Macarena

A novela Carmen, escrita por Prosper Mérimée em 1845, inspirou o libreto que Henri Meilhac e Ludovis Halévy escreveram juntamente com o compositor Bizet em 1873. A ópera Carmen, passada em Sevilha, conta a história de um soldado, D. José, seduzido por uma cigana, Carmen, pela qual deixa o exército e um amor de juventude. Quando Carmen por fim o abandona, encantada por um toureiro carismático, D. José prepara a sua vingança e mata-a. Os especialistas têm assinalado que a personagem e Cármen afasta-se da tradicional figura da apaixonada passiva, para se tornar algo mais pujante, indeterminado e contraditório, que apenas os mais distraídos poderiam confundir com vulgaridade

Em Dezembro de 1991 uma jovem professora de flamenco encontrou-se com um tenente do exército venezuelano que lhe contou sobre os seus planos. Três meses mais tarde, enquanto este militar venezuelano penava na prisão, a professora de flamenco atuava numa festa organizada por Gustavo Cisneros, magnata da comunicação sul-americano.

Educado nos Estados Unidos, Gustavo é o patriarca de uma família que enriqueceu quando o seu pai, Diego Cisneros, obteve em 1961 a concessão da Pepsi Cola na Venezuela. O grupo Cisneros foi um dos promotores das telenovelas na América do Sul e dos concursos de misses que moldaram a imagem icónica da venezuelana branca e loura. Com a ajuda da mulher, Patrícia, Gustavo patrocinou diversas coleções de arte, do Moma ao Prado.

Carlos Andrés Perez, cujo governo cairia em 1993, também se encontrava na festa que Gustavo Cisneros organizou em Março de 1992, mais ou menos um mês depois de Hugo Chavez ter pela primeira ver tentado tentativa assumir o poder através de um golpe militar. Depois do afastamento de Perez, na sequência de um escândalo de corrupção motivado por desvios de fundos públicos, a Venezuela manteve-se em crise severa e em 1996 chamou o FMI, pela segunda vez num período de dez anos. Em 1998 Chavez venceu as eleições e iniciou a etapa bolivariana da história da Venezuela, que parece hoje, já depois da sua morte e sob a liderança de Maduro, perto do fim. Cisneros apoiou a eleição de Chavez, mas mudaria de opinião. Em 2002 participou no golpe militar contra o novo presidente, mantendo-se desde então um fiel opositor. Ator internacional, Gustavo doou verbas significativas para várias candidaturas do casal Clinton.

Diana Patricia Cubillán Herrera celebra em 2016 trinta e um anos de carreira como bailarina de flamenco, trajeto iniciado em restaurantes e casas nocturnas. Em entrevista ao jornal La Verdad defendeu que tudo fez para tornar numa arte esta dança de tabernas. Para isso fundou uma academia e manteve até hoje a prática da dança, mas também as funções de professora e coreógrafa. Em 2015 encenou e interpretou a Carmen de Bizet no teatro Teresa Carreño em Caracas. Muitos anos antes, em Março de 1992, Diana Patrícia foi contratada por Gustavo Cisneros para actuar na sua festa. Tinha então 25 anos e vários planos.

António Romero Monge deixou às duas e trinta da madrugada a festa que Gustavo Cisneros organizou em Março de 1992 e dirigiu-se com Rafael Ruiz Perdigones para o hotel onde estavam alojados. Sentou-se a uma secretária e escreveu em cinco minutos a letra de uma nova canção, à qual chamou Madalena. Nascido em 1948 em Alcalá de Guadaira perto de Sevilha, António cedo se dedicou à música popular andaluza. Desde os 14 anos que tocava com o companheiro Rafael, andaluz da pequena cidade de Dos Hermanas. O duo Los del Rio ganhou popularidade no circuito de festividades locais e com rapidez alcançou projecção nacional. Convidados para animar festas da aristocracia espanhola, chegaram à televisão em 1965, gravando então o primeiro álbum com uma major (Columbia, 1966). As suas rumbas e sevilhanas conquistaram o México em 1969 e neste país transitaram das festas para o mundo emergente da televisão privada. A fórmula de sucesso repetiu-se no entretenimento televisivo venezuelano, apadrinhado pela poderosa Venevision de Gustavo Cisneros.

