O léxico do amor

Eram jovens, estilosos, modernos e arrogantes. Pretendiam acabar com os riffs de guitarra, as malhas rock e fazer da pop um objecto supremo. Tinham um programa musical ambicioso: fundir o esplendor orquestral do disco-sound com a música de câmara. Não se reconheciam na poesia dos simples, nem na energia dos viscerais. Embora desdenhassem os adolescentes punk, os seus berros de cólera e indumentária indigente, apropriaram-se do seu zelo militante para criar manifestos. Zombavam das fatiotas e imaginários dos novos-românticos: achavam-lhes uma piroseira. Preferiam a sobriedade dos fatos completos e os lamês dourados. Dispunham de um portfolio de estratégias sedutoras, que incluía a personificação de diversos papeis e fantasias, reciclar restos veneráveis de uma cultura extinta, figuras de estilo vulgarizadas pelos clássicos de Hollywood, sem dispensar um conglomerado heterogéneo de motivos românticos, desde as evocações de cupido («shoot that poison arrow through my heart»), passando pelo fim traumático de relações amorosas («now that you’re gone I still want you back»), até às lágrimas furtivas («tears are not enough»). Enquanto snobes emproados privilegiaram a esfera do jogo e estavam-se nas tintas para a autenticidade. Foram outros românticos, introduziram um léxico e reinventaram o amor.

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