Demasiado próximos do fundo

Trump ganhou. Na música, por exemplo, muitos são os que se regozijam porque vêem no homem cor-de-laranja lenha de óptima qualidade para atiçar os fogos da revolta juvenil, recordando os bons velhos tempos de Thatcher e Reagan. Os últimos anos, apesar de umas explosões intermitentes, foram alimentados por um imenso tédio que foi bem-sucedido em fazer passar a sensação de que apenas cozíamos em lume brando. E, no entanto, já todos sentíamos, há muito, o calor que alastrava do subterrâneo, aquele lugar onde se oculta o que nunca deixa de arder. Nada como o aparecimento de um Trump para transformar em espectáculo esta modorra apocalíptica e dar a sensação de vertigem que faltava a uma viagem que fazíamos por empurrão.

Mas não é tanto desse hipotético futuro que quero falar. Até porque, nas análises que se sucedem em catadupa, e, em particular, naquelas que procuram destacar uma América esmagada pela indiferença gananciosa da finança e tornada invisível pela comunicação social e pelas sondagens, o que vemos é que este presente que agora nos tentam vender como novidade já é uma forte realidade, para muita gente, faz tempo. Seria, por isso, estranho que não houvesse uma banda sonora para isso. Ao ler textos como este, por exemplo, é das letras de Modern Life is War que me recordo. Já aqui falei da banda, por isso não vou acrescentar muito mais; leiam esse post, ou, melhor, oiçam e leiam a banda. MLIW não nos oferece exactamente uma análise das desigualdades nos Estados Unidos, ou sequer do crescimento da fossa dos deserdados onde antes caíam as “minorias” e que hoje se estende a uma população branca e rural. Não é uma banda política, no sentido programático. Não tem uma agenda. Mais do que nos oferecer uma reflexão sobre a classe, é uma banda de classe. O interesse de MLIW está em oferecer um relato da vida nessa fossa. Marshalltown (Iowa), a cidade natal da banda, é a paisagem do seu imaginário e de muitas das letras. Cinzenta, decadente, aborrecida de morte, povoada por gente invisível e desnecessária, os outsiders que vivem “dangerously close to the bottom” (in Dark Water) e que nunca sentirão tal sítio como sua “casa” (ver The Outsiders, AKA Hell Is For Heroes Part I); no fundo, gente comum, como os próprios MLIW, não se tivesse dado o acaso de terem conseguido tirar a banda da sua pequena garagem. Para Jeffrey Eaton, vocalista e letrista da banda, o que escreve é parte duma conversa entre “angry americans”. Escutar ou entrar nessa conversa de “angry americans” talvez nos ajude a perceber um pouco melhor o que tornou possível um resultado eleitoral apresentado como chocante, tão chocante como só o que é inexplicável parece poder ser. Talvez nos ajude, em suma, a conectar uma raiva que nos é muito menos estranha do que parece, quem sabe porque insistimos em tapá-la nas armadilhas da distinção, invocando a “burrice”, a “ignorância” e a “boçalidade” para nos fazer crer que estamos mais longe do fundo do que aqueles a quem apontamos o dedo; e, pior ainda, ignorando que não estamos senão a reproduzir e a alimentar o que gerou esta estranha aliança.

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