A canção que António Romero Monge escreveu no seu quarto de hotel em cinco minutos iria transformar estes músicos populares da Andaluzia em vedetas globais. Segundo a biografia oficial da canção, durante a festa que Gustavo Cisneros organizou em Março de 1992, Diana Patricia Cubillán Herrera interpretou um impressionante flamenco que os Los Del Rio acompanharam por alguns momentos, com António a arriscar um improviso, repetindo a frase “dale a tu cuerpo alegría, Magdalena”. Este seria o refrão da letra completada por António no quarto de hotel. Já sob o nome de Macarena, a canção tornar-se-ia na sétima mais vendida da história da indústria musical. Sugere a narrativa oficial que, ao modificarem o nome da canção, os Los del Rio evitaram plagiar o título de um êxito do conhecido cantor romântico mexicano Jesus Emmanuel Acha Martínez, e ao mesmo tempo as dissolutas conotações bíblicas atribuídas ao nome Madalena no quotidiano venezuelano. O título da canção, explicaram os Los del Rio à imprensa, homenageava a filha de António e a popular santa andaluza com o mesmo nome, uma reencarnação da virgem Maria.

Várias versões de Macarena, em castelhano e na sua tradução inglesa, invadiram as pistas de dança. Esta rumba pop, como alguém a definiu, desceu ao mundo com uma coreografia, permitindo juntar comunidades dançantes pelo globo. Em 1996, ouviu-se a Marcarena na campanha presidencial de Bill Clinton.

A lírica escrita em cinco minutos por António Romero Monge no seu quarto hotel depois de abandonar a festa que Gustavo Cisneros organizou em Março de 1992, foi entretanto analisada com detalhe. John T. Chance, professor de cultural studies da Universidade de Siracusa e especialista em música popular de língua castelhana, considera a personagem de Macarena um produto do laboratório neo-liberal erguido pelo FMI na América do Sul, um corpo movido pelas imagens iconográficas e consumistas desenhadas pelas agências de viagens e pela televisão privada. Afinal, enquanto descartava o seu magala, Macarena sonhava com o Corte Inglês, cobiçava a roupa da moda, desejava férias em Marbelha e uma vida em Nova Iorque, com um noivo mais compatível (“Macarena sueña con el Corte Inglés/y se compra los modelos más modernos/ Le gustaría vivir en Nueva York/ y ligar un novio nuevo(…) “Macarena Macarena Macarena/ que te gustan los veranos de Marbella” “Macarena Macarena Macarena que te gusta la movida guerrillera…Aaay!”).

Esta explicação foi questionada por um estudante venezuelano durante um seminário sobre canção popular no Centro Universitário Moderno de Burgos no qual John T. Chance se apresentou como orador principal. Para Roberto Valderrama, a interpretação mecânica de Chance reduzia as acções de Macarena a uma mera demonstração de arrivismo. Além disso, o professor norte-americano ignorou o verso no qual se atribuiu a Macarena uma simpatia pela “mudança guerrilheira”, para Valderrama um comentário evidente à situação política venezuelana, que a versão inglesa omitiu. Romero Monge, continuou Valderrama, não desejava outra coisa senão denunciar a ambição de uma bailarina de flamenco que, apesar dos seus dotes extraordinários, não se contentava com o seu lugar. Ao contrário do que sugeria Chance, continuou Valderrama, a Macarena não era mais do que uma imagem distorcida do povo venezuelano. Na verdade, concluiu, a Macarena foi uma invenção das televisões de Cisneros, mas que claramente escapou ao seu controlo.

Num vídeo recente, Virgínia Materazzi, chamemos-lhe assim, mostrou-se surpresa com a letra de Macarena, canção que dançou na adolescência, em meados da década de noventa. Como Virgínia, outros entrevistados neste pequeno filme intitulado “90s kids lose their innocence when they find out what the Macarena is really about?”, revelam-se chocados com o conteúdo da lírica livremente traduzida do castelhano, concordando que a música lhes interessava sobretudo pelo ritmo e pela coreografia e que não prestaram atenção às palavras. A tradução inglesa de Macarena torna menos subtil a história de uma mulher representada inicialmente pelo seu corpo extraordinário e acessível (the boys they say that I´m buena they all want me, they can´t have me So they all come and dance beside me … and if your good I take you home with me). Mas foram as aparentes práticas conjugais menos ortodoxas da dita, pecado que a dança e o ritmo tornaram invisíveis a crianças, adolescentes e crentes na integridade da família, que mais perturbaram os autores do filme, não tivesse a heroína trocado o seu noivo Vitorino, enquanto este prestava juramento de bandeira e fidelidade à pátria, por dois dos seus amigos (Macarena tiene un novio que se llama, que se llama de apellido Vitorino, y en la jura de bandera del muchacho se la dió con dos amigos/)”. “She’s a bitch”, concluiu Virgínia Materazzi.

Depois do sucesso de Macarena, os convites para Diana Patrícia animar festas privadas obrigavam-na a dançar a música dos Los de Rio, o que desagradava à bailarina e encenadora. Em véspera da encenação de Carmen em 2015, Diana Patrícia evitava repetir a história da Macarena aos jornalistas, preferindo salientar como a sua Carmen juntava ballet clássico, jazz e mesmo danças árabes.  Por todo o lado, porém, a sua Carmen foi  anunciada como a “Carmen da Macarena”.

 

 

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