Oráculos ipodianos

Em John From a música não é apenas a de João Lobo. Ela é um meio de entrada no mundo da adolescência que o filme retrata, sob a paisagem urbana de Telheiras. A escolha aleatória de músicas no iPod oferece a Rita e Sara, as duas  protagonistas, um oráculo que adivinha a sua existência próxima. No iPod as músicas não estão organizadas por álbuns, são peças de uma lista, tão longa quanto a tecnologia permite. O ajustamento da escolha musical ao momento do dia ou ao estado de alma é assim mais fácil. O oráculo musical ajuda a recriar uma adolescência criativa e cúmplice. O realizador Nicolau trata de um assunto que se tornou delicado e vigiado, o do começo do interesse sexual, neste  caso ficcionado pela atração da  adolescente  Rita por um homem mais velho.  A situação é narrada a partir dela e tomando o amado fotógrafo Filipe como elemento quase  passivo, distante e sobretudo inocente.  Rita tem desejos, como raparigas e rapazes têm, mas estes não respondem a uma visão pavloviana da vida, já que Rita pensa, age e sobretudo imagina. E é assim que Telheiras se vai transformando numa Papua Nova Guiné, mesmo contra a vontade das previsões do iPod.

 

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Raiva contra a máquina

Andava no ciclo preparatório quando vi escrito, pela primeira vez, numa mesa de sala de aula, “Rage Against the Machine” (RATM). Para um puto imberbe como eu, a frase era suficientemente enigmática para ter permanecido na minha mente uns dias. Não mandava um professor para o caralho, não remetia directamente para qualquer sinal escatológico, não era um coração ou uma declaração de amor, não era um símbolo de orgulho futebolístico. Mas, acima de tudo, intrigava-me a razão que levava alguém a declarar raiva contra a máquina. E que raio de máquina é que terá feito mal ao tipo que escreveu isto? Creio que essa imagem se terá eternizado na minha mente porque não passaram muitos dias até ter visto RATM na televisão e ter percebido que era, afinal, o nome de uma banda. Mas, para além de não ter ficado esclarecido quanto ao significado do nome, a curiosidade desenvolveu-se. Nos primeiros segundos do vídeo (“Guerilla Radio”) surgem uns indivíduos a trabalhar tranquilamente nas suas máquinas de costura. O ecrã salta para a frase “everybody in denial” e, em seguida, no lugar desses trabalhadores, surgem os elementos de RATM a tocar com a convicção de uma banda de covers, num qualquer bar de Torres Vedras, até explodirem em sintonia com o microfone de Zack de la Rocha. Mais perturbante, era a imagem do Che Guevara no amplificador do Tom Morello e a estrela vermelha no bombo e na t-shirt do Brad Wilk. Educado numa família conservadora e meio apolítica a pender para a direita, ali estava eu perante uma série de símbolos contra os quais os meus pais zurziam frequentemente como a origem de muitos males no mundo. O que é que se passava na cabeça destes gajos? Quando via um clip do Marilyn Mason, o que retirava daí, ignorando a substância, era apenas um mamado que se comprazia provocadoramente em lutar pelas forças do mal e em assustar crianças com tipos deformados e freaks. Encaixava perfeitamente na narrativa que tinha herdado dos meus pais e que dividia o mundo entre boas pessoas e drogados malvados. Os RATM não. Eles pareciam levar o que faziam a sério. Eles tinham mesmo qualquer coisa para dizer e o propósito não parecia ser apenas chatear os meus pais.

Em poucos anos, letra após letra, vídeo após vídeo, a estranheza transformou-se em orgasmo. Sentir algo que era tanto uma avalanche sonora como de ideias, lidar com a afirmação de que o mundo é afinal uma merda mas os culpados disso têm nomes e caras e constatar que, ao expor assim a coisa à luz do dia, estes gajos estavam mesmo a irritar alguém, tinha um efeito que não se encontrava em música nenhuma que conhecesse. Mesmo o punk/hardcore, que me abalroaria, também, muito pouco tempo depois, não era bem a mesma coisa. A guerra que declarava era mais camuflada pela marginalidade das suas “cenas”. Não havia batalhões de polícias e helicópteros a sobrevoar o público dos concertos quando tocavam à porta duma convenção democrática, para além de todas soarem ao mesmo e tocarem orgulhosamente mal como tudo (ainda não me tinha rendido incondicionalmente à magia das produções lo-fi e à urgência que aquele chavascal todo representava). Além disso, os concertos acabavam, alguns iam para casa ler umas zines e pensar nas coisas, mas o que predominava, mais do que raiva, era uma sensação de conforto fruto da descarga catártica que proporcionavam. Com RATM era diferente. Só de ver um videoclipe ou um vídeo de um concerto a sensação que ficava era a de que quando abríssemos a porta da rua já estava tudo a arder. Os RATM tinham a intensidade duma guerrilha, entravam pela casa a dentro e perturbavam a paz do meu quarto, diziam-me coisas tão estranhas quanto novas em cada letra e saltavam fronteiras juntando rap, funk e metal com honesta maestria (na altura, eu e o meu melhor amigo perdíamos horas a esgrimir guitarras com distorção e turntables um contra o outro, na tentativa de superar este fosso terrível que perturbava a nossa amizade e estender a nossa comunhão à música; os RATM não resolveram o problema mas criaram uma ponte importante).

Podemos abraçar todo o cinismo do mundo, e clamar a irrelevância ou a hipocrisia de RATM perante os nossos padrões puritanos (“ai, faziam parte de uma major”; “ai, que cachet tão grande”; “ai, nunca me responderam ao e-mail em que pedia dinheiro para apoiar a luta dos varredores do metro”), mas coisas como esta têm um impacto tremendo quando se cruzam com a curiosidade de um puto que não sabe muito bem para onde é que está a ir. É o mundo que muda, nem que seja numa só cabeça, quando se descobre que a experiência que alguém tem dele é radicalmente diferente da nossa. Um singelo “fuck you, I won’t do what you tell me” ou a mais optimista e desafiante proclamação de que “It has to start somewhere It has to start sometime/ What better place than here, what better time than now?” abre possibilidades.

Faz agora 25 anos que nasceram os RATM e Evil Empire, o segundo álbum da banda, celebra o seu vigésimo aniversário. Entretanto, a raiva não cessou de crescer.

 

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