantes pertencem a baladeiros acústicos, como Leonard Cohen (McCabe & Mrs. Miller) ou Bob Dylan (Pat Garrett and Billy the Kid) e os ‘spaghetti westerns’ ficaram para sempre associadas aos acordes bizarros de Ennio Morricone.

Não obstante, o punk-rock revelou fascínio pelo imaginário western desde cedo. O segundo álbum dos The Clash, Give’Em Enough Rope (1978), para além de um título que não destoaria num filme com Clint Eastwood, tem na capa uma evocativa imagem de um cowboy morto no deserto, devorado por abutres e observado por um homem montado num cavalo. Por sua vez, em 1981 os Dead Kennedys incluíram no EP In God We Trust, Inc. uma cover do genérico da série de televisão “Rawhide”.

De resto, existe todo um subgénero resultante do cruzamento de punk-rock com sonoridades country e folk, reminiscentes das baladas de cowboys – é o chamado cowpunk, onde se podem incluir bandas como os The Cramps ou os Social Distortion. O próprio vocalista dos Dead Kennedys, Jello Biafra, explorou este estilo de forma mais elaborada com os Mojo Nixon, em Prairie Home Invasion (1994). Mais recentemente, os Me First And The Gimme Gimmes dedicaram todo um álbum a covers punk de canções country, obviamente intitulado Me First And The Gimme Gimmes Love Their Country (2006). Também os The Vandals experimentaram com o formato, numa abordagem tipicamente disparatada, com o projecto The Vandals Play Really Bad Original Country Tunes (1999).

Ainda assim, o melhor contributo dos The Vandals nesta matéria é dado logo no segundo álbum da banda, When In Rome Do As The Vandals (1984). Em “Mohawk Town”, recorrem ao estereótipo do cavaleiro solitário que chega a uma cidade hostil para satirizar as rivalidades entre punks e skinheads:

Em parte, o fascínio pelo ambiente western prende-se sem dúvida com a imagem do justiceiro fora-da-lei, mas há também uma relação específica com o cinema, em particular com os ‘spaghetti westerns’. Sardónicos, zangados e violentos, são filmes cujo espírito antecede de certa forma a atitude visceral que inspira o movimento punk. Assim se explica que os Leftöver Crack, ao traçar esse paralelo, não deixem de prestar homenagem a Sergio Leone, com “The Good, The Bad & The Leftöver Crack”, ou que os Rancid tenham dedicado uma canção ao Django, de Sergio Corbucci.

Esta última é uma grande canção, com contagiantes riffs de psychobilly e a voz embriagada de Tim Armstrong. Mas a versão saída no ano passado, dos dinamarqueses Hola Ghost, capta ainda melhor a atmosfera árida de um filme sobre um pistoleiro misterioso que arrasta consigo um caixão (de onde às tantas saca uma metralhadora para abater um bando do Ku Klux Klan).

 

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