Arrumadinhos num lugar

Da série a realidade é complexa e tudo isto seria mais fácil se os indivíduos e, principalmente, os músicos estivessem agrupados segundo categorias mutuamente exclusivas, tipo progressistas versus reaccionários, emancipadores versus alienadores, etc. Vem isto a propósito de um episódio descrito por Steve White, baterista dos Style Council, no livro ‘Walls Come Tumbling Down: The Music and Politics of Rock Against Racism, 2 Tone and Red Wedge’, da autoria de Daniel Rachel: ‘Wham played with Style Council at the miner’s benefit at the Royal Festival Hall and somebody had a go at George Michael because he was miming. I remember biting their head off: At least they’re fucking here’ (p. 363).

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George Michael

 

 Para alguns George Michael podia ter morrido uns dias mais tarde, inaugurando os mortos de 2017 e deixando 2016 para as lendas. Mas de certa forma George Michael é mais interessante que Cohen, Prince e Bowie. Era um cantor de massas, não prezado pelo cânone culto, fazia um pop demasiado leve – apesar da boa leveza de “Wake me up before you go go”, ainda nos Wham – com baladas delicodoces (até sobre o Natal, um tema ao qual é difícil sobreviver incólume) e uma imagem algo plástica e foleiramente bonita. O seu público era o mesmo de bandas que fizeram milhões, mas que passaram à história num segundo. Na carreira a solo, tentou fugir dessa imagem, mas ele e as suas editoras sabiam que as vendas dependiam de um modelo pré-definido. Neste aspecto, talvez se aproximasse um pouco de Prince. Mas George Michael, menos talentoso do que os outros, tinha menos espaço para fugir do sistema de produção que o criou. Isso fez as suas lutas políticas mais duras e mais interessantes. Com o conhecido “Outside” George Michael não apenas deu a conhecer as suas preferências sexuais mas fê-lo ao ataque, reclamando a conquista do espaço público, contra quem as tolerava apenas no mundo privado. E se hoje é recordado como um ídolo de uma comunidade LGBT socialmente alargada, ele foi dos poucos artistas que atacou a intervenção do governo de Tony Blair no Iraque, gravando Shoot the Dog. Além da fúria dos tablóides, mesmo entre o universo mais politizado à esquerda, este seu esforço foi menosprezado, provavelmente porque pensaram que ele não fora criado para isto, que não era um intelectual, um transgressor ou um poeta, mas apenas um boneco para adolescentes.

 

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O retrofuturismo dos Stereolab

 

A indústria da nostalgia não dorme e antes que comece a regurgitar o lixo dos anos 90 convém relembrar uma das melhores aventuras musicais da década: os Stereolab. Versados na história da música, tanto popular quanto ‘erudita’, os Stereolab exploraram as ligações escondidas entre o minimalismo vanguardista, o easy-listening (versão muzak) e o krautrock. Munidos de um arsenal maciço de sintetizadores retro, nomeadamente farfisas e moogs, que haviam sido resgatados da indigência musical dos prog-rockers, os Stereolab praticaram uma pop singular e audaz, cheia de groove e sons hipnóticos arrumados segundo o princípio de repetições e variações. Os títulos longos dos seus discos – ‘Cobra and phases group play voltage in the milky night’ ou ‘Transient random noise bursts with announcements’ – traduziam o caos composto da sua música. Se os beeps e bleeps electrónicos foram a sua imagem de marca, a voz angelical de Laetetia Sadier, que sussurrava ‘On va chanter la revolution’, granjeou-lhes fama. Limitada por certo, mas poucos se podem gabar de ter conseguido combinar Françoise Hardy com slogans esquerdistas.

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