Terror hardcore

Os The Ain’t Rights eram uma banda de punk-rock com um espírito orgulhosamente DIY, sem presença nas redes sociais e insistentes na primazia da música ao vivo em detrimento do estúdio. Quando deram por si num concerto no meio do nada, ao pé de Portland, perante um público de skinheads defensores da supremacia branca, os The Ain’t Rights fizeram o que de mais rebelde lhes veio à cabeça: abriram com uma cover do “Nazi Punks Fuck Off”, dos Dead Kennedys. Não saíram de lá vivos.

Isto passa-se em Green Room, o mais recente filme de Jeremy Saulnier, uma obra hardcore em mais do que um sentido. Por um lado, em termos do grau de terror… No excelente Blue Ruin, Saulnier reimaginara metodicamente thrillers de vingança tipo Taken, aplicando a fórmula a personagens ‘vulgares’. Em Green Room, fá-lo com um outro subgénero cinematográfico, o das histórias de sequestro violentíssimas como Hostel. Ou seja, os protagonistas não são especialmente dotados ou desembaraçados, os vilões são mais pragmáticos do que sádicos e mais desesperados do que brilhantes. Sucessivos anticlímaxes subvertem as expectativas do olhar treinado para este tipo de tramas de cerco e fuga ao introduzir limites realistas à acção e, em geral, rejeitar catarses fáceis. Exercício formalista de desconstrução intertextual de arquétipos ou meditação provocadora sobre as implicações da violência? Nem um nem outro, necessariamente. Green Room pode ser visto como revitalizando o género ao desafiá-lo: afinal de contas, o estilo realista não deixa de ser um estilo e, mais do que evocar princípios humanistas, ajuda precisamente a conferir uma intensidade visceral ao que seriam meros lugares comuns já gastos.

A abordagem de Saulnier aproxima-se assim dos fictícios The Ain’t Rights, para quem a atitude aparentemente despojada parece ser um fim em si mesmo: mais do que iconoclastia, traduz uma sincera devoção à brutalidade estética dos registos em que operam, seja o terror psicológico de John Carpenter ou a sonoridade minimalista dos Minor Threat. Nesse sentido, trata-se de uma obra que é também hardcore no sentido punk do termo. De resto, a fusão entre a dimensão punk da banda e o próprio filme não termina aqui… O purismo dos The Ain’t Rights serve de conveniência narrativa, pois a recusa deliberada do digital permite colocá-los em perigo, no meio do nada, sem que ninguém saiba onde se encontram. Num engenhoso atalho de caracterização, no início os membros da banda são entrevistados por uma rádio amadora e revelam a sua personalidade ao escolher artistas que ouviriam numa ilha deserta (“The Misfits… No, The Damned.”). Este jogo ressurge mais tarde, pontuando o ritmo da acção e culminando na impagável punchline que remata o filme. E em última análise, tal como tantos hinos de punk-rock, Green Room mostra-se menos interessado em discutir ideologias do que em saborear o apelo de mandar neo-nazis para o caralho.

 

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