B de Beyonce

Alguma imprensa musical formula às vezes uma pergunta em forma de lamento: Para onde é que foi a música de protesto? Porque é que já ninguém pega numa guitarra e grita contra as injustiças do mundo? Hoje em dia talvez não sejam as guitarras e os berros a expressar o descontentamento mas os beats, samples e vozes. Mas qual será a sua eficácia política? Se exceptuarmos o fenómeno Kendrick Lamar, cujo tema «Alright» foi convertido em hino do movimento «Black lives matter», as vozes do descontentamento continuam a ser marginais e os seus seguidores permanecem agrupados por nichos, cada tribo tem o seu som e o seu messias e regozija-se por ser minoritária e chegar a poucos.

Cada dia escreve-se um novo capítulo na divisão entre as minorias iluminadas e virtuosas e a maioria bronca e apática. Como os músicos admirados pela maioria estão condenados a estar fora da política, cada gesto político que façam é encarado como mais um golpe publicitário ou uma estratégia de marketing. Ou seja, qualquer coisa que façam está condenada a ser pouco edificante.

Sem a elegância nem as prerrogativas dos músicos de protesto, Beyonce, a rainha da pop, ousou fazer algo político. Algo que recusasse a delimitação das suas esferas de intervenção e dividisse o que diz respeito a uns e a outros. Como foi a apresentação no Super Bowl, em que o exército de Bey se vestiu como os membros do partido Panteras Negras, desafiando o universo «whitie» composto por cheerleaders aprumadinhas, ou o videoclipe «Formation», uma versão «black is beautiful» do século XXI, em que os vestidos Gucci não impediram uma crítica à violência policial e ao racismo institucional nos EUA.

Enquanto a direita abominou o uso político do prime time televiso e achou que o vídeo constituía uma afronta ao american way of life (tipo demos-vos visibilidade e agora vêm contestar-nos), a esquerda exerceu o seu proverbial pessimismo do intelecto e confiscou a vontade política de Bey, dizendo que tudo não passava do triunfo do superficial sobre a substância. É importante que exista um aparato crítico e negativo que não se compadeça com as heroicizações excessivas de Bey. Porém, seria igualmente vantajoso que a noção de crítica não se restringisse a detectar erros e apontar falácias, nem caísse na tentação de neutralizar as contradições através de veredictos absolutos.

Bey é uma celebridade, rica, bem-parecida, veste roupa de luxo, pode ser considerada um símbolo do consumismo e da engrenagem capitalista, mas a sua aparente complacência com o sistema joga-se no terreno da indefinição. Ela diz em «Formation» que não passa de uma «Texas bamma», quer dizer, uma caipirona do sul que mesmo usando acessórios de luxo nunca é considerada verdadeiramente chique, ao contrário das meninas brancas das famílias tradicionais. Bey nasceu em Houston, Texas, e os seus pais em Louisiana e Alabama, dois estados do sul marcados pela escravatura, uma memória que se mantém viva nesta canção. O gosto pela ostentação constitui aliás uma forma, propositadamente deselegante, de Bey celebrar a sua mobilidade social, antes o luxo e o descomedimento do que requinte e distinção. Mais desconcertante talvez seja a espetacularização que Bey faz da sua vida privada, com inúmeros episódios sobre a sua vida conjugal. Desta feita, Bey mostra a sua filha, Blue Ivy, para afirmar o orgulho que tem no seu cabelo afro.

O videoclipe «Formation» não se resume a uma celebração identitária do orgulho negro, ele trabalha sobre diversas representações e contém imagens incisivas que justapõem elementos heterogéneos: vontade política e iconografia pop. Tendo New Orleans como cenário, uma cidade devastada pelo furacão Katrina em 2005, que atingiu sobretudo a população negra, Bey questiona «o que aconteceu em New Orleans?» para depois dizer: «bitch, ‘m back by popular demand», que reconverte a diva pop numa activista política. O videoclipe cria um certo sentido de realidade, um senso comum partilhado, e contém várias sequências brilhantes, como a coreografia de Bey no corredor de uma mansão sulista; a imagem de um jornal fictício denominado «The Truth», como contraponto à agenda noticiosa de canais como a Fox News, que traz na capa a foto de Martin Luther King, acompanhada pelo título «mais do que um sonhador»; a dança de um miúdo negro diante de um batalhão de polícias, enquanto na parede surge grafitado «parem de atirar sobre nós»; e culmina com a cantora submersa num carro da polícia.

Dir-se-á que se trata de imagens gratuitas, falaciosas e sem profundidade, mas o problema talvez seja a falta de confiança política que temos nas imagens pop e, sobretudo, a tendência que alguns têm para ridicularizar aqueles que se deixam iludir por elas.

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